quinta-feira, 22 de novembro de 2012

VALOR INCALCULÁVEL

DEVERIAM OS ADVENTISTAS DEPENDER DE ELLEN G. WHITE?



Antigamente, os evangélicos nos acusavam de tornar a escritora E. G. White uma espécie de papisa do movimento. Seus escritos eram denunciados pelos demais cristãos como substitutos da Bíblia. De fato, desenvolvendo-se o movimento adventista em contexto de fortes polêmicas, tornava-se mais natural evidenciar o que era o seu aspecto distintivo. Temas como a guarda do sábado, aniquilacionismo (imortalidade condicional da alma), doutrina do santuário e o dom de profecia nos últimos dias perfaziam a pauta dos adventistas de então.
Nas acirradas disputas travados no período, os pioneiros argumentavam sobre as bases bíblicas para a permanência no dom de profecia. Demonstravam sua utilidade e exemplificavam como as exigências fenomenológicas (se as pudermos chamar assim) se cumpriam plenamente em Ellen G. White. Assim, sua crença na Bíblia os levava a confiar na direção divina por meio de sua contemporânea.
Depender da pessoa de Ellen G. White é essencialmente diferente de confiar em seus escritos. Sendo o modus operandi da Inspiração o mesmo, seria ilógico acusar qualquer cristão de depender de Mateus, Marcos, Lucas, Pedro, João ou Paulo, apenas porque reconhecem como inspirados os escritos desses autores bíblicos. Não que eles como pessoas fossem infalíveis. Nem seus escritos, nem o de seus pares (como o livro de Atos) escondem os erros dos apóstolos. O fato de eles serem humanos e meros pecadores escreveram livros canônicos não depõem contra o que escreveram. Deus falou por meio deles (Hb 1:1).
O mesmo no que diz respeito aos testemunhos de Ellen G. White: ao reconhecer sua inspiração, não sancionamos todo comportamento da pessoa de sua autora, como se ela fosse perfeita - coisa que jamais pretendeu ser. Se Deus falou por intermédio dela, como fez com Isaías, Elias, João Batista, as filhas de Felipe ou Tiago, temos de estudar Sua mensagem e aplicá-la em nossa vida. Trata-se de questão de obediência a Deus, autor da Revelação.
Obviamente, separamos a vida do profeta e de sua mensagem por questões didáticas. É verdade que Deus pode usar até pessoas que não completamente fiéis para transmitir algo específico (Nm 21-24). Entrementes, ele procura pessoas que tenham um relacionamento com Ele. Assim, os profetas do passado foram reconhecidos como homens santos, servos de Deus. Não eram perfeitos, mas íntegros em sua devoção e serviço.
Com o singrar dos anos, os próprios adventistas absorvem muitas das críticas a eles dirigidas. Se vivemos em período de cegueira histórica no ocidente, de forma específica, não fugimos à regra. Em parte, o questionamento sobre a relação de Ellen G. White com a doutrina da igreja ou mesmo com a Bíblia em geral esbarra na resistência de muitos adventistas contemporâneos. A razão? Eles pensam mais como evangélicos, do que como os pioneiros.
É bem verdade que existe outro extremo, ou qual se vale de uma leitura fanática e unilateral de Ellen G. White, torcendo o sentido de seus escritos. Nada de novo: afinal, leituras distorcidas da própria Bíblia são encontradas até no período apostólico (2 Pe 3:15-16)! Mas até isso parece cada vez mais raro: tornou-se mais frequente quem rejeite ou limite os escritos da autora. O equilíbrio na compreensão do material revelado (tanto das Escrituras, quanto dos testemunhos) ainda é um desafio para o adventismo no século XXI.

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terça-feira, 20 de novembro de 2012

