domingo, 30 de novembro de 2008

A HONESTIDADE





O caráter construído pelas mãos marcadas por cravos destaca-se por irredutibilidade em matéria de princípios. É gentil e inexpugnável, brando e convicto. Seu norte está no dever. Sua referência é quem lhe molda - o Deus moral. Em cada esfera, em cada decisão, a grandeza da honestidade brilha com a mesma fulgurância.

sábado, 29 de novembro de 2008

ITAJAÍ: NOTÍCIAS DE UM MICROCOSMO


Os últimos 3 dias foram de trabalho duro. O colégio adventista de Itajaí não tinha mais professores – todos nos tornamos zeladores, na expressão do engenheiro da Associação Catarinense, o irmão Íris. Ele foi responsável pela coordenação dos trabalhos de limpeza na área de Educação Infantil, laboratórios, cozinha, quadro externa e pátios, afetados pela enchente.

Retiramos carteiras, mesas e quadros das salas para submetê-los à rigorosa higienização. Recolhemos cadernos, livros, materiais escolares completamente enlameados, que não tiveram outro destino a não ser o lixo. E haja sacola para tanta coisa que se perdeu!

As paredes foram esfregadas, as grades da quadra ensaboadas, o pátio recebeu uma “ducha” com o auxílio de um caminhão pipa. Todos tinham seus rodos na mão, vassouras, panos, jatos d’água, desinfetantes ou algo equivalente. A tarefa só não se tornou intransponível devido ao precioso auxílio de funcionários da própria Associação Catarinense (da Igreja Adventista) e de outros colégios (de Florianópolis, do IAESC, etc), que lotaram uma van para nos socorrer. Mesmo assim, foram 3 dias exaustivos.

Neste intercurso, as notícias iam chegando. Famílias de alunos que perderam seus bens. Carros de professores encharcados com as águas da enchente. Funcionários da escola que não conseguiram salvar roupas e móveis.

Cerca de 30 famílias do distrito de São Vicente (em Itajaí) tiveram prejuízo total. Louças cheias de lama, roupas apodrecendo, casas de madeira desabando, racionamento de comida e água. Relatos chocantes de uma tragédia que veio sem hora marcada e parece não ter acabado totalmente.

Pessoalmente, eu, que fui um dos menos atingidos, só pude refazer as pazes com o barbeador na noite de quinta, que não vai tão cedo da minha memória: meu primeiro banho decente em 3 dias, tomado na casa de amigos. Apenas hoje pela manhã havia água no chuveiro de minha casa (havia, porque não há mais!…).

Não seria justo de minha parte me queixar de nada – mesmo porque estou consciente de minha situação altamente privilegiada (se assim posso me expressar) em vista de tantas famílias que ainda estão empenhadas em remover a lama de seus lares.

Além do Colégio Adventista de Itajaí, as nossas igrejas na cidade tiveram que se adaptar à vida pós-enchente. Os adventistas de São Vicente realizaram um culto distrital, emprestando o prédio da Comunidade Evangélica em Itajaí (CEI), uma vez que as congregações adventistas foram gravemente afetadas (por se localizarem naqueles bairros em que água mais subiu).

Quanto ao distrito Central, que sentiu menos o efeito da calamidade (falando de uma forma generalizada), o culto foi reduzido em função da nova realidade. O distrital, Pr. Ademar Paim explicou à membresia sobre o apoio financeiro e material vindo de lugares como Curitiba, São Paulo (Igreja de Moema e do IASP), entre outros. O pastor vibrou emocionado diante do que classificou como a “maravilhosa família adventista”.

À tarde, os membros de todo o distrito se dividiram para distribuir cestas básicas com as primeiras doações que chegaram. Eu, minha esposa Noribel, professores do colégio Adventista e amigos visitamos os bairros São Bento e Promorar. Neste último, o cenário é devastador: muita lama nas ruas não asfaltadas e pilhas de objetos irrecuperáveis – de sofás e móveis a eletrodomésticos. Entregamos água mineral, cestas básicas e esperança a alguns moradores. Não deixávamos os lares antes de realizar uma oração.

Ao mesmo tempo em que as coisas começam a dar uma guinada no sentido de retomar seu ritmo habitual, a realidade ainda se afigura com requintes de extrema escuridão. O maior mercado atacadista de Itajaí foi saqueado. Moradores iam com barcos até o estabelecimento e saíam carregando televisores de plasma (não imagino que alguém, mesmo em estado de extrema necessidade, consiga comer um televisor!) e geladeiras. Latinhas de cerveja furtadas de mercados eram vendidas em semáforos. O mesmo saque covarde aconteceu em quase toda a cidade de Itajaí – do bar do Garnizé às Casas Bahia!

Na quinta-feira foi decretado o toque de recolher às 22 horas. O policiamento tornou-se constante. Ouvi comentários sobre a segurança instável da cidade, comparável a do Rio de Janeiro (ou pelo menos ao estereótipo da “cidade maravilhosa” que a mídia nos fez aceitar).

Itajaí e as demais cidades envolvidas pela calamidade (como Ilhota, Blumenau, Gaspar, Pomerode, Luís Alves) tornaram-se um microcosmo dos últimos tempos. Já dá para divisar o que vem por aí, em termos de calamidades globais, tanto as que se classificam como sinais da volta de Jesus, como aquelas que entram na categoria de últimas pragas (Ap. 16). Mas por que justo essas cidades? Por que aqui, em Santa Catarina?

A resposta a estes questionamentos exige muita cautela. Afinal, deste lado da eternidade é temerário exprimir juízo definitivo, uma vez que temos uma visão apenas parcial dos eventos. Somente Nosso Senhor sabe os motivos. Conquanto nossa compreensão seja limitada, podemos arriscar refletir sobre uma passagem bíblica instrutiva.

Jesus, comentando de uma chaga social de seus dias (o massacre de alguns galileus que se insurgiram contra o governador Pilatos) nos ensinou a não pensar nos flagelados como mais culpados do que as demais pessoas. Podemos divisar no juízo de valores do Mestre um motivo exemplar para que sobre algumas pessoas ou regiões recaiam as calamidades: “Pensais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo! Antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” Luc. 13:2 e 3.

Embora os juízos finais de Deus sigam certa “ordem de prioridade”, sendo derramados sobre aquelas cidades e países que tenham majoritariamente se declarado em rebelião contra Deus e Sua Palavra, não podemos nos esquecer que a necessidade de arrependimento e preparação para a última crise são fundamentais a todas as pessoas. Daí se poder falar no aspecto exemplar: todos necessitam se aperceber, através dessa calamidade, que precisam acertar as contas com Deus antes de Seus juízos lhes sobrevirem. Ricos e pobres, todos foram afetados pela enchente. Um dia, os grandes e pequenos se lamentarão diante da face do Senhor, temendo aquele encontro que adiaram ao máximo enquanto desfrutavam desta vida transitória (Ap. 6:15-17). Isto podemos aprender com a tragédia: a necessidade de estar preparado sempre!

Leia também:

Textos de Ellen White sobre a destruição às cidades no Tempo do fim: Calamidades
Os primeiros relatos que pude fazer sobre a crise em Itajaí: "CHOVE CHUVA": MINHA EXPERIÊNCIA COM UMA ENCHENTE
Sobre um catarinense emocionado e um Deus amoroso:Coração catarinense
Contribua para socorrer as vítimas da enchente depositando qualquer valor na conta: Banco do Brasil - Agência 3425-8 e C/C 15.000-2 em nome de ADRA DESABRIGADOS SC).

INTEGRIDADE NÃO CIRCUNSTANCIAL

“Os dons de Sua graça por Cristo são gratuitos a todos. Não há eleição senão a própria, pela qual alguém possa perecer. Deus estabeleceu em Sua Palavra as condições pelas quais toda alma será eleita para a vida eterna: obediência aos Seus mandamentos, pela fé em Cristo. Deus elegeu um caráter de acordo com Sua lei, e qualquer que atinja a norma que Ele exige, terá entrada no reino da glória.”
E. G. White, Patriarcas e profetas, p. 121 (ed. Condensada).

