sexta-feira, 31 de outubro de 2008

QUESTÃO DE VIDA OU MORTE


A morte está desacreditada. Ingmar Bergman, o cineasta sueco, a colocou frente a frente com um cavaleiro numa partida de xadrez. Mas isso era nos tempos em que o cinema ousava tomar ares de ensaio filosófico. José Saramago, o escritor português, fez da morte uma cansada senhora em greve e ninguém mais morria. Mas isso é uma fábula reflexiva cada vez mais rara. O que temos agora é o domínio da dura realidade dos telenoticiários, arautos de um mundo mórbido que a cada dia nos inocula com o vírus da insensibilidade. Tanto a morte de mentirinha do cinema quanto as mortes grotescas dos jornais banalizaram o significado da morte.

Ao contrário do que dizia Oscar Wilde, penso que a morte é um mistério maior do que o amor. Porque o amor vive-se, experimenta-se, cada um sabe o que é, o que não se sabe é explicá-lo. Mas a morte, não. Ninguém voltou da terra não-desbravada de que Hamlet falava para nos contar como é por lá. É porque não existe esse “como é por lá”. Brás Cubas, o fictício defunto autor, só nos dá o relato de como foi sua vida. Sobre o que viu durante a morte, nada. Moisés escreveu todo o Pentateuco. Teria ele contado a sua morte nos últimos capítulos do livro de Deuteronômio? Essa parte deve ter sido confiada a outro escriba. E nada se diz sobre o período em que esteve morto antes de ascender ao céu.

No livro de Eclesiastes está a razão de os mortos nada falarem a respeito do seu estado. É que os mortos não sabem de coisa alguma. Para eles, não há sol, nem lua, nem trabalho. Dorme-se, apenas. Assim, morrer e ressuscitar três mil anos ou três dias depois não faz a menor diferença. É como um abrir e fechar de olhos. Num milésimo de segundo não se está, num outro se está.

A morte, contudo, deixou de ter a gravidade que possuía. A ficção domesticou a morte e a exibe em câmera lenta, num espetáculo circense que amedrontaria os gladiadores romanos, mas não nossas crianças. O público segue urrando a cada assassinato do herói, com a diferença de que a fé e a coragem também concorriam naquele antigo jogo real, enquanto hoje já nos sentimos mais civilizados porque, ora, trata-se de mero entretenimento.

As imagens onipresentes da morte na guerra nos mostram uma outra dimensão. Se antes só se sabia do resultado da batalha e dos seus mortos e feridos dias depois, agora a guerra é uma transmissão ao vivo com lances de videogame. Se os meninos já brincaram um dia de capa-e-espada e polícia-e-ladrão com a fantasia e a imaginação, hoje se finge que a sala é mais segura que a calçada, embora os meninos tenham filmes e joguinhos de atirar, atropelar e destruir com cenário, figurino, roteiro e trilha sonora.

Para os mesmos meninos (e também para as meninas e os mais crescidos), há ainda a morte cotidiana servida pelos telejornais. A cada tragédia familiar, amorosa, acidental ou proposital, temos nossa vida inundada pelo horror violento da realidade. No entanto, se na primeira vez a imagem do horror causa náuseas, o passar do tempo faz com que nos habituemos a essas imagens, pois o excesso de visibilidade afasta a surpresa e a emoção mais intensa. É como ver o mesmo filme de terror pela vigésima vez. Uma hora ninguém se assusta mais. Ao contrário, é possível até que se ria das cenas que um dia assombraram.

Para George Balandier, a morte “se banaliza pela proliferação das imagens; ela se infiltra, surge e depois desaparece. Outrora, a morte se mostrava como um espetáculo edificante. Hoje, ela se torna um instante midiático, um evento que libera uma emoção fugaz, rapidamente enfraquecida pelo “pouco de realidade” que apresenta para aqueles que lhe assistem. Essa onipresença publicitária, pela qual a morte é barateada, serve como exorcismo; ela se mostra e se dissipa no mesmo movimento, porque ela é sempre uma morte estrangeira, que é dos outros” (Le Dédale: pour en finir avec XXe siècle, p. 110-111).

Sem querer fazer uma apologia nostálgica do passado, principalmente por causa da capacidade seletiva da memória humana que emoldura tanto a infância quanto os séculos antigos, é possível argumentar sobre uma virada ocorrida no pensamento humano com a chegada da modernidade. Enquanto o cristianismo exigia um alto nível de comprometimento dos conversos, a que só se chegaria por meio da abstenção dos prazeres seculares e da mortificação da alma, a morte estava intimamente ligada aos ganhos da vida eterna. Mesmo o protestante, ainda que não aceitasse o processo de auto-imolação previsto no catolicismo, observava com meditação e preocupação seu destino após a morte.

Na modernidade, com a perda do papel regulador da religião na sociedade ocidental, há uma obsessão com a vida mais imediata, com o tudo-aqui-agora. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, houve um “abrandamento do impacto da consciência da mortalidade, mas – mais essencial ainda – desligando-se esta da significação religiosa” (O mal-estar da pós-modernidade, p. 217). Segundo Bauman, “a morte, disposta outrora pela religião como uma espécie de acontecimento extraordinário” que conferia “significação a todos os acontecimentos ordinários, tornou-se ela própria um acontecimento ordinário” (idem, p. 219).

Desvinculada da religião e relegada aos questionamentos existenciais fora de moda, a morte não é mais aquele ente encapuzado de foice na mão. A ciência cosmética e a cirurgia plástica desenvolvem-se a ponto de afugentar as rugas e os vincos, delatores do envelhecimento e da proximidade da morte. Essa gerontofobia, o pavor de envelhecer, leva o ser humano a esconder seus idosos em asilos, como se a ausência deles fosse uma espécie de desejada não-existência da velhice e da morte e a sociedade moderna pudesse respirar juventude sem sobressaltos. Retirada da presença dos vivos, a morte está agora no fast-food, na dieta gordurosa, no mau colesterol, no cigarro, na fumaça dos carros, no buraco da camada de ozônio, nos ácaros do travesseiro. Seu teor transcendental dá lugar a cuidados mais ordinários, mais comezinhos.

Em relação à perda de um amigo ou um parente, recolhe-se o corpo à sepultura em cerimônias breves e a vida dos que ficaram segue seu curso. Se quem morreu foi uma celebridade, monta-se um show midiático e a morte se converte em garantia de audiência. Se morrem muitos de uma vez, em tragédias naturais ou não, a inquietação causada não nos é maior do que se tivesse morrido apenas uma pessoa.

Talvez resida aí o problema: a morte é sempre dos outros. Quando ela nos alcança, já não somos capazes de pensar a respeito.

Não me recordo de quem contava essa história (meus neurônios pouco confiáveis me fazem dizer que o autor é Gabriel Garcia Márquez). Lembro que um escritor contou que sonhara com seus amigos mais próximos. Eles conversavam, discutiam e riam juntos. Até que o escritor avisou que estava na hora de irem embora. Foi quando seus amigos lhe disseram que não podiam ir com ele, que ele teria de seguir só. O escritor percebeu, então, que se tratava da hora da sua morte. Morrer é ir para um lugar onde os amigos não estão?

Mais que isso, morrer é ir para um lugar onde estão o nada e o ninguém.

Passar os dias a pensar na morte também não é boa coisa. Mesmo porque há certa insensatez em despender minutos preciosos tentando resolver algo para o qual os engenhos do homem não encontrarão solução. Pode-se até adiar e odiar a morte, mas não há precaução nem profilaxia que lhe demova de sua tarefa de extermínio. Por outro lado, faz bem tomar tempo para refletir sobre a vida que levamos e a vida pós-morte que queremos.

O apóstolo Paulo pensou a respeito: “Porque tenho a certeza que nem a morte, nem os anjos, nem os demônios, nem as coisas presentes, nem futuras, nem as potências, nem as alturas, nem as profundidades, nem qualquer outra coisa poderá separar-me de Deus” (Romanos 8:38,39).

Meditar sobre a vida é meditar sobre Deus, o Criador e Mantenedor da vida. É encontrar motivos para viver segundo Seus planos; e os planos de Deus são de vida, e não de morte. “Deus não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (II Pedro 3:9). Refletir biblicamente sobre a morte é pensar na vida após a morte, é pensar na Ressurreição, e não em atribulações por limbos e purgatórios nem em viagens reencarnatórias. A Bíblia não oferece uma perspectiva pós-morte em que ectoplasmas se comunicam com os vivos.

“Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas, que te tenho proposto a vida e a morte, a benção e a maldição”. A proposta de Deus é razoável, mas Ele vai além e indica o melhor caminho: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, dando ouvidos a Sua voz e te achegando a Ele” (Deuteronômio 30:19,20).

Joêzer Mendonça, editor do blog Nota na Pauta, escreve com exclusividade para o Questão de Confiança.

Leia também:

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A ORDEM


Ninguém vê os anjos ofegantes pelo céu, num atropelo desalentador. A harmonia caracteriza o Céu, envolvendo tudo e todos. A música produzida na corte eterna denota o espírito organizado dos seres não caídos.