CONTEXTUALIZAÇÃO: UMA VIA DE MÃO DUPLA




Contextualizar é a palavra de ordem. O pós-modernismo é um desafio para a igreja? A Geração Y precisa de maior interatividade nos cultos? O Ocidente vive profunda transformações e hoje a sociedade se caracteriza como pós-cristã? Ora, a solução para todas as mazelas do evangelismo cabe em uma palavra: contextualização.
A contextualização seria tudo isso ou estamos atribuindo poderes mágicos a ela? É fato que ninguém ouve a mensagem do evangelho se não lhe for relevante? A relevância, segundo nos explicam, implica em traduzir o evangelho em termos significativos para determinado cultura. A transmissão do evangelho não ocorre no vácuo, porque seus ouvintes possuem culturas peculiares.
Por isso, é esperado que o missionário, esteja ele nas Ilhas do Pacífico ou em no contexto das grandes metrópoles ocidentais, compreenda a cultura das pessoas as quais pretende evangelizar, o que exige versatilidade, desprendimento e tolerância extremos. Ele precisa, antes de ser um bom pregador, aprender a agir como ouvinte. 
Falando especificamente do contexto atual, o mundo ocidental não é mais o quintal da paródia – está mais para o mar que cerca a ilha chamada igreja. Abordar as pessoas como se fazia a algumas décadas é frustrante. Não porque elas estejam menos interessadas em Deus, mas porque perdemos a capacidade de nos comunicar em termos que sejam compreensíveis. Assim, a contextualização seria crucial para que o evangelho alcançasse as pessoas.
A eloquência dos promotores da contextualização é inegável e é forçoso admitir que muito do que dizem seja coerente. Todavia, é óbvio que a mensagem do evangelho impõe limites a estratégias de aproximação com pessoas de outras culturas (ou mesmo os secularizados em nossa cultura); afinal, determinados costumes, embora aceitáveis em uma cultura, estariam contradizendo princípios bíblicos. Todo missionário, embora necessite se adaptar à cultura, não busca adotá-la em todos os seus aspectos. Nem poderia. Um pastor missionário na Albânia relatou que é costume naquele país as famílias distribuírem charutos caseiros aos visitantes. Nesse caso, oferecer fumo passa a mensagem de acolhimento e hospitalidade na cultura albanesa. Entretanto, fere o princípio de que o corpo é templo do Espírito Santo (1Co 10:25). Por constrangedor que fosse, o missionário cristão deveria gentilmente se recusar a aceitar a oferenda.
A apresentação do evangelho a qualquer cultura deve ser completa, a fim de que os indivíduos inseridos nela encontrem como expressar e viver as verdades aprendidas no ambiente de sua própria cultura. Desde Atos 15, a igreja cristã entendeu que não se faz necessário que o indivíduo migre de sua cultura para outra, com o objetivo de ser cristão. Aliás, tanto os judeus quanto os gentios passavam – e ainda passam –, a partir de sua conversão, a viver com uma cultura matriz (aquela de origem) e uma nova cultura, por assim dizer, que é a cristã.
O cristianismo está além da cultura judia, ou mesmo de qualquer outra. Em muitos lugares, ser cristão é ser ocidental. Até hoje paira sobre os missionários do passado a acusação de transmitir sua própria cultura enquanto pregavam o evangelho às pessoas. Desconfio que não seja exatamente o cristianismo que seja identificado como algo ocidental, mas as incoerências dos cristãos.
Pelo menos, assim reagem os muçulmanos diante da imoralidade, vida desregrada e consumo de bebidas alcoólicas por parte dos cristãos ocidentais. Em contrapartida, amigos que trabalham como missionários em países muçulmanos destacam que eles acabam se mostrando perplexos quando descobrem que eles, sendo adventistas e seguidores de Jesus, não fumam, bebem, comem carne de porco e se mantém virgens até o casamento.
O evangelho transformador apela a todas as culturas, não porque facilmente se adapte a elas, ao contrário: porque ela soa diferente de tudo o que se conhece. Ele desafia todas as culturas, mostrando vidas diferentes como resultado. Isso não significa que, quando aceitamos o evangelho, nossa cultura matriz é descartada de todo. Porém, o cristão agora vive de forma agradável a Deus, sublimando aspectos culturais contrários ao evangelho. Sua cultura matriz é transformada. Ele deixa de orientar pela cultura para se seguir exclusivamente aquilo que a Palavra Revelada lhe orienta a fazer, pensar, comer, sentir, expressar, cantar, viver. E é impossível isso não ser diferente para alguém que viva em Xangai, Buenos Aires, Paris, São Paulo ou qualquer parte do mundo!
Aqui está toda a questão crucial: entender o tipo bíblico de contextualização. Pouco proveito há em conceber a contextualização como mera adequação da igreja à cultura vigente ou mesmo à qualquer subcultura que se pretenda evangelizar; quando isso ocorre, não se pode falar em contextualização, mas em aculturamento. Ironicamente, denominações e movimentos que se aculturaram, pretendendo alcançar a relevância, se tornaram irrelevantes, sem poder para influenciar a cultura, posto que se tornaram parte dela.
Por outro lado, a contextualização genuína não altera a essência do cristianismo, apenas sua abordagem; ela atua evangelisticamente como um sentimento de levar o evangelho às pessoas onde se encontram, sabendo que isso será significativo porque o evangelho é uma necessidade profundamente arraigada no homem – embora não essa necessidade universal não seja universalmente reconhecida. Daí a necessidade do testemunho, que desperta no pecador (mendigo ou empresário, xintoísta ou ateu) o reconhecimento da necessidade do Salvador.
A contextualização se torna, desse modo, um processo de mão dupla: a igreja se adapta às pessoas, que se adaptam às ordenanças de Cristo. Como a igreja se adapta? Indo buscar essas pessoas dentro de suas realidades, tentando entender suas necessidades e oferecendo-lhes suporte e amizade desinteresseira. Esse tipo de contextualização exige, mais do que treinamento, coração; mais do que estratégia, consagração; mais do que leitura do ambiente, compaixão. Contextualização com discernimento: uma necessidade de todos os cristãos, em todas as épocas, para levar o evangelho a todos aqueles que precisam, em todas as épocas.
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JESUS, UM SONHO; A IGREJA, UM PESADELO!