Por entre o verdor de Dotã,
Na insígnia de um chefe tribal,
Vem e a prece é vã:
Em um poço o prendem às gritas.
Terminam o mal
Ao venderem-no a ismaelitas.

À volta com medos e panes,
É levado o jovem hebreu
A Mênfis e a Tânis.
Voa a idéia como anda o Nilo;
No Egito vendeu
A caravana a este intranqüilo.

Sob as ordens de Potifar,
No azul a ver o lácteo gípseo,
Lembrando-lhe o lar,
Por senso e afinco se destaca.
Mesmo em solo egípcio,
Não serve ao íbis, nem honra a vaca;

Seu coração moço a Jeová,
Deus dos pais de seu pai, se prostra.
Potifar lhe dá
O governo sobre os negócios
– E o Deus Vivo mostra
O quanto prosperam Seus sócios.

Enquanto José sus progride,
A mulher de seu senhor punha,
Toda noite e dia,
Sobre ele os olhos de desejo!…
Via-o e lambia a unha,
Como a pedir ao moço um beijo.

José redargüia à mulher:
“Potifar de sob minha alçada
Nada excluiu sequer
A você, maior que os bens seus;
Ação tão errada
Praticara contra o meu Deus?”

Há vento, arrepia-se o trigo.
Sai a voz da morna cereja:
“Deite-se comigo!”
José ouve e surge, atraente
A quem quer que a veja,
A mulher de seu amo à frente.

Ao piramidal busto ela une
Racemos de um negro papiro.
Corpo que o sol brune
Ao de um José em susto enlaça,
E solta o suspiro
De uma esfinge cheia de graça.

José, homem igual a outro homem,
Ciente das fraquezas carnais,
De que as forças somem,
Pela fé resiste ao prazer;
Sem discursar mais,
Íntegro se põe a correr.

José não lhe afaga e ela berra,
Crendo-se humilhada ante a fuga,
E a ouve toda a terra…
Potifar vê seu nome em jogo:
A testa se enruga
E cede ao embuste que há num rogo;

Aquilo lhe atormenta e oprime
– Prender José, justo José,
Indisposto ao crime!…
Mas mesmo a prisão não reduz
O ânimo da fé;
E onde está, José sempre luz.

O Deus a quem ama aprimora
Seu caráter – faz-lhe o primeiro.
Quando advém sua hora,
José, o humilde homem do Céu,
Sempre firme, inteiro,
Tem mudada a sorte de réu:

É feito primeiro ministro,
Pois mesmo aos sonhos interpreta!
E de seu registro
Salta à razão que por sob panos
Cumpre Deus a meta
De honrar aos Seus correndo os anos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"CHOVE CHUVA": MINHA EXPERIÊNCIA COM UMA ENCHENTE

A nova piscina da minha casa!

A decisão mais importante que tive de fazer de domingo para cá foi, sem dúvida, a de subir os móveis.

Contrariando a máxima segunda a qual “ninguém é uma ilha”, vários municípios catarinenses foram vitimados por enchentes, ocasionadas pelas fortes chuvas que sobrevieram à região.

No sábado à noite, durante uma programação regional da igreja, fiquei sabendo da gravidade do problema das enchentes. O presidente da Associação Catarinense dos Adventistas, Pr. Lorival Gomes, informou-nos da situação do município vizinho de Joinville; o Colégio Adventista Central da cidade já fora afetado pelas enchentes e houve perda de recursos. Confesso que, até então, ainda era impossível prever o que me aconteceria. Averiguamos, mais por curiosidade, através da internet, a situação calamitosa de cidades vizinhas, como Brusque, Blumenau, Joinville, etc.

Na manhã seguinte, um de meus amigos, o professor Jean Benassi, que trabalha no mesmo colégio que eu, ligou para minha casa. Ele precisava do telefone do diretor (cuja residência fica em cima da minha), porque seus irmãos estavam desabrigados e ele próprio temia ficar ilhado. Quase em seguida, uma das coordenadoras da escola nos ligou, recomendando que deixássemos nosso veículo em frente à prefeitura. Ela já havia tomada a mesma medida, prevendo que a água do rio entrasse em sua casa.

Ainda incrédulos, eu e minha esposa consultamos o diretor e a dona da casa em que moramos. Dona Terezinha, moradora antiga da cidade, nos garantiu que a água poderia subir ao nível da metade de nosso quintal, sem, contudo, chegar a entrar em nossa casa (que é mais alta do que as demais da rua).

Eu e minha esposa fizemos um “tur”, verificando as ruas próximas a nós que estavam afetadas. Voltamos para casa e logo o pesadelo ganhou contornos realísticos.

O nível da água começou a subir em nossa rua. Ficamos na casa do diretor do Colégio Adventista de Itajaí, Pr. Sonir Brum. Acompanhamos durante boa parte da tarde e noite a cobertura da TV Brasil Esperança, emissora local, sobre os resultados da enchente na cidade.

Vimos lanchas socorrendo idosos em bairros nos quais a água invadiu completamente as residências. Abrigos indicados pela Defesa Civil eram recomendados à população, que ouvia a instrução: “Se a água subir, levante os móveis e saia de casa”.

O apresentador Delísio cobrava a todo instante a prontidão das autoridades – bombeiros, Defesa Civil, Prefeitura –, além de convocar voluntários para socorrer os telespectadores que ligavam dando seus endereços e contando de sua situação. Fomos informados de saques feitos às casas que eram deixadas pelos moradores temerosos. Políticos eram contatos para dar a desculpa rotineira: “Eu não sabia…”

Neste contexto, eu e minha esposa ficamos decidindo o que faríamos com nossos móveis. Se por um lado, tínhamos a garantia de Dona Terezinha de que a água não entraria em nossa casa, acompanhávamos o nível da água subir, chegando mesmo a invadir nosso quintal progressivamente. Não parava de chover desde sábado à noite.

Os carros, por precaução, foram colocados na parte superior do quintal, para evitar possíveis avarias com a subida do nível da água.

A igreja Adventista central de Itajaí tornou-se um posto para atender os desabrigados, sob os cuidados da ADRA. O pastor Paulo Predebom, distrital de São Vicente, o outro distrito da cidade de Itajaí, arrumou um caminhão para fazer mudanças das famílias mais atingidas pela crise.

Acabamos indo dormir. A preocupação nos levou a acordar de hora em hora, durante madrugada, para acompanharmos o avanço do nível da água. Lá pelas 4 da madrugada, percebendo que corríamos o risco de ver nossa sala alagada, chamamos nossos amigos e erguemos os móveis. A geladeira ficou postada sobre as quatro cadeiras da cozinha, enquanto os dois sofás foram apoiados em quatro outras cadeiras emprestadas. Somente depois disto, pudemos dormir em relativa paz.

Pela manhã, o Pr. Sonir e o Emerson, diretor de disciplina do colégio, saíram para ver a situação da escola. O Emerson passara a noite na casa do diretor, e ambos já haviam visitado o colégio várias vezes ao longo do domingo, sem detectar a menor probabilidade de a enchente atingir a instituição. Porém, ao saírem de casa, com a água batendo em suas cinturas, acabaram encontrando uma triste realidade: a área da Educação Infantil, juntamente com os laboratórios (de Ciências e de Informática) e a cozinha do colégio, estavam com mais de um metro de água. Computadores, a geladeira, os materiais das salas – tudo foi perdido, devido à vala próxima que transbordou, trazendo suas águas fétidas para a área mais baixa do colégio.

Próximo das dez da manhã, eu e minha esposa levamos o colchão, roupas, alimentos e materiais de escola para a casa do Pr. Sonir e sua família. As gavetas mais baixas foram postas no estrado da cama. Já estávamos sem energia elétrica.