E o que dizer do Senhor? Ele age dentro de preceitos pré-estabelecidos, que fazem parte de Seu caráter. Deus estabeleceu um lugar para cada coisa no cosmo e proveu o homem de capacidade para selecionar e ordenar os elementos materiais da Criação, de maneira que o ser criado pudesse interagir e aprender com as obras de seu Criador. Ordem, eis a primeira e a derradeira frase, o bom-dia e o boa-noite de cada anjo.

Servir a Deus é reproduzir, na esfera humana, a mesma organização escrupulosa que cintila no Espaço.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

CIÊNCIA INACREDITÁVEL


Desde a década de cinqüenta, a neutralidade da Ciência passou a ser questionada. Afinal, se cada um de nós age em função de seus próprios pressupostos, porque excluir os cientistas desta realidade, assumindo que sua atividade profissional deveria ser desempenhada com total isenção de conceitos pré-estabelecidos?

Assim, encarar a Ciência como produção humana motivada por conceitos a priori colocou em xeque alguns dos postulados científicos sustentados há décadas. Se o método científico se baseia em experimentação capaz de sintetizar determinado fenômeno em equações matemáticas, dentro de uma terminologia apropriada, o que fazer com aqueles conceitos da Ciência que eram universalmente inquestionados, apesar de não se basearem em evidências inquestionáveis?

Começou a pairar sobre a Comunidade científica a mesma acusação que os próprios cientistas lançavam antes aos cristãos – a saber, de depender exclusivamente da fé para basear suas crenças. Até hoje renomados divulgadores científicos, como o biólogo brigão Richard Dawkins, acusam os religiosos de se iludirem com dogmas, ao invés de submeter suas crenças a algum tipo de investigação empírica. Cada vez mais, porém, os religiosos dão o troco, acusando os naturalistas de, a seu modo, sustentarem seus próprios dogmas, que exigem mais fé do que os fundamentos do Cristianismo.

Surpreendentemente, a revista Superinteressante traiu a causa do racionalismo secular, ao entregar o ouro em sua nova edição. Na matéria “Ciência, uma questão de fé”[1], a Super arranca aplausos dos apologistas cristãos, ao constatar a fé necessária para a construção do controverso “Grande Acelarador de hádons”(LHC), o xodó do mundo científico. A parafernália, montada entre a França e a Suiça, procura reproduzir o chamado “bóson de Higgs”, também conhecido como a “partícula de Deus”, que explicaria o nascimento do Universo. Entretanto, a matéria da Super assevera:

“[…] até agora o bóson só existe nas equações dos físicos. É apenas uma ferramenta matemática que ajuda a explicar o funcionamento do Universo. Como as contas dão certo quando colocam essa partícula no meio, a maior parte dos físicos imaginam que ela seja real mesmo, mas falta uma prova concreta.por enquanto, acredita quem quer.
“[…]por hora, é questão de fé mesmo””[2]

Em seguida, em um exercício de cosmologia, a matéria descreve o que parte dos pesquisadores acredita sobre as várias dimensões do Universo, oriundas das vibrações das “supercordas”, que funcionam num ritmo tão frenético que não poderia se limitar apenas às 3 dimensões conhecidas. Daí, haveriam, segundo alguns pesquisadores, “[…]interferências entre universos paralelos […] É a teoria dos muitos mundos” ou multiverso.[3] A coisa toda parece aquela antiga história em quadrinhos, “Crise nas Infinitas Terras”, da dupla Marv Wolfman e George Pérez, que lidava com os universos paralelos da editora DC comics (de Batman e Superman). Ou seja, multiverso está mais para ficção científica do que para Ciência.

Ao mesmo tempo em que expõe o frágil fundamento científico da própria Ciência, Super sustenta descaradamente o dogma do Big Bang sem abrir concessões. Segunda a matéria, toda a especulação científica deu lugar a “[…] teorias hoje provadas e comprovadas, como a do big-bang […]”[4]. Em se tratando da versão aceita pela maior parte do mundo científico, não haveria “espaço para fé”, porque já estaria certo (o artigo só não se dá ao trabalho de citar as razões para tanta certeza) de que o Universo “nasceu de um ponto há 13,7 milhões de anos e é isso aí. [isso aí o quê?] As provas [quais?] não deixam espaço para dúvida.”[5] Talvez por temer o “Santo Ofício” dos racionalistas dogmáticos, a revista teve de se apegar à confissão de fé baseada em um Big Bang, tão atestado quanto a existência da vila de Shreek!

E, incrível como pareça, o cristão, por acreditar em um livro que vem recebendo confirmação da Arqueologia e da História (na forma de profecias cumpridas e em cumprimento), livro que propõe ainda uma visão racional e equilibrada da realidade, ainda assim é tachado de utópico e idealista; enquanto isso, os racionalistas, com sua concepção mecanicista e incoerente da realidade, enquanto vêm seus argumentos despencando seqüencialmente, n um arrasador efeito dominó, estão se agarrando com unhas e dentes nas poucas bases que lhes restam, e querem criticar os cristãos por sua fé cega! Quem é mais cego, afinal?

Leia também:


[1] Salvador Nogueira e Alexandre Versignassi, “Ciências, uma questão de fé”, publicada na revista Superinteressante, edição 258, Novembro de 2008, seção “Essencial”. Daqui para frente referido como QF.
[2] QF, p. 31 e 32, ênfase suprida.
[3] QF, 32.
[4] QF, p. 31.
[5] Qf, p. 32, no quadro “A fé dos cientistas”.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

DA CONSPIRAÇÃO AO MARKENTING (E OBAMA SAI LUCRANDO)


O plano desmiolado de neonazistas imberbes pode causar o efeito contrário ao do pretendido. Daniel Cowart e Paul Schlesselman (com idades de 20 e 18 anos, respectivamente) foram presos, sob a acusação de pretenderem matar 88 negros (a tiros) e outros 14 (por decaptação), e, de quebra, bolarem um atentado contra o democrata pop-star Barack Obama. Tudo em nome da "supremacia branca", ideal comum a Cowart e Schlesselmanque, que se conheceram recentemente pela internet. É claro que o presidenciável Obama, agora sob forte esquema de proteção, ganhou os holofotes (como se ele precisasse de mais publicidade!).

O jornalista Olavo de Carvalho, em recente matéria no Jornal do Comércio, notou a magnética popularidade de Obama, capaz de atrair inimigos tradicionais americanos "sem que isto desperte contra ele a menor desconfiança do establishment americano". Os efeitos da campanha de Obama, segundo ainda o mesmo articulista, podem ser comparados ao que se viu quando Hitler estava em campanha (1933), no que diz respeito à "amálgama de promessas utópicas, propaganda avassaladora, beatificação psicótica do líder, apelo racial, controle da mídia e intimidação sistemática do eleitorado". O jornalista Michelson Borges, comentando o artigo de Olavo, se pergunta de uma perspectiva profética: "Se ele [Obama] vencer as eleições, o que poderá vir por aí?".

A verdade é que a liderança carismática de Obama, sua postura (que os analistas já compararam a um ator interpretando um presidente, de tão suave e segura) e seu enfoque na mudança conquistaram apaixonados por toda a América do Norte. Ele é o tipo de líder que propõe desafios a seus ouvintes, que dá um certo toque de realismo duro, sem muitos enfeites, o que soa como um pai aconselhando um filho. E agora, a única barreira que poderia haver para a sua eleição, a barreira racial, poderá cair de vez em face de um atentado ridículo que não saiu do papel. Mais do que nunca, milhões de americanos voltaram suas simpatias para o "pobre" candidato ameaçado injustamente de morte. Parece que o tiro de Daniel Cowart e Paul Schlesselman saiu pela culatra.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O QUE O PAPA DIZ NÃO SE ESCREVE


A cada declaração do Papa Bento XVI, percebe-se a carência de solidez na visão católica, tendo-se em vista a tensão peculiar ao sistema romano entre a Revelação e a Tradição. Já fizemos uma crítica à admestação papal, segundo a qual Paulo deveria ser tomado como exemplo (ver o artigo "Paulo: o exemplo dos católicos"). Agora, durante a homília de encerramento da XII Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, Bento falou sobre os mandamentos, e os resume no amor ("um amor testemunhado concretamente nas relações entre as pessoas").

Como um dos objetivos do Sínodo dos Bispos era resgastar a importância das Escrituras para a identidade e missão, não faltaram referências a este assunto. Mas note como o site católico Zenit descreve a conclusão da homilia papal: "O Papa encerrou sua homilia pedindo a Deus para que da renovada escuta da Palavra de Deus, 'sob a ação do Espírito Santo, possa se dar uma autêntica renovação na Igreja universal, e em cada comunidade cristã', pedindo também que Maria ensine a reconhecer na vida a primazia da Palavra que 'só nos pode dar salvação'."

Curiosa o apelo à fundamentamentação bíblica para se alcançar a "renovação na Igreja universal" em conexão com a dependência da autoridade de Maria, autoridade que, por sua vez, constitui-se um dogma católico sem respaldo bíblico! Tanta incoerência testemunha sobre a falta de unidade (e, consequentemente, de relevância) que a mensagem de Bento apresenta, em nítido contraste com a harmonia encontrada na Sagrada Escritura.

domingo, 26 de outubro de 2008

SUA EXCELÊNCIA, O CRIMINOSO

Maria Rehder, em seu perspicaz artigo "O crime como espetáculo", publicado neste domingo no Jornal da Tarde, discorre como a evolução do caso Lindemberg sofreu direta intromissão da mídia, sugerindo que o desfecho trágico se deu, em grande parte, pela intervenção jornalística ("pautada pela disputa de audiência mais do que na responsabilidade social", conforme opina Rachel Moreno, presidente do Observatório da Mulher, citada na matéria).