"Jesus é um sonho de pessoa. A igreja, um pesadelo de lugar. Não me importaria de estar onde Jesus me levasse, desde que esse lugar não fosse Sua igreja. Afinal, Jesus é o Libertador e a igreja, um presídio. Ele trouxe a verdade aos homens, enquanto a igreja subverteu Sua mensagem e a transformou em um discurso cheio de hipocrisia e fanatismo. Seguir a Jesus é amá-lo no coração. E isso não tem relação com seguir as regras arbitrárias e injustas que a igreja inventou."
Esse discurso povoa a maioria das mentes. A resistência à vida em uma comunidade de fé é desafiadora. Muitos cristãos hoje são crentes sem igreja - não aguentam mais a sufocante experiência de viver com outros cristãos controladores e preconceituosos. Há outros que jamais se imaginaram vivenciando tal convívio. Afinal, qual o problema da igreja?
Obviamente, a igreja não é o lugar perfeito. Lugares perfeitos na Bíblia recebem nomenclatura diversa: Éden, Nova Jerusalém, Nova Terra, etc. Contudo, a igreja é o ideal, o plano divino para aperfeiçoar homens e mulheres. A igreja é o berçário do novo homem, renascido em Cristo Jesus.
E por que a igreja incomoda a tantos? Talvez por ser diferente do que eles imaginam. Diferente até deles mesmos, com suas opiniões, hábitos e disposições peculiares. A igreja desagrada porque desenvolve e requer maturidade - processo sempre doloroso, ainda mais quando se trata de maturidade espiritual.
Especialmente em tempos nos quais toda autoridade levanta suspeitas (infundadas ou não), a autoridade da igreja é questionada. Empurre qualquer árvore e dela cairão dez advogados da espiritualidade livre, sem rédeas. Infelizmente, para eles e seus pares, a igreja possui um norte moral bem definido. Possui crenças milenares. Defende verdades em um mundo que assiste o desfile delas com expressão de tédio, de quem já viu o filme antes.
A igreja se tornou o pesadelo de crentes que tanto não sabem no que creem, quanto o porquê creem. Crentes de nomeada. Qualquer exposição clara sobre assuntos pertubadoramente controversos, como estilos de música apropriados à adoração, o dever perene de dizimar, a noção bíblica do corpo como templo do Espírito Santo ou uso de joias e adornos torce bocas e dispara uma série de comentários descabidos, de gente que opina sem recorrer à Bíblia ou, quando o faz, age de forma a ignorar os princípios hermenêuticos mais elementares. Triste assim. Para pessoas que se acostumaram ao comodismo espiritual para manter seu status quo de Laodiceia, a igreja não poderia deixar de ser o pior pesadelo!

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domingo, 18 de novembro de 2012

OS ADVENTISTAS QUE QUERIAM SER APENAS EVANGÉLICOS


Houve um debate necessário dentro do adventismo, o qual consistia em perguntar qual era a relação do movimento com as demais igrejas evangélicas. Corria a década de 1950s. Talvez o esforço exagerado em aproximar adventistas de evangélicos tenha rendido frutos negativos de lá para cá. A bem da verdade, temos de compreender o termo evangélico antes de um juízo de valores.

O evangelho é a boa nova de Jesus, que consiste em compreender fatos históricos associados com a obra salvadora do Deus-homem e seus decorrentes benefícios. Evangélico não é apenas quem diz crer nesse conjunto de verdades: torna-se um termo mais amplo, quando pensamos na gama de tendências abrigadas sob sua nomenclatura: protestantes históricos - quer calvinistas ou arminianos, luteranos ou episcopais - e pentecostais - de todas as ondas, com diferentes ênfases, como glossolalia, exorcismo ou teologia da prosperidade e confissão positiva. O leque de opções oferecido pelo vocábulo "evangélico" é de tal amplitude que confunde mesmo...

Com o  fundamentalismo cristão unindo denominações divergentes em causas comuns, a atuação do movimento das mega-igrejas e, mais recentemente, com o movimento da igreja emergente (cristãos pós-modernos), os evangélicos estão mais unidos e próximos do que antes. Para além de confissões, placas de igreja e lideranças beligerantes, ser evangélico é um conceito monolítico. A razão para isso: hoje os evangélicos estão mais unidos em torno do louvorzão, dos shows gospel e de uma experiência religiosa altamente emocional do que em torno de coisas como doutrinas, esforços evangelísticos e posições morais claras. Antes, os evangélicos batiam de porta em porta para convidar para seus cultos. Hoje, eles vão ao festival talento da Globo ou aparecem nos telejornais organizando efusivas edições da Marcha para Jesus.

Muitos adventistas queriam abrir mão de suas doutrinas, diagramas proféticos e cultos onde se estuda a Bíblia para adotarem o entusiasmo dos carismáticos e os acordes dos mega-shows evangélicos. A grama da congregação ao lado parece mais verde. Os métodos dos líderes que enchem suas igrejas encantam pastores adventistas. Participar de Homecoming de Bill Gaither é o sonho dos cantores adventistas "das antigas" - os mais novos adorariam excursionar com Hill Song ou viver de worships...


Hoje, para muitos parece uma atitude "fechada" manter nossa identidade de movimento com cara de século XIX em plena época de internet e consumismo. Querem reforma. Não revivamento e reforma - mas uma espécie de reforma que torne o adventismo o que os evangélicos, grosso modo, estão se tornando - um movimento que se preocupou tanto em se contextualizar que se aculturou.

Confesso meu temor com esse desejo, principalmente porque, como se diz, o que se quer pode se tornar realidade. Infelizmente, esse parece ser o rumo - a despeito disso, há um Deus trabalhando com Seu Espírito entre nós. Que Ele tenha misericórdia de Seu povo. Que Ele nos guie à Verdade (Jo 17:17). E antes que as coisas piorem...

sábado, 17 de novembro de 2012

RELIGIÃO, JOVENS E SENTIMENTALISMO


"Há muito deste sentimentalismo baixo misturado com a experiência religiosa dos jovens nessa época do mundo."

Ellen G. White, Testemonies for Church (Nampa, Idaho; Oshawa, Ontario, Canada: Pacif Press Association, s/d), vol. 2, p. 251. Originalmente: "There is much of this low sentimentalism mingle with the religious experience of the young in this age of the world."