Passamos o dia recebendo ligações de parentes e amigos, informando e sendo informados sobre a situação dos moradores de Itajaí. Tínhamos alimento abundante, pela Providência divina. Infelizmente, víamos transeuntes vagando com seus apetrechos, enquanto outros deixavam a vizinhança sem muita expectativa de salvar seus pertences.

Acompanhávamos o trânsito de pessoas pela rua, tendo que atravessar a água quase à cintura. Botes salva-vidas, lanchas, caiaques e Jet-sky transitavam por nossa rua, agitando uma marola repugnante. O reflexo da água, sob o sol que abriu, era visto serpenteando pelas paredes das casas, como se a rua toda se tornasse uma imensa piscina marrom. O nível da água em nosso quintal era rigorosamente fiscalizado através das lajotas que levam da garagem a minha porta: contávamos quantos lajotas ainda faltavam para a água chegar à porta de casa.

Somente à tarde, a água invadiu minha casa, através de uma infiltração localizada no pequeno escritório. Como a sala fica em um plano mais alto que o restante dos cômodos, era justamente a sala que ficou incólume ao líquido podre e habitado por baratas. Minha esposa teve de me convencer (e ela pode dizer que não foi fácil) a retirar nossos criados-mudos do quarto e levá-los para a sala enxuta.

Somente a partir de umas 17 horas, começou o recuo da água. A energia elétrica voltou quatro horas depois. Recebemos as primeiras informações: de toda a Santa Catarina, colocada sob estado de emergência pelo governador Fernando Henrique no sábado, Itajaí fora a mais afetada, com cerca de 90% da cidade tomada pela enchente. E os relatos comoventes continuam: agora a pouco homens uniformizados retiraram uma mulher em serviço de parto em um edifício vizinho de onde estamos (minha esposa e a Profª Eude Bahia acompanharam a empreitada, saldada com palmas por populares).

Ainda não sabemos o que nos acontecerá. Só tenho a agradecer a Deus pelos cuidados dispensados a minha família e amigos. Também conto com as orações e apoio material a todos aqueles que perderam tudo naquela que pode ser a mais trágica enchente a afetar o estado catarinense. Oramos para que Deus cuide de vidas que podem se perder sem tempo para conhecê-Lo.

domingo, 23 de novembro de 2008

PARA VOCÊ SE LEMBRAR NA HORA DA CRISE - parte 1


Simone, uma moça comprometida com a igreja, namorava Carlos, um rapaz cristão, há seis anos. [1] Um casal simpático, batalhador. Casaram-se planejando a felicidade. Passados 8 meses de união, detectou-se um câncer em Simone. Todas as igrejas adventistas da cidade envolveram-se numa única corrente de oração. Pouco tempo depois, Simone morreu.
Alguns anos depois, reencontrei-me com Carlos, durante uma semana de oração. O rapaz havia se casado novamente, na tentativa de refazer sua vida. O antigo ar risonho, que fora a sua marca, estava quase extinto. “Às vezes, quando estou sozinho em casa”, ele me confessou, “sinto uma angústia, uma vontade de sair correndo sem rumo”.
As tragédias nacionais e pessoais têm cada vez nos levado a questionar a Deus com intensidade redobrada. Mal se iniciou o século XXI e o maior atentado terrorista da história ocidental ocorreu no fatídico 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque. Será que nas horas de crise, seja em qualquer nível, não podemos recorrer seguramente a Deus? Seria a aparente ausência de Deus uma afirmação de Seu desinteresse pela Humanidade ou – pior ainda – uma comprovação empírica de que não existe um Ser superior responsável pelo nosso bem-estar?
Na época em que o povo de Israel fora parcialmente levado para o exílio em Babilônia (cerca de 586 a.C.), Jeremias, o profeta, escreveu o livro de Lamentações, motivado por seus próprios questionamentos inspirados.
Até mesmo a forma em que o livro foi composto diz algo sobre o objetivo maior do profeta hebreu. O livro de Lamentações se constitui de poemas de caráter oriental; enquanto a poesia ocidental geralmente apresenta preocupações retóricas ou, no caso da poesia moderna, demonstra um alto grau de experimentalismo, o objetivo da poesia hebraica é produzir um equilíbrio de pensamento. Assim, longe do que possa parecer, Jeremias não escreve apenas para chorar pelo que aconteceu ou lamentar a sorte de seu povo. As linhas do autor de Lamentações estão carregadas de profundas reflexões morais e teológicas.
O Senhor é caracterizado na composição de Jeremias como uma divindade moral. Como resultado da desobediência humana, Deus permite o advento de calamidades; Ele intenta, desta maneira, que o homem reconheça Seu erro e volte-se a Ele. Evidentemente, este raciocínio não pode ser aplicado para explicar a razão de todo sofrimento humano. Em Jó, outro livro bíblico com aspectos semelhantes aos de Lamentações, a calamidade (neste caso, pessoal) não é uma punição, mas uma prova de fé, resultante da atuação de entidades cósmicas antagônicas – Deus e Satanás – que lutam para influenciar o destino do homem.
Mas qual é, efetivamente, a atitude apropriada diante da calamidade, seja ela motivada pela punição instrutiva ou prova de confiança? Em um de seus momentos áureos, o livro de Lamentações nos diz em que pensar quando atravessamos uma dolorosa crise:

“Todavia, lembro-me também do que pode me dar esperança:
Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis.” Lm. 3:21 e 22, NVI[2]

Estes versículos encerram o principal ensino da seção. Há razões pelas quais alguém pode se fiar nas misericórdias divinas em tempos críticos? Jeremias provê algumas razões:

(I) As misericórdias de Deus são eternas

As misericórdias divinas atuam como um ciclo fechado (v. 22-23a), uma espécie de fonte auto renovável de energia. As misericórdias do Senhor são tão grandes que a eternidade não é suficiente para contê-las, mas ainda assim cabem dentro de cada dia que vivemos.

O texto ensina-nos que a compaixão divina provém de uma fidelidade imensa (v. 23b). Normalmente, o termo “fidelidade” na Bíblia é aplicado ao próprio Deus, e relacionado aos Seus atributos, às obras divinas e às Suas palavras.


[1] Os nomes dos envolvidos foram trocados.[2] Todas as referências bíblicas foram citadas a partir da Nova Versão Internacional (NVI).


PARA VOCÊ SE LEMBRAR NA HORA DA CRISE - parte 2


(II) As misericórdias de Deus dão esperança

Jeremias expõe que devemos saber como esperar em Deus. Esperar desde jovens (v. 27); esperar com atitude submissa (submissão ao próprio Deus, v. 28, e às circunstâncias dirigidas pelo próprio Deus, v. 29 e 30); e, finalmente, agregar à espera a certeza de que Deus não falhará – “[…] A minha porção é o Senhor; portanto porei nele a minha esperança. … Porque o Senhor não desprezará para sempre”, afirma o profeta (v. 24 e 31).

A constatação decorrente da argumentação do texto gera uma exclamação de fé: Deus é bom para quem nEle espera (v. 25)!

(III) As misericórdias de Deus são justas

A tristeza que as ações celestes suscitam se faz acompanhada por misericórdia (v. 32 e 33). Afinal, Deus não se mostra Injusto quando nos castiga (v. 33). Aliás, a própria expressão “castiga” não se deve tomar no sentido humano, uma vez que a natureza benigna do Senhor jamais O levaria a trazer de forma ativa um mal para Seus filhos. Deus permite que colhamos o fruto de nossas decisões.

“Embora ele traga tristeza, mostrará compaixão, tão grande é o seu amor infalível.” (v. 32). Deus demonstra amor quando nos pune ou nos prova. Caso você esteja enfrentando desafios intransponíveis e as suas reservas emocionais estejam se exaurindo, lembre-se de que Deus jamais virará as costas para você. Seu constante amor será a sombra a acompanhar cada um de seus filhos prostrados.