A cada dia, chegam aos nossos lares barbaridades as mais diversas, trazidas pelas asas da tecnologia. A forma como as notícias são veiculadas destacam o papel perverso dos criminosos. E, uma vez que pouca coisa é cruel o suficiente para chocar a pétrea sensibilidade moderna, os jornais (impressos, televisionados ou on line) lançam mão de uma cobertura minuciosa, pormenorizando as mais absurdas práticas criminais. Desta forma, a sociedade se vê compelida a acompanhar o desenrolar de episódios canhestros, levada por um falso senso de responsabilidade moral.

Se exaltássemos a justiça, os valores e o que de bom pode ser (e já vem sendo) feito, as possibilidades de mudança para melhor seriam concretizadas. Pena que não daria Ibope!

sábado, 25 de outubro de 2008

UNIVERSO DE VERSOS


Muito da Bíblia é de natureza poética. Embora a poesia oriental tenha suas peculiaridades, o fato de que as Escrituras contêm tanta matéria poética inspira há muito os poetas ocidentais cristãos. Pense em grandes nomes da Literatura, como Dante e Milton; sem a influência das histórias bíblicas, estes e outros autores não teriam uma fonte de inspiração para suas grandiosas produções.

Quando falamos do Adventismo, verificamos que também estes cristãos, ao longo de sua existência, vêm compondo versos em homenagem Àquele que inspirou a Bíblia, o mais poético de todos os livros. Alguns dos poetas adventistas são bem conhecidos, como o casal Waldvogel (Isolina e Luiz). Outros se consagraram em outras atividades (como o apologista e ex-redator chefe da CPB, Arnaldo B. Christianini) sendo que sua produção poética ficou restrita a um público seleto.

Aliás, mesmo os vates mais prolíficos se encontram relegados às bibliotecas ou ao arcevo de admiradores fiéis. Com o fito de preencher a necessidade de divulgar o que poetas denominacionais escreveram ao longo de mais século de Adventismo no Brasil, o Pr. Tercio Sarli organizou uma coletânea reproduzindo parte da obra de mais de cinqüenta poetas - de Carlos A. Trezza a Joubert Perez, passando pelos laureados Moysés Nigri, Edith Teixeira, Albertina Simões, e muitos outros. "Poetas Adventistas do Brasil", publicado pela Certeza Editorial (certezaeditorial@terra.com.br), promete resgatar a memória da poesia adventista, além de fomentar a prática da escrita em versos, despertando jovens talentos.

Tive a honra de contribuir para o livro com três sonetos, dos quais reproduzo um:

INESTINGUÍVEL MISTÉRIO

Quem seria capaz de explicar a razão
De Deus ter posto em risco os mundos não caídos
Quando deixou o Céu e à Própria condição,
Preferindo à canção de anjos nossos gemidos?

As marcas que Jesus exibe em cada mão,
De cravos em lugar de quem salvou sofridos,
Não doem como as marcas que em Seu coração
Existirão pela saudade dos perdidos.

Meu Salvador demonstra, ao optar por espinhos,
Riqueza que me faz questionar os valores
Sustentados por nossa escolha de caminhos:

Sendo que o orgulho ordena a todos que subamos,
Jesus desce e suporta agonias e dores,
Amando com amor tal que não lhe entendamos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O SALDO DA FÉ


A andragogia de Midiã sussurrando-lhe a expectativa além das nuvens O líder oscila como um garoto que tem de rever o lar que a puberdade obrigou a abandonar Embora isto fosse o externo Sabia que não era a ânsia pela descoberta que o afastara das terras à margem do Nilo Ele amava a sua gente Aqueles homens e mulheres queimados pelos verões Marcados pelos látegos insaciáveis Aqueles homens e mulheres Não que seria fácil mudar séculos de cultura submissa De desatenção impetuosamente forçada em relação à Lei O horizonte bordava lápis-lazúli e brasas no silêncio das montanhas Escora-se em uma colina Ao sul pode ver as massas Voltam mortificadas para Gósen Pobres almas amarguradas Como o Senhor quer que eu Justo eu As socorra Não Senhor Eu sou apenas um pastor que nunca experimentou a dor deles Jamais me vi escravo A não ser de meus impulsos Por isso tive de fugir E hoje Eis-me de volta Faça a Tua vontade O Céu acompanha o pastor do povo eleito Da corte uma insolência cabal desconsidera o seu andar semita Sua fuga sendo narrada pelos percursos aéreos de cochichos É quando ele estaciona O olhar que o monarca lança para ele contém doses de ironia e desprezo Não chega a ser um olhar direto Olho no olho Ele é um lunático que ocupa o tempo Quanta petulância Do filho de Rá Moisés e seu irmão são apoiados por expectadores ocultos Prosseguem com vozes a princípio trêmulas Depois crescentes Como o compromisso que assoma mais nítido Um compromisso com o Invisível Deus dos patriarcas Seus pais Terminam A corte suspende os arroubos de seu fausto Faraó se ergue Uma aura sinistra acompanha os contornos de seus ombros brunidos Não conheço o seu deus Tampouco deixarei que meus escravos deixem meus domínios Fulmina Os mensageiros saem Talvez não se possa falar de desânimo Eles estão Isto sim Frustrados Aos poucos percebem um quê preocupante Faraó deixaria aquela insultuosa visita sem resposta Não demora muito para que o presságio Na forma de um arrepio casual Se confirme O povo é colocado sob mais probantes condições de vexação Cenhos plúmbeos Voltam a Moisés seus olhares peçonhentamente Não chega a ser um olhar direto Antes trata-se de um olhar enviesado De quem se sente traído Machucado demais para perceber que o golpe viera de outra direção Manipulando os sentimentos escravocratas Com ardis-mestres A intenção cristalina Extirpar aquela raça Para seu inimigo não ter uma ascendência Para que Ele continue no Céu Para não ter de enfrenta-Lo Para arrastar o homem à condição de irreversível desespero Sem poder olhar diretamente a Graça a ser derramada O inimigo do rebelde conhece estas maquinações conhece o volume de lágrimas que desde Isaque a semente que leva Suas bênçãos tem vertido junto com as Suas O Comandante de milhares de anjos estende a mão Que tenha êxito o êxodo É Sua ordem E Moisés Sem ouvi-la em seu frescor luminescente Crê apenas

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

ESCATOLOGIA NO SALMO 23 - parte 1


Heber Toth Armi
INTRODUÇÃO

Os Salmos é o maior livro da Bíblia. Por servirem de inspiração a maioria dos leitores da Bíblia tem grande interesse por eles. Teólogos reconhecem em suas poesias “alguns dos assuntos mais inspiradores das Escrituras”[1].Os Salmos inspiram e animam pessoas de todas as épocas.

Os Salmos têm atraído grandes escritores motivando-os a publicarem comentários sobre seu conteúdo. “O renomado pregador Batista Charles H. Spurgeon publicou, entre 1882 e 1886 uma obra com sete volumes com comentário e compilação de citações relevantes sobre Salmos”[2]. Espelhando os procedimentos de Hermann Gunkel quanto às suas análises dos Salmos, Hans-Joaquim Kraus ao escrever Teologia dos Salmos destacou a necessidade de focar especialmente nas ações e natureza de Deus[3].

Pela sua própria natureza os Salmos são poemas dirigidos a Deus e expressam verdades com melodias sobre Ele[4]. Como Palavra de Deus os Salmos são coletâneas de orações e hinos inspirados.

Dos 150 Salmos, 73 são atribuídos a Davi. O qual antes de ser rei foi pastor de ovelhas[5]. Com razoável conhecimento pastoril, Davi fez uma analogia relacionando o pastor de ovelhas com Jesus e Seus seguidores a ovelhas. Dentre sua autoria, o Salmo do Pastor tem sido um dos preferidos de multidões, conhecido por Salmo 23.

ESPERANÇA NO SALMO 23

Segundo Hans K. LaRondelle, os Salmos são importantes a judeus e cristãos, não apenas por ser um tipo de orações inspiradas, “mas porque suas mensagens de esperança e conforto são especialmente necessárias para o povo de Deus hoje”[6]. Eles sempre têm mensagens oportunas.
Embora o Salmo 23 tenha sido de grande apreciação e inspiração, muitos não o compreendem corretamente. A compreensão deste Salmo dependerá não só da familiaridade do leitor com o estilo poético oriental e do contexto em que foi escrito, mas também com toda a Bíblia.

Bem compreendidos, nos salmos há grandes temas escatológicos[7]. Assim, analisaremos o tema escatológico delineado no Salmo 23 escrito por um ex-pastor de ovelhas que se tornou rei em Israel, o qual tinha em mente, quando escreveu esse salmo, todo o cuidado que um pastor oriental tem para com seu rebanho e tornou isso uma analogia do cuidado de Deus para com Seus filhos. Inspirado pelo Espírito Santo, Davi aplica nesse salmo suas experiências, de pastor de ovelhas a rei de Israel.