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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

5 RAZÕES PARA REJEITAR OS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE


Os adventistas acreditam na permanência dos dons espirituais (1 Co 12:4-7; 13:8-10) e compreendem que o dom de profecia é vigente entre o povo de Deus (1 Co 13:8; 14:5; Jl 2:28), constituindo-se um poderoso instrumento orientador. Reconhecem ainda que Ellen G. White (doravante, EGW), uma das pioneiras e mentoras do movimento, recebeu o dom de profecia, empregado ao longo de seu ministério de praticamente 70 anos. Uma análise do que EGW escreveu com os ensinamentos bíblicos revelaria a harmonia entre eles e sua coerência.
Entrementes, desde sua própria época até à contemporaneidade, EGW sofre críticas das mais diversas. Mesmo entre os professos adventistas, há aqueles que, velada ou abertamente, por ignorância ou decisão racional (ista), têm encontrado dificuldades de crer em seus escritos. Nesse espaço, refletiremos sobre algumas das motivações para isso. 
Possivelmente, existiriam tantas motivações quanto há críticas. Para facilitar nossa reflexão, condensamos e categorizamos os fatores que levam à descrença e apresentamos algumas podenderações. Cremos que mesmo os não-adventistas, quer simpatizantes com o movimento ou seus ardorosos opositores, poderão se beneficiar dessas reflexões, uma vez que se encontram em posição distante o suficiente para avaliar os argumentos e tirar suas conclusões.
Benefício maior terão os adventistas que, caso concordem com a posição oficial da denominação, poderão (1) reconhecer as dificuldades de seus companheiros de jornada, (2) analisar os riscos que sua fé corre e (3) encontrar argumentos para continuar crendo; caso se sintam inclinados a descrer da autoridade profética de Ellen White, terão oportunidade de (1) reconhecer suas dúvidas, (2) refletir sobre suas motivações para descrer e (3) honestamente tomar um posicionamento claro, em face da natureza do adventismo (falaremos sobre esse ponto adiante).
Como esse texto é um ensaio popular e não um trabalho acadêmico, tomamos algumas liberdades. Uma delas, visível desde as primeiras linhas, é a abordagem despojada, o que facilitará um maior número de leitores a que tenham acesso à argumentação. Visamos a apresentação do assunto em linhas gerais, sem gastar tempo com detalhes técnicos, que podem ser encontrados em muitos recentes trabalhos de pesquisa. Ao mesmo tempo, optamos por uma linguagem mais amena, para que ninguém se sinta ofendido, embora, em alguns momentos, a veemência na defesa de alguns pontos seja requerida. Mas nunca o fazemos para magoar ou causar polêmica per si. Sinceramente, objetivamos apresentar a "fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Jd 3) e admoestar àqueles que estejam ensinando "outra doutrina", sempre com "com consciência boa, e de fé, sem hipocrisia" (1 Tm 1:3,5).
Feitas as considerações preliminares, passo à apresentação dos motivos mais frequentes para a rejeição dos escritos de EGW entre os adventistas:
1. Os escritos de EGW representam apenas a “luz menor”; devemos manter nossa fé na Bíblia: Os adventistas liberais na década de 1970s (e antes), apegaram-se à declaração da autora para justificar um rebaixamento de seus escritos, como se eles fossem inspirados em grau menor, em relação à Bíblia. Outro caso famoso: para justificar a disparidade de suas próprias opiniões com as de EGW, o teólogo adventista Desdemond Ford argumentou que ela teria apenas autoridade pastoral. De fato, seria correto conceber que EGW recebeu inspiração menor se comparada a dos profetas bíblicos? É precária a argumentação, porque teríamos de admitir que a Inspiração é um fenômeno gradual, coisa estranha à Bíblia (2 Tm 3:15; note a expressão: "Toda escritura é inspirada", afirmando que os escritos inspirados são de mesma natureza, a despeito de seus enfoques e gêneros literários distintos). Os autores bíblicos sempre se consideraram inspirados, porque reconheciam a atuação do Espírito em suas mentes, embora não explecitem ou detalhem o modus operandi do fenômeno. Há escritos inspirados ou não inspirados; nada como mais ou menos inspirados. A expressão "luz menor" vem sendo entendida pela maioria dos teólogos adventistas em seu aspecto funcional: assim, a luz menor possuiria aplicação mais restrita, ou seja, esclarecer, demonstrar e aplicar conceitos mais gerais, encontrados na "luz maior", a Bíblia. Ainda assim,  na prática, quando alguns alegam pejorativamente que os escritos de EGW são apenas a "luz menor", pressupõem um conflito insuperável entre eles e as Escrituras, ou pelo menos, a sua maneira de compreendê-las;
2. Os escritos de EGW contradizem a Bíblia, apresentando detalhes ausentes do texto sagrado: Na década de 1990s, Steven Daily escreveu sobre como deveria ser o adventismo voltado para a próxima geração. Um dos pontos sensíveis é resolver as tensões entre a Bíblia e os escritos de EGW decidindo-se por ficar sempre ao lado do primeiro livro. Para Daily as tensões não apenas são reais, mas insolúveis. Portanto, resta-nos descartar qualquer coisa proveniente da autora da qual se suspeite (mesmo que minimamente) contradizer a Bíblia. Porém, a proposta ignora que se dois tipos de escrito, admitidamente inspirados, mostram-se contraditórios, então ou a própria inspiração é questionável ou, ao menos, um deles não poderia ser considerado inspirado. Nesse sentido, vale o conselho de Paulo em 1 Ts 5:19-21, sobre avaliar as profecias, que alguns tomam desavisadamente como se o cristão devesse experimentar de tudo e "reter o que é bom". O contexto limita o exame à manifestações proféticas, que devem ser avaliadas conforme sua conformidade total às demais escrituras. Cf.: Is 8:19-20, 1 Jo4:1. Tudo indica que Daily já fez a escolha dele em favor da última opção. Claro que se trata de um falso dilema contrapor os testemunhos às Escrituras. Mesmo porque, se EGW repetisse exatamente as mesmas orientações encontradas na Bíblia, não precisaríamos em absoluto do que ela escreveu! A Verdade é progressiva (2 Pe 1:19). Em seu discurso profético (Mt 24), Jesus tomou vários pontos dos escritos de Daniel e outros profetas vétero-testamentários. Por seu turno, Paulo reelaborou os conceitos do discurso de Cristo e ainda encontramos ampliações dele no livro de Apocalipse. É natural que o profeta posterior expanda seus antecessores. O próprio Jesus criticou a prática de valorizar profetas passados em detrimento dos contemporâneos (Mt 23:29-30), ao passo que cada  profeta é o teste para a devoção obediente de sua geração (v. 34-35). Em parte, essa confusão se estabelece devido a falsos conceitos relacionados às influências da cultura sobre os escritos de EGW;