Neste ponto, o texto nos faz recordar de que a tristeza permitida por Deus é fruto do pecado – ou do nosso (como em Lamentações) ou um reflexo da entrada e predomínio temporário do pecado universal (como em Jó). No primeiro caso, seguindo a seqüência do poema de Jeremias, Deus nos vê quando distorcemos a Sua justiça (vv. 34-36). Então, Deus administra os resultados de nosso pecado, permitindo que a experiência nos seja instrutiva, a ponto de reconhecermos que existe uma relação causal direta entre escolhas morais e resultados em nosso destino a curto, médio e longo prazo. (vv.37 e 38).

O objetivo divino fica explícito dentro de Lamentações: a tristeza pelos pecados (o nosso próprio ou o pecado universal) deve ser o ponto de partida para nos voltarmos para o Senhor (quer ao nos arrependermos do mal que fazemos ou ansiando, em face do mal que há ao nosso redor, a redenção final que banirá tudo o que o pecado desde o Éden tem trazido à Humanidade). A existência do sofrimento, bem como de sua expressão máxima – a morte – são o maior argumento contra a acomodação a este mundo de pecado

Portanto, em vista da realidade do mal, devemos nos queixar de nossos próprios pecados (v. 39), examinar profundamente a direção de nossa vida (v.40) e nos decidir voltar integralmente ao Senhor (v.40).

Conclusão

Jeremias apresenta no terceiro capítulo do livro de Lamentações fortes motivos para nos agarrarmos às misericórdias divinas. Seja qual for a situação que você estiver passando ou venha a passar, deixe Deus tornar a sua fé tão madura quanto a do profeta, que em meio às ruínas de uma nação – a sua nação! – olhou com confiança para o Senhor. Hoje podemos confiar em Deus ainda com maior intensidade, porque no Calvário Ele esculpiu Sua misericórdia, através da cena na qual Seu Filho morria. Deus pede que você apenas se lembre de Suas misericórdias.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

LAÇOS E PERDAS

Nem o sopro da colina, com seu aroma verde de descanso me serve de consolo. Sinto saudades. Éramos todos uma só família, unidos na peregrinação da esperança. Éramos. E a separação… malditos poços de água, que secaram afetos! Até hoje, lamento pela despedida. Minha esposa… a maldita fez minha cabeça, me fez deixar de ver um sentimento que ainda vive, que para mim, na época, tinha sido sepultado. O sopro da colina está se apagando, vaga-lume inerme diante da radiância matutina. Logo minha família irá acordar para mais um dia no caos.

Como insistirei, sem parecer que aborreço soberbamente? Mas tenho de pleitear, tenho de agir com insistência, porque a minha tenda agora abriga o Senhor das estrelas e meu Senhor acolho por hóspede. Ele me ouvirá? Até que ponto Sua misericórdia poderá polpar uma multidão corrupta? Até que pondo minha intrepidez alcançará Seu coração? Sara já agiu sem confiança em Sua promessa, e eu?, passarei por tolo e insensato? É, preciso ao menos tentar…

Como pode ser? A misericórdia, que a nossos olhos soa como dádiva cheia de adornos valiosos, esbanjada por meros mortais! Como Deus tolera que zombem de uma oportunidade para a vida com essa demora?! Seres insignificantes, confundidos por um mal do qual não podem se livrar de todo, pobres! Nosso Senhor deu Sua irrevogável ordem e precisamos de atormentar toda esta cidade maléfica. E o que nos impede? A demora de humanos!…

Eu destruo Sodoma, Eu julgo a cidade que me indignou por sua calamidade, sim, Eu peso minha mão sobre eles, entro em juízo e quem o suportará? O pecado me aborrece, só a compaixão modula as cordas de Meu peito. O aroma da prece subleva a visão das calamidades; põe-te a correr Ló, não olhe para trás, filho tardio. Tua fé relaxada demorou a compreender minha vontade e teus pés persistiram nos prazeres de tua morada. Agora, apressa-te! Chegou o dia, o Meu dia. Ferirei a todos os que praticaram abominações e seus lares serão morada de corujas e chacais; nem o gafanhoto achará fiapo de grama que preencha o seu dente. Tudo será um sopro, tudo uma névoa diante de minha condenação.

Perder comodidades há tempo conquistadas, com tantas manhãs acordando cedo e tendo de começar a me esforçar; a falta de ambição de meu marido servindo de sombra, eclipsando minhas glórias e realidades próximas, quase atingidas… e este despejo, esta cratera sumamente aberto nos meus desejos por algo melhor. Que eu apreenda ainda a última cena, o vapor que sobe do primeiro calor, um quadro remoto do que foi meu por anos, o meu quase de sempre…

Nossa pai não terá filhos…seu nome não será como o de seu tio, nem chegará a ser mencionado na boca dos chefes das tribos do norte. As montanhas não ecoarão sua memória, tudo está perdido… ou não: resta uma estratégia, uma ação em tempos de desespero, uma mudança regada a vinho, que cheire a incesto, mas que crime seria mais perturbador do que não ter uma geração? Meu pai será meu homem e de mim virão homens, cujos ombros sustentarão sua casa.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

QUEREMOS QUE CONTINUE VALENDO A PENA

Depois de um período de pouca inspiração, os Arautos do Rei, o mais antigo quarteto vocal cristão em atividade no Brasil, volta com um trabalho novo. Com o sugestivo título "Vale a pena esperar", os Arautos investem na retomada de seu público.

Por enquanto, há muito pouco disponível sobre o mais novo CD do quarteto. Talvez a grande novidade seja o retorno do 2º tenor Társis Iraíldes, que compôs a última geração de referência do grupo, da qual faziam parte Dênio Abreu (1º tenor), Jeferson Tavares (barítono) e Ronaldo Fagundes (baixo). Desfeita a formação, Társis continuou cantando nos Arautos, até ser substituído por Jonatas Ferreira (em 2006).

A faixa-título do novo CD, "Vale a pena esperar", pode ser conferida abaixo, em uma gravação de razoável qualidade disponível no site Youtube. Percebe-se que a música mantém um diálogo com a conhecida canção "Chegou a hora" (2000): em ambas, ocorre uma dramatização da segunda vinda de Cristo dentro de uma concepção musical que caminha num crescente até a apoteose.

Os solistas Társis e Ozéias Reis (1º tenor, que, a título de esclarecimento, não tem nenhum parentesco com este articulista) mostram que a nova formação dos Arautos segue o padrão de quartetos contemporâneos (no qual o maior expoente talvez seja o quarteto americano Gaither Vocal Band): ênfase nos solos sincopados, com forte tom emocional e demonstração de grande alcance vocal. Ozéias, apesar de não possuir uma voz educada como a do segundo tenor, ainda assim dá conta do recado quando tem de atingir notas mais altas.

A responsabilidade por direcionar o Arautos do Rei na sonoridade contemporânea foi do maestro Jader Santos, que por 18 anos anos, assinou a produção dos arranjos e versões gravadas pelo quarteto. Ao mesmo tempo, Jader jamais se afastou completamente das origens do quarteto, que remontam ao grupo norte-americano The King's Heralds. De certo modo, à medida em que a visão de Jader tornou-se musicalmente mais progressiva, abriu as portas para que seus predecessores musicais ousassem mais, tornando os Arautos uma espécie de oficina experimental, desagradando os fãs do quarteto pelo excesso de inovação, incapaz de gerar identificação entre o grupo e seus apreciadores.

Talvez por isso o novo diretor musical do grupo, o produtor Ricardo Martins, tenha procurado seguir a trilha de Jader, aproveitando as importantes lições deixadas pelo músico. Apesar de não haver informações sobre o autor de "Vale a pena esperar", ouví-la é relembrar da fase Jader.