O Salmo 23 contém duas partes. A primeira, apresenta Deus, ou mesmo Jesus, como Pastor. As promessas dos versos de um a quatro podem ser vista cumprindo-se na vida das ovelhas de Cristo neste mundo. Porém, mesmo cumpridas as promessas de provisões, proteção, segurança, direção e amor na vida das ovelhas do Divino Pastor, ainda podem enfrentar momentos desagradáveis. Pois este mundo apresenta maldades, terrorismos, mortes, injustiças, guerras, enchentes, terremotos, violências, fomes, misérias, dores, doenças, perseguições e outros problemas, mesmo ao lado do Pastor. É impossível, neste mundo de injustiças, viver sem ver ou passar pelo vale da sobra da morte.

A segunda parte do salmo (versos cinco e seis) vai além do presente, se refere ao futuro. Assim o Salmo 23 contém uma parte apocalíptica que revela o futuro das ovelhas de Cristo que deixarem guiar por Ele. Nesta segunda parte a linguagem já não é comparativa, mas profética. Não há mais a idéia de pastor e ovelhas. Prova disso é que ovelha não senta à mesa, muito menos à frente de seus inimigos; não era ungida e, nem morava na casa do pastor, embora o texto já não refira mais ao Pastor, mas ao próprio Deus e a Sua morada.

Sem deter em detalhes da primeira parte do Salmo 23 nos limitaremos aos pormenores da segunda parte.

O pastor Heber Toth Armi, que escreve com exclusividade para o Questão de Confiança, é atualmente é Pastor auxiliar no Distrito de Campinas, São José, SC, Brasil.


[1] George W. Reid, ed. Compreendendo as Escrituras: Uma abordagem Adventista. Gerhard Pfandl e Ángel M. Rodriguez. Lendo os Salmos e a Literatura Sapiencial (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2007), p. 163; Samuel J. Shultz. A História de Israel no Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2002), p. 271.
[2] Paul R. House. Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Editora vida, 2005), p. 517.
[3] Ibid.
[4] Gordon D. Fee & Douglas Stuart. Entendes o que Lês? (São Paulo: Vida Nova, 2002), p. 175.
[5] I Samuel 16:11.
[6] Hans K. LaRondelle. Deliverance in the Psalms: messages of Hope for Today (Barrien Springs, MI, First Impressions, 1983), p. 5.
[7] Merril Frederik Unger. Manual Bíblico Unger (São Paulo: Vida Nova, 2008), p. 221.

ESCATOLOGIA NO SALMO 23 - parte 2


ESCATOLOGIA DO SALMO 23
Por Heber Toth Armi

A Unção

O salmista Davi, além das experiências com ovinos, também sabia o que era unção[1]. Ele era jovem quando o profeta Samuel, orientado por Deus, fora ungi-lo a fim de ser rei em Israel. Para Davi, unção significava privilégios. Depois de ser ungido com óleo (azeite), Davi se tornou rei. O Apocalipse informa que os fiéis vencedores sentarão no trono de Cristo e reinarão com Ele[2]. As fiéis ovelhas de Cristo serão privilegiadas como foi Davi.

Unção nesse texto significa transformação. Significa deixar de ser comparado a ovelha inocente, dependente, com visão curta. A unção profeticamente simboliza ser rei juntamente com Cristo no Céu auxiliando-O na administração do Universo. O motivo pela mudança de linguagem no Salmo, o qual deixa de referir-se aos seguidores de Cristo como meras ovelhas, apresenta a transformação que ocorrerá quando Cristo voltar à Terra. Jesus virá com poder e glória acompanhado de Seus anjos[3], a fim de realizar a transformação e conceder privilégios aos fiéis conforme relatado pelo apóstolo Paulo[4]. O cálice transbordando simbolizam infinitas bênçãos e privilégios oriundos da transformação.

A Mesa

Quando o Salmo foi escrito, a ceia preparada era sinônimo da união de grupos e indivíduos. Sentar-se à mesa consolidava lealdade e sinal de segurança e alegria[5]. Era uma verdadeira festa.

Comer e beber no Antigo Testamento expressavam alegria entre amigos ao redor da mesa[6]. Como metáfora, o comer e beber no contexto vétero-testamentário estavam relacionados geralmente a um grande banquete. Um exemplo típico se encontra no livro de Isaías (25:6-8) de um evento profético pleno da alegria da Salvação[7]. Tal evento escatológico é uma indicação da grande festa tão significativa representada por Jesus na parábola do banquete nupcial[8].

O Apocalipse também cita a ceia com Jesus[9] vinculada à vitória final dos cristãos. O contexto informa que o vencedor ceará com Jesus que batia à porta. Após Seu retorno à Terra, Cristo celebrará no Céu a vitória dos salvos com uma festa. Cristo será anfitrião e os anjos com os salvos deslizarão com maestria suas mãos nas cordas de suas harpas resplandecentes, “tirando-lhes suave música em ricos e melodiosos acordes”[10].

Ao oferecer um banquete, Jesus é bem maior que um Pastor. É o Rei que convida Seus amigos para fartura de manjares[11]. A alegria reinará nesse ambiente festivo, e os salvos transformados serão privilegiados.

Bondade e Amor

Esses termos representam à constante presença de Deus com os salvos no Céu, onde estes O verão face a face como Ele realmente é. Os textos bíblicos clareiam esta idéia.

Moisés curiosamente rogou ao Senhor para mostrar-lhe Sua Glória. “E Deus lhe respondeu: Eu farei passar toda minha bondade diante de ti...”[12]. Tal referência apresenta a idéia de que a glória de Deus se expressa por meio da Sua bondade, a qual é a essência do Seu caráter, como também é o amor, pois “Deus é amor”[13].

Assim temos no Salmo a idéia de que no Céu, com a transformação, sem a presença do pecado, os salvos verão a Deus face a face[14], sem nenhum empecilho[15]. No Céu, os salvos terão sempre a presença Divina simbolizada pelo Amor e a Bondade constante no Salmo 23.

Casa do Senhor

O texto não diz casa do Pastor, mas casa do Senhor. Essa idéia nos leva às palavras proféticas de Jesus: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também”[16]. Os salvos habitarão na casa de Deus, no Céu[17].

Após a recepção e a festa, depois de celebrada a vitória sobre o pecado, os salvos serão conduzidos ao novo lar. No Céu, na casa do Senhor, será a habitação daqueles que seguirem, neste mundo, as orientações do Pastor Jesus; daqueles que suportarem o vale da sobra da morte, mas permanecerem firmes no caminho da justiça com o apoio de seu Pastor.

CONCLUSÃO

Podemos atribuir à primeira parte do Salmo 23 a experiência de fé que o cristão fiel viverá antes da volta de Cristo. Pois no fim haverá um terrível tempo de angústia, mas nesse tempo se levantará Miguel, o grande príncipe – o Pastor – que está junto aos filhos de Deus”[18].

Ao fim da terrível experiência do vale da sobra da morte, os salvos serão levados ao Céu, onde serão recepcionados por Jesus. Estes estarão à mesa num grande banquete. Depois disto, os salvos serão guiados à casa do Pai, para ali habitar.Com tais evidências concluímos que o Salmo 23 divide-se em duas partes, uma se refere às promessas do presente e vai até a volta de Cristo; enquanto a outra, sendo escatológica, é concernente ao futuro, após a vinda de Cristo e Sua ascensão aos Céus .


O pastor Heber Toth Armi, que escreve com exclusividade para o Questão de Confiança, é atualmente é Pastor auxiliar no Distrito de Campinas, São José, SC, Brasil.

[1] I Samuel 16:12-13.
[2] Apocalipse 3:21; 20:6.
[3] Mateus 24:30-31.
[4] I Coríntios 15:51-54; I Tessalonicenses 4:13-17.
[5] Alberto R Timm, Amin A. Rodor e Vanderlei Dorneles, Eds. O Futuro: A visão Adventista dos últimos acontecimentos (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2004), p. 150.
[6] Idem., 140.
[7] Ibid.
[8] Mateus 22:1-14.
[9] Apocalipse 3:20.
[10] Ellen G. White. O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p. 645.
[11] F. D. Nichol, Ed. Seventh-day Adventist Bible Comentary (Washington, DC: Rewiew an Herald, 1953-1957), 3:695.
[12] Êxodo 33:18-19.
[13] I João 4:8.
[14] Ellen G. White. Op. Cit., 676-677.
[15] I Coríntios 13:12.
[16] João 14:1-3
[17] Ellen G. White apresenta a idéia de uma festa antes da entrada dos salvos em seu novo lar. Ellen G. White. Op. Cit., 645-646.
[18] Daniel 12:1.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CORAÇÃO ENDURECIDO


Cobre-o e reza Arrasada a razão desde cedo
Cede o domínio Vem do mínimo o quebranto
De um rei que volta a ser apenas pai Com pranto
Chama por alguém cujo inanimado dedo

Pega No olho coalhada a dor Maré de amianto
Calha ser deus À espora fita o povo quedo
Por impulso do credo agride o próprio medo
E o desafia o Deus de seus escravos Manto

Ao chão A espera afeta o pavor da derrota
Que fazer O país são pais em luto Luta
Para admitir que em seu peito a faca se bota

Vieste Diz pálido A sua gente O outro escuta
Cada pausa Vacilo Aspereza que o enxota
A sua gente pode ir Sempre a face enxuta

terça-feira, 21 de outubro de 2008

MAIS FILOSOFIA, MENOS RELIGIÃO - O HUMANISMO DE LUC FERRY TEM TODAS AS RESPOSTAS?