3. Os escritos de EGW representam a visão particular da autora, uma senhora vitoriana que viveu num contexto de evangelicalismo tradicional: a compreensão do contexto cultural em que viveu determinado profeta sempre é útil para compreensão de sua mensagem. Infelizmente, a Alta Crítica dos séculos XVIII e XIX eliminou o fator sobrenatural da Inspiração, creditando a matéria bíblica apenas ao elemento humano. As Escrituras deixaram de ser a Palavra inspirada por Deus para se tornar a palavra de homens místicos. Não se tratava do que Deus dizia, mas do que diziam acerca dEle. O método histórico-crítico, com seus pressupostos naturalistas, ainda sobrevive e, infelizmente, influencia teólogos adventistas, que o adotam integralmente ou de forma adaptada. Como não poderia deixar de ser, a consequência natural é estender essa compreensão aos escritos de EGW, limitando-os ao seu próprio cercado histórico bem delimitado. Quando se parte dessas pressuposições, tanto a Bíblia quanto os testemunhos têm pouco a dizer para o homem do século XXI. Pode-se extrair um princípio aqui ou acolá, mas a maioria das diretrizes estariam "contaminadas" por uma cultura tão distante da nossa que seria ilógico adotá-la por meio de seus princípios. Daí teríamos espaço (na melhor das hipóteses) para o existencialismo cristão, o qual talvez ecoe na abordagem meramente devocional dada aos escritos de EGW, ou na conclusão de que o que ela escreveu não passe de "conselhos", nada que chegue a ser normativo. Obviamente, não há fundamento bíblico para limitar um escrito inspirado à sua cultura. Não estamos negando a influência cultural sobre indivíduos. Mesmo Deus Se sujeitou em diversas ocasiões à cultura humana, como quando Se revelou aos profetos judeus ou encarnou na Palestina do I século. Porém, Deus é um Ser real, e de uma realidade que transcende a cultura. Sua revelação, embora se expresse dentro de culturas particulares, é fruto da obra do Espírito Santo, que de fato falou a indivíduos em dado tempo e espaço (1 Pe 2:20-21). Em conexão com a prática de datar os escritos de EGW, está a acusação de que eles representam um estágio anterior do evangelicalismo, marcado por legalismo e severidade;
4. Os escritos de EGW representam um cristianismo legalista: As normas de conduta, vestuário, namoro, alimentação e vida cristã encontradas na pena de EGW parecem severas, exageradas e antiquadas. Como sustentá-las? Algumas até parecem suficientemente constrangedoras para admití-las em público! Ainda assim, por seu compromisso com doutrinas bíblicas, tais quais a observância dos dez mandamentos e o respeito às leis dietéticas, os adventistas são taxados naturalmente de legalistas pelos evangélicos em geral. Seriam, então, as Escrituras, fonte de legalismo? Em verdade, temos de entender que o liberalismo teológico e a própria liberdade irrestrita advogada pela pós-modernidade favorecem o entendimento de que o indivíduo deve criar suas próprias regras. Quaisquer normas para além disso seriam absurdas - mesmo as que Deus tenha a transmitir. Temos de nos lembrar que mesmo o apóstolo Paulo, o autor do NT que mais lutou contra práticas legalistas, defendeu que os cristãos foram salvos para as "boas obras" (Ef 2:8-10), investindo praticamente em cada fim das epístolas que escrevia sobre necessidade de observar normas específicas de conduta, chegando ao ponto de dizer o que deveria ocupar nosso pensamento (Fl 4:8)! Para justificar a rejeição de porções específicas dos escritos de EGW, muitos adventistas alegam que seriam seções não inspiradas, fruto ou de plágio de autores de sua época ou mesmo de interpolações e acréscimos feitos pelos editores e depositários de seus escritos;
5. Os escritos de EGW são resultado de plágio e constantes adulterações por parte dos depositários de seu patrimônio literário: Desde a publicação de The White Lie, de Walter Rea, acusações ad hominem se multiplicam contra EGW, principalmente a de plagiadora. Possivelmente, D.M. Canright, o primeiro grande apóstata do adventismo, seja o autor dessa acusação, que se sofisticou ao longo do tempo. De fato, EGW recorre a expressões e material de autores de sua época. Isso diminuiria a inspiração de seus escritos? É mister lembrarmos que até os autores bíblicos recorrem a citações de escritores de sua época: Paulo cita o poeta Arato, em sua obra Os fenômenos (At 17:28) e Judas cita o livro apócrifo de Enoque (Jd 14-15). A Inspiração pode selecionar materiais e usá-los conforme seus propósitos. Lucas mesmo admite ter escrito seu evangelho não por meio de visões ou aparições de anjos, porém baseado em "acurada investigação", entrevistando "testemunhas oculares" - nem por isso, admitir-se-ia que seu evangelho fosse menos inspirado! Quanto às acusações contra os depositários, os documentos do patrimônio EGW estão abertos à consulta e atualmente, quanta coisa digitalizada, fica mais fácil para qualquer pessoa averiguar os escritos originais. Geralmente, quem se sente contrariado pela Revelação, costuma reagir acusando adulteração dos originais, semelhante à senhora anti-trinariana que encontrei que acusava os tradutores da Bíblia de torcerem o texto de Mt 28:18-20 (ainda que não haja vairantes textuais do texto e todos os manuscritos suportem a tradução encontrada em nossas versões bíblicas atuais).
Diante de tudo o que expusemos, resta uma decisão. Ou descrermos ou crermos. Evidente que isso tem de ser ponderado e, com espírito de oração, a pessoa sentir que Deus a guia em uma decisão racional. Não é por coincidência que muitas críticas feitas aos escritos de EGW possam ser voltadas contra as Escrituras e vice-versa. A natureza da Revelação é uma só. Se eu encontrasse motivos para descrer da EGW, teria de agir de forma lógica e coerente, rejeitando igualmente a matéria bíblica. Entretanto, Deus tem me conduzido à aceitação de tudo o que Ele inspirou e revelou. Acredito ainda que ser adventista sem aceitar a autoridade profética de EGW em questões como adoração, alimentação, conduta pessoal ou qualquer área da vida cristã é não ser autenticamente adventista. Melhor seria adotar outra confissão cristã. Sei que se trata de uma decisão particular. Porém há um efeito dominó: quem rejeita os escritos de EGW, logo passará a descrer de outros aspectos da fé adventista (o juízo pré-advento se iniciando em 1844, o sábado, a reforma de saúde, etc). Até que ponto seria possível ser adventista sem crer nessas coisas? 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O ESTUDO