A preocupação em soar contemporânea pode ser positiva no sentido de procurar atingir a geração presente com a mensagem da segunda vinda de Jesus, a razão de ser dos Arautos. Ao mesmo tempo, nesta busca/resgate pela identidade, os Arautos do Rei devem, como quaisquer músicos adventista , pautar-se pela Revelação (sobretudo pelo fato do quarteto ser o único grupo oficial da Igreja no Brasil).

Isto implica não apenas na apresentação de mensagens com enfoques criativos, no que tange às letras das composições. Como a Igreja Adventista brasileira é majoritariamente jovem, a tentação é remodelar o quarteto para agradar o que esta faixa etária espera. Mas a forma de lidar com a expectativa do público não pode ser tomada como um paradigma para nenhum músico cristão. Muito menos o peso da tradição (que no caso dos Arautos, remonta aos idos de 1963). É necessário produzir focando naquilo que a nossa filosofia de adoração nos orienta a fazer. Somente desta forma, continuará a valer a pena que nossos músicos invistam seus talentos para o louvor.

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QUAL O PROBLEMA SE A NOIVA NÃO ERA MAIS VIRGEM?


Em Lille, França, uma noiva que mentiu sobre sobre a própria virgindade gerou polêmica no tribunal da cidade. O marido, quando descobriu o logro, pediu a anulação do matrimônio, alegando que a companheira mentira sobre uma "qualidade essencial" do relacionamento, um motivo razoável e perfeitamente compreensível, do ponto de vista da lei francesa, conforme trouxe o G1.

No entanto, a decisão do tribunal em favor da anulação gerou protestos. Manifestantes, sobretudo feministas, alegaram que a noiva estaria sendo discriminada em decorrência de uma fatwa, ou seja, um juízo por ter violado os preceitos islâmicos. Ambos os cônjuges são muçulmanos e mantém a união matrimonial atualmente.

A virgindade hoje não é mais o que se costumava chamar de tabu. Insinuações sensuais, apelos eróticos e coerografias que beiram à pornografia estão associadas a músicas populares e a comerciais de quase qualquer coisa. Ninguém parece se incomodar com a excessiva erotização que atinge até as crianças, totalmente imaturas para administrar os apelos sem que se sintam em conflito.

Não só as crianças, convenhamos, sofrem com a exploração da sexualidade na mídia. O incentivo à prática sexual prematura é intenso. Há dez anos, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou 700 mil partos realizados por mães com idade entre 10 e 19 anos, dados apontados na pesquisa de Gláucia da Motta Bueno. Quantas destas mães realmente se achavam preparadas para cuidar de uma criança? Quantas não interromperam seus estudos, deixando de constituir mão-de-obra qualificada?

Neste contexto, promever abstinência sexual, ressaltando o valor da pureza não é uma questão retrógrada - trata-se da única salvaguarda para as doenças sexualmente transmissíveis, abortos clandestinos, interrupção do estudo formal, além de uma forma eficaz de conter o número de divóricos, haja visto que muitos casamentos se traduzem em um relacionamento desestruturado, pois são conseqüência da paternidade iminente, não se achando baseados em um compromisso constituído pelo conhecimento mútuo e validado pelo amor.

Parece antiquado que o casal de muçulmanos franceses criassem tanto barulho por uma mentira sobre um fato tão banalizado - uma mulher não se casar virgem. Mas quais são as implicações? Qual o verdadeiro valor da virgindade (para homens e mulheres) em mundo que sofre com a liberação sexual desenfreada? Vale lutar por valores num mundo que os despreza? Acreditamos que sim. Imagine se o sexo fosse algo expresso apenas na segurança de uma relação matrimonial saudável; como o mundo seria diferente, para melhor!

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

FÉ QUE MOVE MONTANHAS


Ouves da fé sem que consigas avaliá-la,
E esse som, fora de qualquer freqüência humana
Capta-o a alma ao caminhar muda na estrada plana,
Sendo em meio ao silêncio a hora em que Deus nos fala.

A uma fé semeada entre a dor, nada abala,
Porque o Autor da fé sofreu tortura insana,
Sendo espancado como o vento espanca a cana,
Sem que, contudo, os golpes possam arrancá-la.

Unida a Cristo em seu próprio quinhão de dores,
A alma usufrui completamente dos favores,
Lucrando para sempre ao perder por instantes.

Para que a fé mova as montanhas, precisa antes
De lançar ao mar de abandono e solidão
As formas de orgulho em teu próprio coração.

O BOOM DA ESPIRITUALIDADE PÓS-MODERNA



Um dos mais difundidos mitos sobre a pós-modernidade em meios cristãos é o de que neste período da História, no qual vivemos, as pessoas se revelam desinteressadas pela religião. Nada mais distante da realidade. Para a surpresa dos cristãos, vivemos em um mundo mais “aberto” para a espiritualidade, em suas expressões mais diversificadas. Tal atmosfera “pró-religião” representa, simultaneamente, um campo de oportunidades e um conjunto de barreiras. Antes de entrar propriamente em alguns aspectos positivos e negativos da espiritualidade pós-moderna, quero fazer menção de dados que demonstram o despertar de uma nova espiritualidade.
Uma pesquisa de 2005, indicava que o fator unificador para comunidades de jovens é, predominantemente, religioso (42,5%), fator que supera outros, como as atividades esportivas (32%) e artísticas (26, 9%).[1] Falando sobre esta geração, flexível em espiritualidade, uma pesquisadora afirma: “Essa é uma geração que experimenta mais, entra e sai das religiões com facilidade […] Muitas vezes, a procura leva a uma mistura de crenças pois eles se sentem mais livres para procurar um lugar em que se sintam bem."[2] Outra pesquisa, realizada com 1. 500 universitários paulistas, com idades de 17 a 25 anos, apresenta que 20% dos entrevistados se definem como crentes sem religião. O coordenador da pesquisa, resumiu da seguinte maneira os resultados apontados: “É comum ouvir dizer que a juventude perdeu as crenças, mergulhou no niilismo, no consumismo e no individualismo e abandonou as práticas religiosas. No entanto, a pesquisa descobriu que, pelo contrário, o jovem cultiva intensa religiosidade, que se integra em sua vida". [3]
Esse “cultivo intenso” da religiosidade seleciona os diversos serviços religiosos oferecidos, que se voltam para atender o adorador-consumidor.[4] Ao mesmo tempo, o adorador pós-moderno consome os serviços religiosos pré-selecionados de acordo com sua necessidade imediata, o que passa a caracterizar o que Luís Mauro Sá Martino chama de “religião fast-food”.[5] Também pode-se dizer que, como a incerteza do mundo contemporâneo produz a incerteza individual, que impulsiona a busca por uma nova identidade para se adaptar a cada nova realidade, dá-se que os indivíduos reconstroem constantemente suas identidades – Bauman denomina isto de “Identidade de palimpsestos”[6] Ocorre que as pessoas, engajadas na pós-modernidade a reconstruírem infindamente a si mesmas, igualmente reconstroem a própria religião em níveis pessoais. Já denominei “raciocínio bricolagem” o pressuposto de que o indivíduo pode em nível pessoal reconstruir produtos consumíveis (de roupas à CDs, passando por modelos religiosos) baseado em sua própria competência autônoma, como quer a pós-modernidade. [7]
Quais são as vantagens oferecidas pelo presente estado de espírito da época? A igreja pode canalizar seus ministérios para atingir as pessoas em suas necessidades, cuidando para que esta ministração não perca seu aspecto distintivo doutrinário e seu enfoque evangelístico. Não somos uma agência humanitária, mas uma comunidade de fé, e de uma fé histórica, específica e baseada em princípios que se afirmam como universais. Acreditar que apenas enfatizando a necessidade de “pertencer”, ou enfocando “segurança” atrairá as pessoas, constitui uma tática deficitária.
A singularidade cristã tem de ser proclamada – bem verdade que de um modo contextualizado, mas sem que a Verdade seja perdida de vista. Temos de aproveitar o espírito “aberto” de nossa época para enfatizar que o Cristianismo responde acuradamente às maiores necessidade humanas. Ao mesmo tempo, também corremos o risco de constituir apenas uma comunidade em meio a tantas outras. O diferencial consiste na ênfase da identidade da comunidade de fé como uma embaixada responsável por anunciar uma mensagem relevante para todas as culturas, contextos, linguagens e etnias.