Alguém poderia apresentar Alexandre Nardoni e Anna Paula Jatobá ao filósofo?

Chamamos de idealistas aqueles que aspiram a uma sociedade utópica, acreditando na boa vontade inerente aos homens. Talvez a caracterização sirva como uma luva para o filósofo e Best-seller Luc Ferry. Ele é o entrevistado da revista Veja nesta semana.[1] Em seu livro “Famílias, Amo Vocês”, que chegou ao Brasil, o autor francês propõe que a família preencha na atualidade o requisito de único bem sagrado. Apesar de interessante, a definição do autor sobre o que seja sagrado (“algo pelo qual vale a pena morrer”) tem sua aplicação restringida às relações familiares. Para Ferry, ocorreu a sacralização do gênero humano, porque todos nós “arriscaríamos a vida” por “aqueles próximos de nós: a família, os amigos e, em um número bem menor, pessoas mais distantes que nos causam grande comoção”, ao contrário de outros tempos, quando se dava a vida em nome da Religião ou do Estado. "[…]Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar transcender espiritualmente", complementa o filósofo.

Eu não sei em que mundo Ferry pensa que vive. Talvez ele sequer tenha ouvido que exista um Alexandre Nardoni ou uma Anna Paula Jatobá, capazes de fazer o que fizeram com uma filha/enteada. E eles não são os únicos. O números de casos envolvendo violência que ocorrem no seio familiar são alarmantes. Conforme apontou a Organização Mundial da Saúde (em 2001), “de 10% a 34% das mulheres do mundo já foram agredidas por seus parceiros […] 30% das primeiras experiências sexuais das mulheres foram forçadas; 52% das mulheres são alvo de assédio sexual. Isso tudo, sem contar o número de homicídios praticados pelo marido ou companheiro sob a alegação de legítima defesa da honra.”[2]

Quando pensamos em Brasil, a gravidade da situação não é menos preocupante. Lia Zanotta, antropóloga da Universidade de Brasília (UnB), pondera que a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), que prevê maior rigor para agressões contra mulheres, ainda não é levada a sério nos tribunais.[3] Como se vê, o filósofo desconsidera que alguns morrem pela família, mas outros também matam a família. Isto sem levar em conta o divórcio. O IBGE indica que somente aqui no Brasil, no decênio de 1993 a 2003, “o volume de separações judiciais e de divórcios cresceu 17,8% e 44%”[4] Pense então nos casos de Pedofilia.

Claro que Luc Ferry tenta arrazoar. “Quem alardeia o declínio da instituição familiar esquece que o divórcio foi inventado junto com o casamento por amor. A partir do momento em que a união entre duas pessoas se ampara apenas na lógica do sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha. A família burguesa é aparentemente estável, mas na maioria dos casos está carcomida por infelicidades. Ela é inseparável de outra instituição: a infidelidade. Muitas mulheres sacrificam a profissão e, em seguida, a vida afetiva por um marido que as engana.”

Este tipo de argumentação, cujas raízes remontam aos primeiros filósofos da Era Moderna, é falho no sentido de atribuir a nossa época a invenção do humanitarismo. Observe o conceito de relacionamento expresso neste trecho escrito em cc. 1.500 a.C. “Se um homem tiver se casado recentemente, não será enviado à guerra, nem assumirá nenhum compromisso público. Durante um ano estará livre para ficar em casa e fazer feliz a mulher com quem se casou.” Dt. 24:5, NVI. Um intelectual sincero, considerando um texto como este, ou analizando o capítulo 6 de Efésios não chegará à conclusão equivocada de que a Modernidade detém a patente do amor no relacionamento conjugal.

Não obstante, há pontos muito positivos na entrevista. Ferry faz declarações lúcidas acerca do exacerbado consumismo pós-moderno, que faz com que “o movimento das sociedades não” se inspire “em ideais superiores em termos de civilização.” Os objetivos passam a girar em torno da aquisição de bens materiais de forma irrefreável. “[…]O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros”, sentencia o autor de “Famílias, Amo Vocês”, em um dos pontos altos da matéria.

Infelizmente, dentro da perspectiva do autor, os problemas claramente levantados encontram uma pretensa solução na Filosofia, definidada acuradamente como concorrentes da Religião. ”[…] A diferença entre religião e filosofia”, argumenta Luc Ferry, “é que a primeira tenta encontrar a paz interior e a felicidade através da fé, enquanto a outra busca o mesmo pela razão, sem a intervenção de um deus. Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião não é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura.“ Ferry olvida que, com toda a sua Filosofia, os gregos viviam em uma sociedade corrupta, cheia de vícios (como orgias e bebedeiras, que ocorriam durante os Bacanais, por exemplo). O mesmo pode ser dito da sociedade romana, marcadamente influenciada pelo pensamento grego. Propomos que a verdadeira religião, encontrada na Bíblia, é a única que pode salvar o homem desta época de seu vazio existencial e das crises morais. Em nome dos princípios verdadeiros, ensinados na Bíblia, cristãos em países como China, Índia e Iraque têm deposto sua vida, porque vale morrer por causa desta verdade.

[1] A entrevista, cedida a Gabriela Carelli, foi publicada na Edição 2083, de 22 de outubro de 2008, e se encontra disponível em http://veja.abril.com.br/221008/entrevista.shtml. todas às citações e declarações de Ferry remetem a esta fonte.
[2] Citado por Cláudia Guerra, “Violência conjugal e intrafamiliar: alguns dados de mundo, Brasil, Minas Gerais e uberlândia", disponível em http://www.cfemea.org.br/pdf/violenciaconjugal_claudiaguerra.pdf.
[3] Petterson Rodrigues, “Para antropóloga, ainda há resistência com relação à Lei Maria da Penha”, disponível em http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/04/07/materia.2008-04-07.8094031072/view.
[4] Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=283.

DIA DO PASTOR

Em homenagem ao dia do Pastor Adventista, comemorado no próximo sábado, publicamos este belo texto reflexivo.
Por Tércio Sarli

Certa vez, o grande pregador inglês Leslie Weatherhead estava escalado para falar a um grupo de pastores em Manhattan, Nova York. Mas o seu navio atrasou por causa da neblina e os ministros tiveram de esperar algumas horas. Quando o Dr. Weatherhead chegou, foi à plataforma e foi logo dizendo: “Vocês esperaram tanto tempo, e eu vim de tão longe, para fazer-lhes uma simples pergunta: Vocês conhecem Jesus?”

Num primeiro impacto, esta pergunta parece estranha se dirigida a um grupo de pastores. No entanto, nela se encontra o segredo de seu ministério.

Em Marcos 3: 13 e 14 está a descrição do chamado que Jesus fez aos 12 para o ministério: “Depois, [ Jesus ] subiu ao monte e chamou os que Ele quis, e vieram para junto dEle. Então designou doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar ...”

Esta experiência pessoal de “estar com Ele”, é que fará de você, prezado pastor, um verdadeiro ministro do Evangelho. Só depois disso é que você pode pregar com poder e eficiência.

Não sei se você está praticando diariamente essa comunhão com Deus, ou se está correndo o dia inteiro na realização de seus trabalhos. Quanto mais depressa você tornar essa ligação com Deus uma realidade, pela meditação da Palavra e pela oração particular, mais depressa você encontrará a felicidade em seu pastorado. No mínimo uma hora por dia você deveria dedicar para estar aos pés de Cristo. Os membros de sua igreja irão perceber isso. Sua família irá perceber isso. O restante de suas obrigações virá em conseqüência desse relacionamento diário com Deus.

Que esta seja a sua experiência.

Feliz Dia do Pastor!

Tércio Sarli, que ocupou a presidência da União Central Brasileira antes de jubilar-se, escreve com exclusividade para o Questão de Confiança.

O DISCURSO DO VAZIO (OU O QUE DEU NA CABEÇA DO CURADOR DA BIENAL?)


Os artistas preferem nos induzir ao pensamento de que a produção artística depende de um tipo de inspiração irracional, baseada em intuição e habilidade sensorial. Note a mensagem destes decassílabos com seus enjambemants característicos, escritos pelo poeta surrealista Jorge de Lima

Não procureis qualquer nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados,
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.