Estudar a Palavra divina pela manhã, a cada manhã, abre a fome pelo entendimento dos planos que Ele revelará ao longo do dia. Estudar: não ler por compulsão, culpa ou sentimento de obrigatoriedade. Estudar como alguém que se enamora a cada linha de carta que lhe escreveu um amor distante. Estudar com a fé pequenina, como um grão de mostarda. Mas também estudar com cérebro e objetividade, com método e minuciosamente. Estudar sempre, anotando, resenhando, orando e praticando.

O estudo da Palavra divina é a ferramenta que, nas mãos do Espírito, transforma a percepção, a cultura, os hábitos e gostos. Estudar é viver de forma menos indiferente, arrogante e egoísta. É se abrir para Deus e o próximo. Ligar-se com o Céu na missão de salvar. É conhecer o Outro tal qual Ele afirma ser, sem espaço para especulação doentia e ínfima do homem. O Outro é sempre maior, maior até do que poderia ser dito, não por sua limitação em dizer, mas pela nossa em compreender.

A Palavra divina: alvo do estudo com fé, devoção, inteligência e amor. Sobretudo, amor.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

DEUS E O PROCURADOR

Volte e meia, tudo indica, o procurador Jefferson Aparecido Dias, do Ministério Público Federal, fica com síndrome de abstinência dos holofotes e decide, então, inventar uma causa para virar notícia. Aprendeu, com a experiência, que dar uns cascudos em Deus — nada menos — ou na fé de mais de 90% dos brasileiros, que são cristãos, rende-lhe bons dividendos. Eventualmente ele pode juntar o combate à religião a alguma outra causa politicamente correta (já chego lá), e aí tem barulho garantido. E, por óbvio, granjeia o apoio de amplos setores da imprensa, que podem até admirar o lulo-petismo, mas acham que religião é mesmo um atraso… Acham legítima a fé num demiurgo mixuruca, mas não em Deus. Entendo. É uma questão de padrão intelectual.
A mais nova e essencial decisão deste senhor, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, de São Paulo, foi entrar com uma ação civil pública para retirar das notas do real a expressão “Deus seja louvado”. É o mesmo rapaz que de mobilizou para caçar e cassar todos os crucifixos de prédios públicos, lembram-se? Também foi ele que tentou, sem sucesso, levar o pastor Silas Malafaia às barras dos tribunais quando este protestou contra o uso de santos católicos em situações homoeróticas numa parada gay. Referindo-se a ações na Justiça, o pastor afirmou que a Igreja Católica deveria “baixar o porrete” e “entrar de pau” nos organizadores do evento. O contexto deixava claríssimo que se referia a ações na Justiça. O procurador, no entanto, decidiu acusar o religioso de incitamento à violência. Era tal o ridículo da assertiva que a ação foi simplesmente extinta. Eis Jefferson Aparecido Dias! Eu o imagino levando os recortes de jornal para as tias: “Este sou eu…”
Jefferson é um homem destemido. Não tem receio de demonstrar a sua brutal e profunda ignorância. É do tipo que diz bobagens de peito aberto. Depois de gastar dinheiro dos contribuintes com a questão do crucifixo e com a tentativa de ação contra Malafaia, ele agora se volta para as notas do real. E justifica a sua ação com esta boçalidade intelectual:“A manutenção da expressão ‘Deus seja louvado’ [...] configura uma predileção pelas religiões adoradoras de Deus como divindade suprema, fato que, sem dúvida, impede a coexistência em condições igualitárias de todas as religiões cultuadas em solo brasileiro (…). Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: ‘Alá seja louvado’, ‘Buda seja louvado’, ‘Salve Oxóssi’, ‘Salve Lord Ganesha’, ‘Deus não existe’. Com certeza haveria agitação na sociedade brasileira em razão do constrangimento sofrido pelos cidadãos crentes em Deus”.
Como se nota, trata-se de uma ignorância cultivada com esmero, com dedicação, com afeto até. Jefferson é do tipo que ama as tolices que diz, o que é demonstrado pelo recurso da enumeração. Trata-se, assim, para ficar no clima destes dias, de uma espécie de continuidade delitiva do argumento.
Vamos ver.
O procurador é o tipo de temperamento que gosta de propor remédios para males que não existem, o que é próprio de certas mentalidades autoritárias. Em que a expressão “Deus seja louvado” impede “a coexistência em condições igualitárias” de todas as religiões? Cadê os confrontos? Onde estão os enfrentamentos? Apontem-me as situações em que as demais religiões, em razão dessa expressão, passaram por um processo de intimidação. Em tempo: Alá é Deus, doutor! Vá estudar!