O aumento da espiritualidades, por si só, não é positivo, ainda mais se a noção da espiritualidade contrariar o que a Bíblia apresenta. As pessoas estão em busca de algo e os cristãos devem apresentar que a única satisfação para este anseio é uma experiência pessoal com aquele que se declarou “O Caminho, A Verdade e A Vida” (Jo 14:6).

Leia também:

UM NOVO SÉCULO, UM NOVO TIPO DE ADORADOR

[1] Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Instituto Polis, abrangendo regiões metropolitanas do país, (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), encontra-se citado em Emilio Sant’Anna e Simone Iwasso, À sua maneira, jovens cultivam fé, disponível aqui.
[2] Declaração da antropóloga e pesquisadora do Ibase, Regina Novaes, citado em Emilio Sant’Anna e Simone Iwasso, Idem.
[3] Jorge Cláudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), citado em Ibid.
[4] Para uma análise desta perspectiva, ver Douglas Reis, Ministérios de todos os clientes, disponível aqui
[5] Luís Mauro Sá Martino, Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso (São Paulo, SP: Paulus, 2003), 52-53.
[6] Zygmunt Bauman, O mal-estar da pós-modernidade, (Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1997), 36.
[7] Ver Douglas Reis, Um novo século, um novo tipo de adorador, disponível aqui


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A SABEDORIA

A aquisição não precede à entrega. A entrega parte do reconhecimento. O reconhecimento nasce da consciência de se estar na presença de um Ser superior.

Quando a Revelação deste Ser é aceita pelo homem, uma transformação de perspectiva tem ocasião. O foco é outro. O comportamento passa a refletir não a inclinação, mas parte da obediência.
Ser sábio deixa de ser algo que se aprende em uma biblioteca. Porque o conhecimento do Altíssimo desponta a partir das atitudes. Mesmo daquelas que nos são aparentemente mínimas; elas contam, tudo conta. "Ser fiel no pouco" é a condição para obter maiores responsabilidades. Do pouco para o muito aperfeiçoa-se a sabedoria, cujo princípio consiste em reverenciar o Senhor.

sábado, 8 de novembro de 2008

CIDADE DOS HOMENS

Na planície, onde só havia fugitivos, com suas cidades assentadas sobre sangue. Seu calcanhar majoritário iluminado pela reticência de um sol de outono, as ruas em polvorosa, a notícia alarmando. (Que havia de errado com aqueles caquis, de uma suculência provocadora?) As mãos não estavam bem limpas, e eram notadas pelos curiosos, poucos duvidando de que tivera a audácia para fazer o que se comentava. Faltavam pouco metros para deixar as casas dos anciãos da vila para trás, com seus donos estarrecidos. Aquele homem, de sobrancelhas remexidas e buço de pedra, ele tinha o caos por lei; e se alguém lhe seguisse o exemplo? (As pêras, sem dúvida tenras, os kiwis esmeraldinos, frescos, as abóboras, as couves, quiabos, todos em bom estados, mas sem a aprovação – que ódio!)
Adão vivia para saber da notícia. Que tristeza
Lhe acometia a conta dos erros; que tristeza de pai – e tristeza de homem!
Não via como isso poderia mudar. Mas
Tinha na promessa divina sua única razão de esperança,
Aqueles homens da planície, revoltados contra Jeová,
Que seria deles? Ou creriam ou se perderiam
Nas incertezas de seus procedimentos aterradoramente malignos. Eles escolheriam.
Que havia de errado com aqueles caquis, de uma suculência provocadora? Vinha se interrogando, torturado o coração em meio às cenas mais belas da natureza. Ipês-roxos costeavam a angústia de seus passos desconfigurados. No horizonte, esquadrilhas de asas amenizavam o tom vermelho do sol em despedida. As pêras, sem dúvida tenras, os kiwis esmeraldinos, frescos, as abóbaras, as couves, quiabos, todos em bom estado, mas sem a aprovação – que ódio! Mas não existe voz que o repreenda, nem exemplo que supere os seus atos. Não há quem concorra à aprovação dos pais ou mesmo a do Senhor. O pastor que atormentava, o pastor…sob os veios de cal. Calado, não de todo. Seu procedimento ainda retinia em sua memória, somado à insatisfação. O altar de Abel estará lá, no lugar de antes, junto do seu próprio. Um altar cheio de mensagens. Altar do caçula que o irritou por sua fidelidade.
Finalmente está em casa. Suas duas mulheres deixam as rendas, a farinha, a coalhada, o azeite, o poço. Elas lhe abraçam lânguidas, como duas serpentes que se enrolassem em uma espada. Ele fala com elas, fala para que os vizinhos ouçam.
Quanto pó, terra maldita. As marcas não saíram e como esfreguei minhas mãos naquele rio encardido. Mas estarei em casa, haverá o refresco da coalhada para amenizar o peso do suor. Ada e Silá me esperam, nem sabem o que se passou. Maldita poeira!, quem pode enxergar a direção da Vila, com suas casas crescendo em número e paramentos? Quem mandou que ele me ferisse, pobre idiota! Ah!, eu não tenho de me preocupar com nada, nada, nada! Se aquele que assassinasse o patriarca Caim seria vingado por Deus, muito mais a mim! não sete vezes, mas setenta vezes sete – ah, ah,!Finalmente, a vila, sei que as notícias me antecedem. Mas quero que minhas esposas saibam de minha própria boca como eu despachei facilmente aquele cão. Certamente, todos me respeitarão mais ainda. Mal posso esperar pela coalhada…
Do alto, Seu projeto contemplava. A forma como tudo estava acontecendo, os crimes,
A maldade própria a satanás, agora própria também ao homem, filho que Ele amava;
Tudo Lhe feria. Pela Terra toda, poucos homens tinham Sua lei no peito.
Sua intenção fora sabotada pela difusão do mal. Mas Seu conselho eterno
Se mantinha como antes: inabalável. Com a Criação ameaçada, Seu plano
De amor triunfaria! A justiça que, para pessoas iguais a Lameque, era nada,
O Eterno Jeová reivindicaria, fazendo justiça aos Seus filhos também:
Todos oprimidos, desde Abel, seriam justiçados.Por ora, o mal se espalhava,
E os Céus não podiam suportar sua onda crescente de infâmia, assolação e caos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A ILUSÃO DE CASANDRA

Cassandra, na mitologia, cativou Apolo, que lhe deu o dom da profecia. Mas como a jovem não cedeu às seduções do deus, ele a condenou a ter seus vaticínios desacreditados pelos seus contemporâneos. Aproveitando o tema de expectativas frustradas, o cineasta Wood Allen dirigiu “O Sonho de Cassandra” (EUA / Inglaterra / França, 2007, Iberville Productions / Virtual Studios / Wild Bunch).

Allen, mais conhecido por suas comédias, define Cassandra como “a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições.” [1] Não à toa, Tiago Mota em seu blog classifica o cineasta como “excelente crítico da alma humana.”[2]

O drama gira em torno de dois irmãos de uma família da classe trabalhadora de Londres: o metido Ian (Ewan McGregor) e o viciado em apostas Terry (Collin Farrell). Ambos tem dívidas e recorrem ao bem-sucedido tio Howard (Tom Wilkinson), que aparece no aniversário da mãe dos rapazes. Em troca de ajuda a Terry, que quer iniciar uma rede de hotéis na Califórnia, e a Ian, que perdeu 90 mil euros num jogo de cartas, Howard propõe que seus sobrinhos lhe façam um favor: eliminem um certo Martin Burns (Philip Davis), que poderia prejudicar Howard.