Mas a afirmação da arte como atividade mística, própria àqueles que vivem “no âmbito intranquilo/ em que se agitam seres ignorados” não é exclusiva da poética. Artistas plásticos, músicos, escultores, coreógrafos, entre outros, reivindicam a categoria de visionários, quase que tomados por um sentimento criativo fora de seu próprio controle. Dentro desta perspectiva, a função artística passa a desempenha um papel religioso, com uma função redentora – redimir o mundo através de uma mensagem estética. [1] A arte, como produto da Inspiração autônoma, isenta o artista da responsabilidade moral daquilo que produziu, sendo que a própria arte fica posicionada acima dos julgamentos éticos.
No entanto, as expressões artísticas estão veiculadas à cultura, ao temperamento e à visão de mundo do artista. A iniciativa pós-moderno de desvincular a Arte do mundo, tornando-a virtualmente um mundo à parte, é motivada pelo desejo de se libertar da visão mecanicista do mundo, que se tornou dominante a partir do Iluminismo. A arte é apenas um tipo de discurso, para transmitir ideologias, gostos e opiniões. [2] Acredito que através do meio artístico cristãos genuínos podem (e devem) apresentar sua compreensão da realidade de um modo impactante.
Uma perturbadora demonstração de como a Arte não é algo neutro é a controversa decisão do curador da 28ª Bienal de São Paulo, Ivo Mesquita, de optar por deixar vago os 12 m² do 2º andar (chamado de “pavilhão Ciccillo Matarazzo”). Segundo Mesquita, “O espaço vazio é um gesto simbólico, no sentido de abrir um debate. O que deveria estar cheio está vazio, está vazio para instalar um outro tipo de experiência do espaço, para instaurar um processo de reflexão.” [3]
Num mundo em que o vazio está diante do horizonte devido à falta de um parâmetro seguro para validar a conduta ética humana, a arte não tem nada para dizer – e por isso, o melhor que se tem a fazer é apresentar a mudez de paredes vazias. O desespero moderno só não é mais deprimente do que o silêncio daqueles que, possuindo a verdade, preferem guardá-la para si mesmos.

[1] “Kandinsky, Marc, Schoenberg, Taut, Steiner ou Klee [criadores máximos da arte moderna] criaram uma arte de conteúdos espirituais explícitos e defenderam uma intuição poética ligada a valores ideais transcendentes à racionalidade civilizatória. Franz Marc afirmou expressamente que a arte moderna devia assumir aquela mesma dimensão espiritual que as religiões haviam refletido em outras culturas. […]”, Eduardo Subirats, A cultura como espetáculo (São Paulo, SP: Nobel, 1989), 22. Ver também Francis Schaeffer, A morte da Razão (São Paulo, SP: Aliança Bíblica Universitária do Brasil; São José dos Campos, SP: Editora Fiel da Missão Evangélica Literária, 1989), 5ª ed, p. 59.
[2] Falando sobre a música, por exemplo, afirma certo autor: “A música é uma forma de discurso tão antiga quanto a raça humana, um meio no qual as ideias acerca de nós mesmos e dos outros são articuladas em formas sonoras.
[…] O discurso modifica continuamente a forma simbólica em que aparece. Tomemos por um momento a extensão e a evolução diária das línguas, evidenciada pela rápida revisão dos dicionários. E o discurso pode aparecer em novas e saudáveis combinações de formas simbólicas, como cinema, televisão e publicação na internet. Discurso é um termo genérico, útil para toda troca significativa. Engloba o trivial e o profundo, o óbvio e o recôndito, o novo e o velho, o complexo e o simples, o técnico e o vernáculo.
[…] Como discurso, a música significativamente promove e enriquece nossa compreensão sobre nós mesmos e o mundo.” Keith Swanwick, Ensinando música musicalmente (São Paulo, SP: Moderna, 2003), 18. Grifos da autora. Heron Moura chega à conclusão semelhante no que diz respeito à poesia: “[…] O poema é linguagem, e obedece às mesmas leis da mente que moldou e manipula a linguagem. O ilogicismo no poema é um sonho […] O poema é linguagem humana, demasiado humana. E o logicismo inveterado do homem aparece também no poema.” Heron Moura, “Baudelaire era um robô?”, in Diário Catarinense, Sábado 19 de Abril, ano 22, nº 8.033, Caderno Cultura, 3.
[3] “A beira do vazio”, ano XXXVII, nº 11.418, Terça-feira, 21 de Outubro de 2008,1.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A POLÊMICA SOBRE PIO XII: PARTE 2

Há algum tempo, noticiamos o desejo do papa Bento XVI de canonizar um de seus antecesores, o papa Pio XII, considerado omisso na luta contra o Holocausto. Pelo visto, o assunto continua rendendo pano para a manga. O Estadão noticiou que o pontífice está em processo de decisão quanto a ir ou não para Jerusalém, em virtude de uma frase colocada no Museu do Holocausto, desfavorável a Pio XII.

O presidente israelense Shimon Peres pediu a Bento XVI que não cancelasse a visita. A Santa Sé pressiona para que a frase contrária a Pio XII seja removida do museu, embora não se tenha uma posição oficial de quanto a não retirada da frase pese para a visita; para o jesuíta Peter Gumpel, defensor da canonização de Pio XII, "Bento XVI não pode ir a Israel, pois o mesmo seria um escândalo para os católicos", enquanto Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, ponderou ser a frase "relevante", mas "determinante" para a questão.

Nas entrelinhas, o observador percebe como os governantes de nações não-cristãs tem em alta conta a pessoa do papa. Este prestígio só irá crescer até que o Vaticano tenha curado sua ferida de morte (Ap. 13:3).

Leia também:

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

FAZENDO COM CARINHO


Desde sempre, existe em nós um prazer imenso por ver as coisas prontas. Qualquer ação criadora de nossa parte recebe nossa admiração, mais limpa do que o orgulho, uma satisfação de mãe com os filhos embalados no colo. Imagine-se testemunha do maior empreendimento criativo.

Deus rearranjou novelos de luz para tecer uma roupa luminar. E iluminando a Terra, ainda disforme, inocupada, um conjunto mesmo de rochas, em uma superfície de 510 milhões de quilômetros quadrados, o Criador divide o tempo em dia e noite.

Surgiu, pela autoridade criadora, a extensão das águas, justo a água, matéria fundamental para que o mundo passasse de uma reserva mineral para o estágio seguinte, o de uma biosfera povoada de criaturas as mais diversas e divertidas. E a natureza não possuía uma mácula em seu projeto e consecução.

Ali o Artista reuniu os elementos bem conhecidos que formam a matéria viva; mas o ingrediente que faltava, um elemento-mistério acrescentou, para confundir os microscópios: o fôlego de vida, princípio ímpar, fundamento da vida em todo seu movimento, entusiasmo, vôo, vibração, nado, onomatopéia, rastro, pulsação e fôlego.

Adiante, o Maestro, imaginando a qualidade das coisas que criaria, trouxe à luz, pela regência de suas palavras, à toda forma vegetal, de samambaias com seus tentáculos verdes, aos cedros libaneses; o campo foi povoado por glicínias vaporosas, de matizes anis, e madressilvas, brancas e entusiastas como noivas rumando para o altar; dálias enchiam a terra, como os dentes quando compõem sorrisos. Orquídeas, cravos, hortênsias, rosas, jasmim – muitos eram os buquês que o Autor da vida preparava para os seres que amava, embora não os tivesse feito ainda, encontrando-Se, no entanto, por expectante fazêlos.

No quarto dia, o Engenheiro preencheu as lâmpadas do espaço, dissolvendo o grosso couro de neblina que filtrava a luz extra-planetária.

Estava próximo o clímax de Sua Obra.

Estruturas complexas e com uma interdependência funcional, que só poderiam demonstrar uma vontade inteligente por detrás de sua existência, foram sendo desenhadas e postas nas criaturas que iam ocupando os mares e acompanhando o vôo do vento.

Nos mares e rios, cardumes de peixes prateados como metal, ou luminosos como as pedras preciosas, faziam, em seu frêmito de alegria em polvorosa, borbulhar as águas. Carpas, arraias, delfins, polvos, ostras, camarões, baleias multiplicavam-se no ritmo da pronúncia de seu Autor.

Pelos céus, outras aparições. Os tentilhões ovais e verde-acizentados, com uma pequena lua para cada órbita uniformemente noturna; com o vento, arrepiou-se a cabeleira iriada das cacatuas, que saídas do atelier verbal, já imitavam os anjos em derredor ou quebravam as nozes com seu bico de tenaz; o olhar obliquamente misterioso do mocho, de orelhas pontudas, rivalizando em dimensão com suas pupilas negras e severas, atento à festa do dia, mas esperando a noite para se alegrar; os caburés empoleirados, com o ventre e as asas marchetados de neve, ecoavam longamente seus cantos à beira das águas; esguios e eriçados, bandos de uirapurus uniam-se à orquestra, com seus instrumentos melodiosos; como num rinque, as garças deslizam, leves como se o corpo fosse só plumas, música, atributos de vento e cristal; sussurrando alegria em rasantes de reconhecimento, os milhafres, as águias e os falcões teciam reminiscências de hibiscos no platô de safra.

Chegara o momento! Deus esfrega as mãos, Satisfeito. Chegara o momento sonhado por uma mente eterna.

O Rei se inclina em direção ao solo. Você espera encontrar tudo nas mãos de Deus – menos argila. Um Ser Poderosos, que com a Palavra criara estrelas e quásares, não precisaria de esculpir algo. Somente o amor poderia explicar a cena emoldurada pelo silêncio dos anjos.