Não sei que idade tem este senhor, mas sei, com certeza, que ele se formou na era em que o “princípio da igualdade” tem de se sobrepor a qualquer outro, mesmo ao princípio da realidade e da verdade. Ora, “Deus” — sim, o cristão! — tem, para as esmagadora maioria dos brasileiros, uma importância cultural, moral, ética e religiosa que aqueles outros símbolos religiosos não têm. Todos os brasileiros são iguais no direito de expressar a sua fé — e isso está assegurado pelo Inciso VI do Artigo 5º da Constituição, a saber:“VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”
Ocorre, doutor Jefferson, que a mesma Constituição que garante essa liberdade — e que assegura a liberdade de expressão, aquela que o senhor tentou cassar do pastor Malafaia — também tem o seguinte preâmbulo:
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos,
sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
Como é que o doutor Jefferson tem o topete de evocar uma Constituição promulgada “sob a proteção de Deus” para banir das notas do real a expressão “Deus seja louvado”, sustentando que ela “impede a coexistência em condições igualitárias de todas as religiões”? Doutor Jefferson é macho o bastante (em sentido figurado, claro, como o emprega o povo) para dar início a um movimento para cassar Deus da Constituição? Ou, acovardado, ele se limita a perseguir crucifixos em repartições públicas e a expressão genérica da fé em cédulas de dinheiro?
A Constituição que tem “Deus” em seu preâmbulo persegue ou protege os crentes em Oxóssi?
A Constituição que tem “Deus” em seu preâmbulo persegue ou protege os crentes em Lord Ganesha?
A Constituição que tem “Deus” em seu preâmbulo persegue ou protege os ateus?
O nome disso é intolerância. Esse mesmo procurador já tentou processar um outro pastor evangélicos que atacou o ateísmo — ainda que o tenha feito em termos impróprios. Já me ocupei de doutor Jefferson neste blog algumas vezes no passado. Quase invariavelmente, ele comparece ao noticiário tratando de questões dessa natureza, o que, fica evidente, caracteriza uma militância. O que me pergunto é se este senhor, ele sim!, por ser eventualmente ateu (e é um direito seu), não tenta usar uma posição de autoridade que conquistou no estado brasileiro para impor a sua convicção.
Maiorias, minorais e respeitoNas democracias, prevalece a vontade da maioria na escolha dos mandatários e, frequentemente, no conteúdo das leis. Elas também se fazem presentes nos costumes e nos valores. Mas o regime só será democrático se os direitos das minorias forem garantidos. Haver na cédula do real a expressão “Deus seja louvado” significa, sim, que este é um país em que a esmagadora maioria acredita em Deus, mas não caracteriza, de modo nenhum, supressão dos direitos daqueles que não acreditam em Deus nenhum, que acreditam em vários deuses ou que simplesmente acham a religião uma perda de tempo. Em sociedade, a afirmação positiva de um valor não implica, necessariamente, a cassação da expressão de quem pensa de modo diferente.
Ora, seria mesmo um despropósito, meu senhor, que houvesse, no Brasil, com a história e com o povo que tem, algo como “Lord Ganescha seja louvado” ou “Oxóssi seja louvado” pela simples e óbvia razão de que essas, quando considerada a sociedade brasileira no seu conjunto, são crenças de exceção, que traduzem escolhas e convicções da minoria do povo. O Brasil é uma nação de maioria cristã, o que o doutor não conseguirá mudar. O que se exige é que essa nação resguarde os direitos de quem quer cultuar outras divindades e deuses ou deus nenhum. E isso está garantido pela Constituição Brasileira, promulgada “sob a proteção de Deus”.
Finalmente, o argumento de que o estado é laico — e, felizmente, é mesmo! — não deve servir de pretexto para que se persigam as religiões. Um estado laico não significa um estado ateu, que estivesse empenhado em combater as religiões. A sua laicidade é afirmativa, não negativa; ela assegura a livre expressão da religiosidade, em vez de reprimir a todos igualmente. Entendeu a diferença, doutor?
Sei que a questão parece menor, quase irrelevante. Mas não é, não! Essa é apenas uma das vezes em que supostos iluministas, falando em nome da razão, tentam impor uma espécie de censura da neutralidade ao conjunto da sociedade. Pretendem que escolhas com viés ideológico sejam apenas as alheias, a de seus adversários. Promovem permanentemente uma espécie de guerra cultural contra os valores da maioria para poder acusá-la de autoritária.
Como sabemos, a cada vez que os ingleses cantam “God save our gracious Queen” e se ouve o eco lá naquele “novo continente” — “And this be our motto: ‘In God is our trust’” —, o que se tem é a voz da ditadura cristã dominando o mundo, não é mesmo?
Deveria haver um limite para o ridículo, mas não há! Parece que o que falta ao procurador é serviço!