A ética postulada pelo titio vigarista é que a família está acima de tudo e que todo homem deve proteger os seus. Este pretexto dá a Wood Allen a excelente oportunidade de deixar no ar as implicações de uma moral tão comum na sociedade pós-moderna – até que ponto alguém estaria disposto a ir para proteger a sua família?

O dilema que se instala nos irmãos decorre do conflito entre suas ambições e o que crêem ser certo. “E se Deus existir?”, pergunta a certa altura Terry, o mais resistente a aderir à proposta de Howard. Quando um plano é traçado e levado a cabo, Ian tenta racionalizar, num exercício para convencer tanto a sim mesmo como ao irmão de que fizeram algo necessário. Na cena em que se livram das armas do crime, Terry inquire: “No que está pensando?” “O que passou, passou, e o agora é o agora. Que fizemos aquilo e acabou. E é sempre a agora”, responde Ian , para logo prosseguir : “E fizemos a coisa certa.” “Você está certo, Ian. É o agora, é sempre o agora.”, desabafa umTerry alcoolizado e melancólico.

Enquanto Ian segue o seu romance com uma jovem atriz e pensa no futuro, seu irmão começa a sentir cada vez com mais intensidade o remorso. Em outro diálogo da dupla, um Terry trêmulo e mentalmente perturbado diz “Infringimos a lei de Deus.”,“Deus, que Deus, seu idiota!” O utilitarismo de Ian derruba suas convicções. Mas apesar de disposto a viver como se nada tivesse ocorrido, Ian não deixa de perceber as alterações no comparsa, que se afunda nos vícios, no sonambulismo e ameaça se entregar para ficar livre do preso da culpa.

Sem outra saída, Ian recorre a Howard. “Temos que sobreviver”, sentencia laconicamente o tio. “Mas ele é da família”, argumenta o jovem, para em seguida emendar: “Ele [Terry]estava certo sobre uma coisa: estávamos ultrapassando o limite.” Este é um ponto curioso do filme: habilmente, o enredo faz com que a ética de “proteger a família a todo custo” se volte contra a própria família.

Sem perder o ritmo nostálgico e sugerir uma atmosfera de normalidade, O sonho de Cassandra se utiliza da aparente normalidade como uma ferramenta para questionar a própria normalidade. É normal justificar um assassinato para proteger alguém que talvez mereça estar preso, apenas por que “é da família”? É justificável qualquer estratagema visando à ascensão social?

Em um de seus últimos diálogos, ao velejarem juntos, Terry pondera o próprio ato criminoso. Depois de ouvi-lo, Ian arremata: “Você só está abalado porque ficou cara a cara com a sua natureza humana.” Talvez toda a explicação para a ação dos dois irmãos, do tio, da amante egoísta de Terry, resuma-se nisto: um problema de natureza. Ou como dissera anteriormente o pai dos irmãos homicidas em outra cena : “Ninguém quer ser egoísta, mas na verdade todos são.” Nossa natureza egoísta cria ambições e atropela tudo para chegar até elas, enquanto cria a ilusão de que a normalidade permanece inalterada. Isto fica patente no filme porque, após o trágico fim dos irmãos, suas namoradas estão em uma loja, comprando roupas, completamente alienadas sobre o que se passa no ancoradouro.

Cassandra é um filme tenso, questionador, de difícil digestão. Apesar de seu ritmo arrastado e da tensão psicológica, oferece oportunos questionamentos sobre os valores da pós-modernidade e sobre o tipo de moral emergente. Neste ponto, o filme serve de advertência sobre os perigos da ética do consumismo e suas conseqüências no mundo real. Mas seria esta outra profecia desacreditada de Cassandra?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

VOVÓ AINDA VÊ?


"[...] Apesar de não estar mais conosco, sei que minha avó está nos vendo, junto com a família que fez de mim o que sou. Sinto falta deles esta noite. Sei que minha dívida com eles é incalculável."

Barack Obama, presidente eleito dos E.U.A., em seu discurso de posse, falando sobre sua avó, recentemente falecida.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

DO VAZIO À NUDEZ: O QUE A PÓS-MODERNIDADE TEM A OFERECER?

Ianês como veio ao mundo: isto é o melhor da arte?

comentamos antes como a 28ª Bienal de São Paulo serve de parâmetro para entermos o vazio do pós-modernismo. Em um tempo no qual o desespero humano chega às raias do limite, é sintomática a escolha de deixar o 2º andar da exposição completamente em branco, sem a nada a ser exposto.Acrescente-se a isto o fato que o vazio atrai banalização.

Prova disto é a performance realizada pelo artista Maurício Ianês nesta terça-feira. Alojado no 3º andar da mesma Bienal, Ianês realiza a sua "A Bondade de estranhos". Até o dia 16 deste mês, o artista, nú e incomunicável, dependerá do que receber do público, tomará banho nas instalações da Bienal e ali dormirá. Algumas doações já foram feitas - entre as quais, uma camiseta, pastilhas "Tic-Tac", um amigo imaginário (feito de papel - seria "Winsor"?).

A exposição íntima do corpo em público é uma forma apelativa e vulgar de produzir arte, daquele tipo propositadamente executado com o fito de chocar. Talvez a arte hoje, livre da influência cristã, esteja lamentavelmente fadada a chocar e não a inspirar. Além de ser vazia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A MESMA INDECISÃO!


Fui fiel ao Senhor, qual correnteza
Que atraiçoa quem nade em suas águas.
Fí-Lo chorar por não me valer nEle
Na hora de maior prova. Ao ensino justo,
Das dádivas a mais cara à pureza,
Devotei meu desprezo e segui pronto.

Hoje, até de meus bons atos descreio:
Sou a tribuna que os cupins roeram,
De onde a voz do orador se emudeceu
No tempo em que os cupins não tinham vindo.
Céus! Que conflito passo a em mim sediar!

Cresço em zelo ao ouvir nome balsâmico,
O nome de meu Mestre apenas; Desço
Se a tentação obtem consentimento.
Perdido entre o dever e o aprazível,
Cambaleio tendendo a ambos os lados.

Como um favo deserto, a esperança arfa,
Soterrada por meus receios de antes.
Tivera a ovelha o intuito de seguir
Àquele que é Pastor e fonte d’águas,
A gruta acolhedora e a sombra obesa,
NEle haveria de achar sempre a paz!…

Ele oferta repouso ao caminhante
Valendo-se de Seu colo. A amplidão
De Seu regaço abarca o mundo e o emenda.
Aplausos, vinho, páginas e ritos
Não conservam pura a alma. O esforço é vão.

Mas a Riqueza fez-se mendicante
A fim de fazer príncipes os nus;
Do diamante vieram estilhaços
E se restaurou o homem esmiuçado.
Deus punha em ação pelo Filho a Graça
– E estamos nela estando em nós o Espírito;

De sorte que em Seu corpo sendo membros
E comandados por Cristo, a Cabeça,
O rebanho dos órgãos tem seu pasto.

Consolo inexaurível chega ao crente
Quando abandona tudo e volve à cruz,
Esfaimado da carne redentora,
Sequioso do sangue remidor.