É moldado um boneco com o cume do crânio mais largo do que a sua base. Não se trata de nenhum símio, como os que presenciam a tarefa de seus galhos. O grande Projetor constrói então o cílio com capricho esmerado.

Sua locomoção nunca compreenderia andar sobre os jarretes. Era uma espécie viva diferente dos animais – uma obra-prima em relação à qual o australopiteco não seria nem mesmo um distante rascunho. Sem dúvida, a mais biográfica das obras que Aquele escritor deixara pela natureza.

A textura da pele, a cor das pupilas oceânicas, o tônus muscular, o timbre da voz, a superfície levemente rubra de uns lábios sadios – tudo era imaginado para em seguida aparecer no manequim inanimado.

Porém, Deus via que aquelas mãos tomariam do fruto no centro do bosque e desobedeceriam à Sua restrição. Via que aqueles pés robustos seriam feridos por espinhos e cardos, após deixarem o lar que era seu. Deus contemplava toda uma raça de egoístas, presunçosos, assassinos, roubadores.

Por causa do Criador o homem nasceu. Mas por causa do homem – errático e moribundo numa terra amarga, sob o enxame das más escolhas – o Criador nasceria, cercado de outros animais, não em um jardim, mas num cantão do mundo lesado. E o homem, que por séculos dominara a extração e sabia utilizar os minérios, colocaria pregos nas mãos que esculpiram as suas. Um carpinteiro constrói o patíbulo, que Lhe porão sobre os ombros. Uma coroa de espinhos, maldição que o pecado trouxe à Criação, adorna-Lhe a testa engomada de suór.

E Deus, que vê e sabe todas as coisas que serão antes de o serem, daí Sua onisciência, tão confusa como é para nós, limitadas criaturas, Deus examina essas matérias, sem estampar contradição ou arrependimento. Nada Lhe detém do afã criativo. Seu prazer por esculpir um ser à Sua imagem e semelhança é soberano e prevalecerá, ainda que o mal se espalhe por alguns séculos, ameaçando Seus filhos. Deus conhece o fim do Conflito. Será acirrado. Seu sangue será o preço – o preço que Ele está disposto a pagar pelo boneco de barro que aguardo o próximo ato, para que se torne uma alma.

Deus sopra o fôlego vital, e Adão, antes de tomar consciência do que quer que seja, conhece a Sua origem, Sua glória, Sua Vida e Seu renascimento. Deus sorri, num sorriso maroto e sincero, em dueto com o homem perfeito. Tudo saíra como Ele sonhara.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

SÓ PODE SER PARA "INRITAR" MESMO

Imagine o disparatado quadro: Jesus residindo em uma chácara com cerca elétrica e guardada por cães (pastores alemães, sendo deles chamado gaiatamente de Lutero), aonde pudesse livremente empunhar um taco de sinuca para se divertir. Isto sem contar que o Salvador estaria cercado por jovens e belas mulheres, que aplicassem cremes de beleza em seu rosto, além de fazerem às vezes de manicure e barbeiro para seu Mestre. Você consegue imaginar um absurdo maior?

Pois, para revoltante surpresa dos cristãos (e das pessoas de bom senso em geral), a cena descrita acima não pertence aos domínios da ficção (de mau gosto): Jesus vive na sede da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (SOUST, para os íntimos), sob as condições mencionadas. É claro, não o Jesus Verdadeiro, mas sua versão apócrifa, que atende pela graça de Inri Cristo.

Já tendo passado pelos ofícios de verdureiro, padeiro, mascate, a vocação que lhe faltava (advinda em 1979 “durante um jejum em Santiago do Chile”) era a de “Filho de Deus”. Mas isto para Inri é só começo, uma vez que ele afirma ainda ter sido, em vidas passadas, “Adão, Noé, Abraão e Davi, entre outras celebridades bíblicas.”

Suas discípulas, alvo de uma recente reportagem[1], contaram um pouco do que é viver na companhia do “Messias”. Recentemente, as seguidoras de Cristi fizeram sucesso no You Tube (mais de 450 mil acessos) com versões de músicas seculares, feitas para alegrar Inri, porque ele estaria “deprimido com os rumos da humanidade”. Entre as músicas parodiadas contam-se “Umbrella”, de Rihanna, e “Hotel Califórnia”, dos Eagles. Pouco importa se o sucesso dos vídeos se deva mais ao fato de serem ridículos, porque, segundo uma das devotas da SOUST “Se fizer a pessoa rir, já está passando a nossa mensagem de que Deus é alegria. E é bom despertar um pouco de risada num mundo como o de hoje”.

Falando em “mundo de hoje”, já que esta é uma época de mudanças, por que Cristo não teria mudado? Falando sobre a segurança de sede da SOUST (que além de cercas elétricas e cães adestrados, conta com a pontaria das discípulas, atiradoras treinadas e portadoras de armas legalizadas), Inri pondera: “Não se pode mais dar a outra face como eu fazia há 2 mil anos. Hoje, se levas um tapa e ofereces a outra face, te cortam o pescoço.”

Mas não só a prática de não-violência sofreu reformulações duvidosas. A pureza cristã não é exatamente um requisito na pequena comunidade de Inri. Embora adeptos do vegetarianismo e sexualmente abstinentes, os seguidores são consumidores parcimoniosos de álcool, sendo que Inri Cristo bebe vinho e uísque.

Jesus alerta para os falsos cristos e falsos profetas que viriam (Mt. 24:24). Inri Cristo não é um falso Cristo – afirmar tal coisa equivaleria a validar a seriedade de sua personalidade messiânica. Inri é autêntico, genuíno. Autenticamente lunático, genuinamente maluco!

[1] As informações extraídas provém de Fausto Salvadori Filho,"Aqui ninguém é santo!", disponível em 3 partes, sendo que consultamos a 1ª parte (http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT1689459-5458,00.html) e a 2ª parte (http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT1689459-5458-2,00.html).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ATÉ QUANDO AS BOLSAS CAIRÃO?


"Os temores de uma recessão global são justificados e têm sido precificados muito rapidamente. Os valores de mercado das empresas no setor de matérias-primas são apocalípticos" , desabafou Emmanuel Morano, diretor de administração de ativos na La Francaise des Placements. Não é para menos: o Estado de São Paulo informou que a queda da Bovespa fechou em queda record de 11,39%, enquanto Dow Jones (NY) caiu 7,87%, a maior queda em 21 anos!

No Brasil, diversos setores da economia já sentem os efeitos da alta do dólar. A indústria farmacêutica, que importa 83% dos insumos, se ressente da perda de estabilidade pela qual vinha atravessando e fica apreensiva, segundo se pode inferir das declarações de Carlos Alexandre Geyer, presidente da Alanac (Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais) em entrevista à Gazeta Mercantil.

Em vista disto, ainda hoje, a cúpula BRIC (da qual fazem parte países emergentes, como Brasil, Índia, África do Sul, etc.) reuniram-se para reinvindicar seu direito de participar das decisões para contornar a crise mundial. Os países que compõem a BRIC sentem-se injustiçados porque a crise, que entendem ser conseqüência da ganância das nações mais ricas, começa a afetar seus mercados financeiros. "Nossos países devem participar mais diretamente da coordenação internacional para confrontar a crise financeira", assim resumiu o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva o anseio do grupo em um só brado, como noticiou a Gazeta do Povo.

Aparentemente, o cenário mundial está indicando uma crise no setor financeiro sem precedentes, o que contribuiria para completar o cenário profético. Temos que ter paciência para acompanhar os acontecimentos. Acima de tudo, o mais importante é o nosso preparo pessoal diante de tantos sinais evidentes de que o retorno de Jesus está se aproximando.

Não deixe de ler:

SEM COMBUSTÍVEL


Ontem, voltávamos do Colégio onde trabalhamos eu, minha esposa e a coordenadora pedagógica (nossa vizinha). Depois de passar por uma esquina a algumas quadras de onde moramos, o carro não respondia ao acelador. A velocidade passou a diminuir. Olhei para o painel do meu Corsa. Em seguida, minha esposa exclamou junto comigo: "Acabou a gasolina!"

Menos mal. Nossa amiga continuou a pé. Eu tive o contratempo de procurar o posto mais próximo, sob uma garoa cinzenta. Logo estava de volta, com dois litros de gasolina em uma garrafa. Até agora minhas mãos estão cheirando a combustível.

Teria sido pior se parássemos em um local de difícil acesso. Caso não houvesse um posto de abastecimento nas redondezas. Se tivéssemos em uma rodovia movimentada. Enfim, as circunstâncias ainda estavam a nosso favor.

Mas, por favor, quero que você saiba que há coisa pior do que ficar com o tanque do carro vazio: é ter falta de combustível espiritual. A busca pelo reabastecimento espiritual deve ser uma constante na vida do cristão genuíno. Tal busca se inicia com o reconhecimento da soberania divina. Em contraste, somos impressionados a reconhecer nossa debilidade e depência do Ser Divino. Quando o fazemos, somos habilitados a receber o fortalecimento, através da generosidade do Pai Celestial em se fazer presente em nossa vida.

Estas três partes do processo de abastecimento espiritual são facilmente reconhecidas no seguinte texto do profeta Isaías:

"Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: 'Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito.'" Is. 57:15.

E você, já se abasteceu hoje?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

ENTENDA A CRISE FINANCEIRA


Na segunda-feira passada (6/10) fiquei bastante surpreso com a entrevista de um filósofo/economista no Jornal Nacional. Ele afirmou que as pessoas não devem colocar suas esperanças e realizações em ganhos financeiros, após uma série de notícias a respeito da tragédia nas bolsas. Fiquei pensando: a Bíblia dá estes mesmos conselhos há dois mil anos, e a inspiração há pelo menos 100.

Mas você sabe como e por que as bolsas estão em colapso?

Bem, todos já vimos as matérias dos jornais que ligam a crise atual com o mercado imobiliário americano. Vamos a algumas ilustrações bastante didáticas (me perdoe se você conhece, possivelmente melhor do que eu, o mercado financeiro):

Imagine que você tem uma casa que vale R$ 100 mil. Com o passar de alguns anos, os investimentos feitos em seu bairro e a crescente procura por imóveis na sua cidade, a sua casa tem seu valor de mercado aumentado para R$ 300 mil. Não só a sua, mas a maior parte das casas do país começam a seguir um aumento de preços semelhante.

Imagine também que os bancos, em uma época de vacas gordas, possuem muito dinheiro para emprestar. Ora, dinheiro parado no banco é prejuízo para ele. Ele tem que emprestar, para gerar lucro maior do que o juro que ele paga aos depositantes (o que chama-se de spread). Como os bancos já emprestaram para quase todas as pessoas que têm emprego, com bons salários e com patrimônio (os bancos chamam estes clientes de baixo risco, risco A, etc), eles precisam procurar novos nichos de mercado.

Como não conseguem expandir seus negócios entre o risco A, por saturação, por concorrência, por falta de poder de barganha, eles começam a oferecer empréstimos para os clientes que não têm empregos tão bons, que não têm tanta renda e que não têm tantos bens em garantia. É claro, os juros para estes clientes são mais altos! Como garantia, eles hipotecam (alienam, penhoram) os bens que são objeto do financiamento, e contratam seguros sobre os financiamentos (obviamente pagos pelo devedor). Este é o famoso mercado subprime: empréstimos imobiliários de risco maior (menor qualidade do crédito).

Imagine que o Banco X resolve emprestar dinheiro para o Sr. Malazarte, profissional autônomo, sem bens imóveis (entrando no segmento subprime). Malazarte resolve comprar a casa de seu vizinho, no valor de R$ 200 mil, financiada pelo Banco X, com pagamentos ao longo de 30 anos. A casa fica hipotecada ao Banco X, ou seja, se Malazarte não pagar sua dívida, o Banco X tomará a casa dele. Mais: como você é um bom cliente, o Banco X também oferece R$ 200 mil (sua casa vale R$ 300 mil) para você, e como garantia, você hipoteca sua casa. Você aceita. Muitas pessoas no país estão fazendo negócios como este.

Os bancos têm um artifício muito comum, em todo o mundo, de vender suas dívidas. Como assim? - Eles emitem títulos no valor das dívidas e atrelados à elas (como a sua e do seu vizinho Malazarte) e criam fundos de investimento para pôr no mercado. Desta forma, eles conseguem mais dinheiro para continuar operando. Muitas pessoas e empresas compram estes títulos, em todo o país, pois o mercado está muito otimista, e a inadimplência (calote) é baixa.

Tudo corre muito bem por algum tempo, mas logo a euforia do setor imobiliário começa a arrefecer e os imóveis, de maneira geral, começam a perder seu valor. Com o passar do tempo, sua casa, que valia R$ 300 mil, agora está valendo apenas R$ 80 mil. A casa do seu vizinho Malazarte, agora vale R$ 50 mil. Mas a dívida dele, com o Banco X, é de R$ 200 mil, mais os juros, que não são poucos. Sua dívida também é parecida com a dele.

Como a situação da economia em geral está piorando, as prestações dos financiamentos começam a ficar muito altas. Malazarte deixa de pagar suas dívidas, pois raciocina: "por que eu vou pagar mais de R$ 200 mil em meu imóvel, se ele agora vale apenas R$ 50 mil? Se o Banco X quiser tomar, ok, vou poder comprar outro imóvel muito melhor, com menos dinheiro". O problema é que uma parte muito expressiva das pessoas começa a pensar assim.

O Banco X começa a executar algumas hipotecas, mas o valor dos imóveis não cobre, nem de longe, a dívida que eles geraram. O tempo e as custas judiciais consomem quase todo o valor dos imóveis. Os bancos perdem liquidez (capacidade de ter dinheiro à disposição, para honrar os compromissos e os saques). Eles começam a pedir as indenizações das seguradoras, em relação aos contratos de seguro feitos nos empréstimos. Mas as seguradoras, que contavam com um índice de inadimplência muito menor, não têm dinheiro para pagar as indenizações, e começam a falir.

Todos os títulos que os bancos puseram no mercado, baseados nas dívidas dos clientes subprime, têm seu valor extremamente reduzido, pois todos estão vendo que ninguém vai pagar por eles. Estes são os títulos podres, que você deve ter ouvido falar. Ou seja, empresas e pessoas físicas que os compraram perderam seu dinheiro. Umas pouco, outras muito. E mais: como os bancos estão à beira da falência, todos os seus papéis, inclusive as ações, começam a valer muito menos.

Se os bancos estão ruins, muito de perto segue o setor financeiro. Os valores mobiliários (ações) sofrem quedas sucessivas nas bolsas porque, assim como sua casa e a do Sr. Malazarte, não tinham valor real semelhante ao valor de mercado. O preço das ações também é dado de acordo com a oferta/procura, com o otimismo e com a confiança do mercado.

O mercado financeiro está alicerçado na confiança. Se esta está em baixa, a recessão se avizinha. Pode-se dizer que a economia mundial é um elefante se equilibrando na corda bamba.

Todas as pessoas que têm colocado sua esperança no dinheiro, nos bens, têm estado bastante preocupadas nestes últimos tempos. Mesmo investimentos "seguros" não podem ser considerados invulneráveis. Lembram o que o governo Collor fez há 15 anos atrás, congelando os depósitos dos clientes nos bancos?

Terras podem ser perdidas, desvalorizadas, tomadas, invadidas. Ações podem desvalorizar. Empresas podem falir. Onde as pessoas têm depositado suas riquezas?

Mt 6:19 "Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam;
"20 mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam."

Tg 5:2 "As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão roídas pela traça."

Texto de Alexsander Silva, postado no blog Em Defesa da Verdade

MINISTÉRIO DE TODOS OS CLIENTES


Quem define a práxis religiosa é o adorador. Pode parecer uma afirmação infundada, em meio a um cenário repleto de líderes carismáticos, geralmente criticados por uma suposta manipulação de massas. Todavia, como a religião do século XXI é midiática, sua realização se dá através da capacidade de reunir o maior número possível de pessoas. Uma tendência comprobatória é a construção de templos cada vez maiores e com dependências ocupadas por lojas de serviço (desde artigos propriamente religiosos, como bíblias, livros, CDs, DVDs, até outros tipos de serviço, como lanchonetes, por exemplo).
Sendo desta forma, para atrair uma quantidade expressiva de adoradores, os líderes religiosos se vêm obrigados a lançar mão de recursos de auditório (a teatralidade na pregação, o uso de encenações, a bonificação material), além de oferecer serviços religiosos em consonância com a necessidade das pessoas comuns. Alguns dos serviços oferecidos pelas comunidades religiosas são cursos para casais, acampamentos para adolescentes, reuniões com empresários, seções de bênçãos (geralmente com enfoque material e apresentação de testemunhos de pessoas que já alcançaram a petição), além de discursos motivacionais e de um enfoque na liturgia musical, diversificada até as raias do suportável, com o fito de agradar os gostos musicais mais díspares.
A crítica que levantamos não se reporta a todas as atividades mencionadas em si (embora algumas sejam questionáveis), mas ao fato de que a liturgia consiste naquelas atividades, com quase nenhum espaço para instrução bíblica objetiva, pela qual o adorador seja confrontado com os princípios das Escrituras de forma prática e profunda, a ponto de o Espírito Santo impressioná-lo a um compromisso específico, que se traduza por mudança de conduta, perspectiva ou ambas as coisas.

Ocorre que a introdução de uma sólida apresentação da matéria escriturística significaria perda de um número significativo de fiéis, uma vez que o homem pós-moderno considera a si mesmo e seu contexto como tábua-rasa da verdade. Dentro desta mentalidade, as pessoas não à igreja em busca da Verdade (no sentido cristão tradicional), mas para legitimar suas próprias noções de verdade, buscando conselhos, apoio emocional, entrosamento social e estímulo para as lutas cotidianas. Para o pós-moderno, que quer experiências satisfatórias e variedade de escolhas, a espiritualidade é apenas mais um serviço; isso explica porque as comunidades religiosas se encaram como prestadoras de serviço, procurando atender a demanda do consumidor, sempre (e cada vez mais) exigente.

Leia também: MUDANÇA DE PERSPECTIVA – E A FÉ VAI PARA GAVETA