Pudera banhar-me em sangue alvejante
E ter daquela luz que o Céu envia!…
Ah! Indigno! Surdo à fé, solícito ouço
O eco intérmino desse mundo baixo.

domingo, 2 de novembro de 2008

LUANA PIOVANI: CRIADA NA "SEVERA IGREJA", COM FÉ NO "AMIGO INVISÍVEL"



Dinesh D’Souza fala de alguns cristãos que escolheram a “solução mais fácil”, a de viver “de acordo com o evangelho das duas verdades”: durante a semana, curvam-se à “verdade secular”, enquanto reservam a “verdade religiosa” para os dias de culto.[1] Para muitas pessoas no Ocidente capitalista e secularizado, é mais cômodo levarem sua vida como se acreditar ou não em Deus não fizesse a menor importância – o que o mesmo autor chama de “ateísmo prático”.[2] Isto é tão comum em nossos dias que abundam exemplos de pessoas que professam crer em Deus, enquanto vivem em desacordo com as verdades bíblicas. O caso mais recente é o da conhecida atriz Luana Piovani.
Presente nas manchetes de vários jornais e revistas, devido ao fim do turbulento noivado com o ator Dado Dolabela, Luana Piovani apareceu em uma entrevista na revista Época desta semana. A separação do casal se deu em virtude da crise de ciumeira de Dado, culminando na agressão do ator contra a ex-noiva e sua camareira. Falando sobre a desinibida atriz, que estreou o monólogo “Pássaro da Noite” (na qual ela chega a fazer topless), a matéria comenta o fato de que, sendo “adventista do sétimo dia”, Luana teria antes de se estrear na peça, falado “antes com Deus, a quem chama de seu ‘amigo invisível’”.[3]
Seria de fato Luana Piovani um membro da denominação Adventista do Sétimo Dia? Aparentemente, não mais. A bem da verdade, uma reportagem mais antiga nos fornece indícios para pensarmos que Luana havia sido adventista. Ressaltando o fato de que Luana Piovani seria uma mulher convencional em suas paixões e gostos, tendo o diferencial de assumir isso com “gana”, a revista Veja contrastava esta disposição da atriz com a infância da moça, “criada na severa Igreja Adventista do Sétimo dia”. A reportagem, publicada em 2003, trazia no subtítulo “a estrela pós-moderna”[4], referência adequada ao comportamento de Luana Piovani. O que se pode inferir é que a atriz fora adventista talvez na primeira infância. Talvez, atualmente, a moça apenas se considere “de coração” ligada à denominação.
Seja como for, o caso tipifica a realidade de inúmeros cristãos, que, embora testemunhem de sua fé nos registros do IBGE, não vivem uma prática religiosa consistente com suas afirmações. Precisamos ser vitoriosos como cristãos em todo ambiente em que nos envolvermos. Somente através de uma comunhão ininterrupta com Deus por meio da Palavra teremos condições de praticar um Cristianismo genuíno – aquele que consiste no Evangelho de uma só Verdade.

Um agradecimento especial a Felipe Lemos (do blogAlinhar à direita Realidade em Foco) e à Noribel Reis, minha esposa, ambos por colaborarem.

Leia também:

[1] Dinesh D’Souza, A verdade sobre o Cristianismo: por que a religião criada por Jesus é moderna, fascinante e inquestionável (Rio de Janeiro, RJ: Thomas Nelson Brasil, 2008), 13-14.
[2] Idem, p. 22.
[3] Ruth de Aquino, “Luana Piovani – ‘Meu ponto forte é a cabeça’”, disponível em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI16256-15295,00-LUANA+PIOVANI+MEU+PONTO+FORTE+E+A+CABECA.html, primeira parte da matéria.
[4] André Schiliró, “A estrela pós-moderna”, disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/mulher_2003/p_014.html.

sábado, 1 de novembro de 2008

CULTURA SINFÔNICA



A primeira vez que pude ouvir Wintley Phipps cantar foi durante a NET 96, a pioneira programação de evangelismo via satélite empreendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Lembro-me que a voz grave, o vibrato caprichado e a técnica exímia de Phipps causaram uma impressão favorável na minha mente adolescente. Somente anos mais tarde, já na faculdade de Teologia, pude ouvir o cantor num fita VHS (lembra-se delas?), cantando Nigro Spirituals com um conhecimento de causa. Phipps explicava que todos os Spirituals poderiam ser tocados apenas com as black notes, as notas pretas do piano; em seguida, cantava uma daquelas canções marcantes a uma seleta audiência (sentado para ouvi-lo estava, entre outros, o Pr. Mark Finley, o grande orador que dirigiu a NET 96).
O respeito em torno de Wintley Phipps no meio evangélico americano é espantoso. Ele é presença cativa em DVS produzidos por Bill Gaither – participou solando o hino It's well with my soul (Sou feliz com Jesus, HA 230) em How great thou art (2008). Os mais antigos irão se lembrar de sua participação no musical Savior, ao lado de Steve Green, Larnelle Harris, e grande elenco.
Phipps também produziu neste ano um DVD solo. Intitulado Spirituals: A Symphonic Celebration (de agora em diante SSC), mais uma vez vemos neste trabalho o intérprete voltando às origens da música negra evangélica.
Gravado em um cenário que remonta às fazendas de algodão, aonde os escravos viviam e trabalhavam, SSC conta como os antigos spirituals cumpriam a condição de tanto dar vazão às emoções reprimidas de um povo (em sorrow songs como Nobody Knows The Trouble I've Seen), como transmitir códigos com rotas de fuga para os negros (a exemplo de Steal Away, cujo refrão reza algo como: "Fuja/Fuja/Fuja para Cristo", o que vale um comentário irônico do próprio Phipps).
Sobretudo, SSC se impõe pela força do intérprete. Desde o cantor lírico Paul Robeson, não se via um cantor esbanjar tal vigor e versatilidade, aliados a técnica depurada. Wintley Phipps sabe usar sua voz aveludada, com graves nítidos e bem pronunciados, em nada a dever aos melhores baixos solistas. Assim ele introduz dramaticamente Motherless Child (que contém aquele que, para mim, é um dos versos que melhor expressa desalento na Literatura recente "Às vezes eu me sinto como uma criança sem mãe"). Surpreendentemente, Phipps alterna interpretações minimalistas e intimistas com trechos grandiloquentes, atingindo notas mais próprias a um barítono lírico.
Em alguns casos, Phipps chega a introduzir ritmos negros modernos em suas interpretações, dando, por exemplo, uma pitada de funk (não confundir com o genérico carioca) a Wade in the Water e acrescentando acordes jazzísticos a Gospel Train. No geral, porém, a orquestração mantém um razoável equilíbrio entre as raízes negras e a interpretação requintada do cantor, a qual varia entre a forma caracteristicamente negra de cantar com sua formação erudita.
Sem dúvida, entre os baixos solistas, como os legendários Duanne Hamilton e Jim MacDonald (emergentes do Heritage Singers), Phipps é que possui timbre mais macio e maior extensão vocal, o que lhe dá sobejas vantagens quanto à forma de expressar as emoções contidas nos spirituals. Sabiamente, os antigos hinos negros são aproveitados em seu plano espiritual, sem se esquecer de que eram primariamente parte de um fenômeno cultural.
No Brasil, os nigro-spirituals são conhecidos quase que exclusivamente via Wayne Hooper (o compositor de Oh, que esperança, HA 469), que fez os arranjos de dezenas daqueles cânticos ao longo de décadas, sendo que os King's Heralds gravaram originalmente as canções, posteriormente traduzidas e emuladas pelos nossos Arautos do Rei (desde 1962, com o lançamento do LP Hei de estar na Alvorada, um legítimo spiritual).

Sobretudo, SSC é uma lição de como podemos aproveitar diversas tradições culturais para somar com a cultura evangélica, o que se torna ainda mais relevante em uma época na qual os músicos cristãos apenas reproduzem e reutilizam o que a cultura de massa lhes oferece, sem que haja claros critérios de seleção ou parâmetros seguros para nortear a produção musical.

Leia mais:

Sobre a influência da música gospel negra em cantores brasileiros:

Sobre influências seculares na música evangélica:

Sobre critérios filosóficos para a música cristã:
A música sacra dentro da cosmovisão adventista: interpretando e aplicando conceitos de Ellen White (parte 1 parte 2 parte 3 parte 4)