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PARA FORTALECER O INTELECTO



"Nada há mais apropriado para fortalecer o intelecto do que o estudo das Escrituras. Nenhum outro livro é tão poderoso para elevar os pensamentos, para dar vigor às faculdades, como as amplas e enobrecedoras verdades da Bíblia. Se a Palavra de Deus fosse estudada como devera ser, os homens teriam uma largueza de espírito, uma nobreza de caráter e firmeza de propósito que raro se vêem nesses tempos."

Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 90.

LENNOX VS. DAWKINS LEGENDADO

domingo, 11 de novembro de 2012

A UNIVERSIDADE NO SÉCULO XXI


Texto que publiquei em um fórum (requisito de pós-graduação)

Quando pensamos em pós-modernidade, temos de encarar mudanças epistemológicas e éticas, como explicitou Bauman (O mal estar na pós-modernidade). A relativização do conhecimento e consequente desconfiança em relação à sua construção (Foucault via em cada versão da história o relato dos vencedores) parecem contribuir com o debate contemporâneo sobre a importância e veracidade do conhecimento.

Esse sitz-in-libem afeta a universade, instituição tradicionalmente tida como formadora do conhecimento científico e digna de respeitabilidade. Talvez seja correto afirmar que a universidade não deva pretender um conhecimento absoluto e inquestionável, meta impossível, ou mesmo que a neutralidade acadêmica, posto que desde Kant e sua weltanschauung, ninguém mais pode acreditar em neutralidade!

A universidade no século XXI assume um caráter de pluridiversidade, abrindo espaço para a convivência de diversas visões acadêmicas. Allan Bloom, em seu clássico The closing of American Mind, protestou contra essa visão, que, a despeito de sua erudição, prosperou. Claro que o relativismo pós-moderno é nociso ao espírito da universidade. Entrementes, pode-se comportar uma visão menos racionalista do conhecimento, como assistimos no século XX. 

Tem de haver constante busca de excelência acadêmica, que retorne como benefício comunitário. A busca pelo conhecimento não pode ser um fenômeno circular, um fim em si mesma.

O questionamento maduro e o engajamento social não precisam se divorciar da prática acadêmica, porque a ciência não é desvinculada da realidade de quem a constroi; ao contrario, é legitimada por ela e a  legitima. Mais do que diplomas e títulos, é mister que a universidade desenvolva o homem integralmente, porque esse é o verdadeiro objetivo da educação.

Sem dúvida, em seu contexto atual, a universidade deve prover um diálogo com a sociedade que se paute pela solidificação da cidadania solidária e, ao mesmo tempo, uma constante busca de excelência acadêmica, que retorne como benefício comunitário. A busca pelo conhecimento não pode ser um fenômeno circular, um fim em si mesma.

O questionamento maduro e o engajamento social não precisam se divorciar da prática acadêmica, porque a ciência não é desvinculada da realidade de quem a constroi; ao contrario, é legitimada por ela e a  legitima. Mais do que diplomas e títulos, é mister que a universidade desenvolva o homem integralmente, porque esse é o verdadeiro objetivo da educação.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

TRAÇOS DO REINO

Eu provavelmente seja o internauta mais desatualizado! Não acredito que desconheci a existência de um material tão rico e inteligente quanto as tirinhas do blog Traços do Reino. Para reparar minha ignorância, divulgo uma delas, a qual está entre as minhas favoritas (sim, depois que me apresentaram ao material, comecei a ler várias das tiras). Clique na tira para vê-la ampliada. Aproveito para recomendar o ótimo Confissões Pastorais, do meu amigo Pr. Diego Barreto - endereço que inicialmente abrigou Traços do Reino.

FILHO DE BILLY GRAHAM CRITICA REELEIÇÃO DE OBAMA


A reeleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos causou revolta em pastores ligados a instituições conservadoras no país, historicamente mais próximas do Partido Republicano, atualmente opositor do governo.

O pastor Franklin Graham, filho do evangelista Billy Graham, afirmou que Obama pretende levar o país por um “caminho de destruição”, durante uma entrevista à rede de TV CNN. Franklin lamentou que Obama tenha sido reeleito e alarmou os telespectadores a respeito do futuro: “Se estamos autorizando este presidente a nos conduzir pelo caminho por onde ele deseja que a gente vá, para baixo, acho que vai ser algo perigoso e poderá significar a destruição desta nação”, disse, segundo o Christian Post.

Porém, Graham foi criticado em relação às suas posturas por outro pastor conhecido nos Estados Unidos. William J. Barber II, presidente da NAACP, uma associação cristã que luta pelos direitos civis dos negros, afirmou, numa carta assinada por ele e por diversos outros pastores, que os motivos das críticas de Franklin Graham a Obama são pessoais: “Nós acreditamos Franklin, que você se desviou, seduzido pelos encantos do dinheiro e do poder. Novamente, com amor cristão, renovamos o nosso desafio para que você reveja suas posições”.

O fundador do site LivePrayer.com, pastor Bill Keller, afirmou diversas vezes durante os últimos meses que nenhum cristão consciente deveria votar no presidente Obama, por suas posturas pró-aborto e união homossexual. Os ataques de Keller não se contiveram ao presidente, e foram realizados também contra seu adversário político, Mitt Romney. Segundo o Christian News Wire, o pastor afirmou que os cristãos poderiam votar no candidato que vem de uma família que há cinco gerações contribui para levar almas para o inferno através do mormonismo.

Para Keller, a eleição presidencial de 2012 era como uma moeda de duas caras lançada por satanás: qualquer escolha seria ruim.

Porém, o site Huffington Post publicou uma matéria em que líderes religiosos apontavam para as principais causas que devem ser trabalhadas no próximo governo do presidente Barack Obama. Os assuntos mais comentados foram diminuição da pobreza, erradicação da fome, oferta de saúde pública e emprego, além da valorização da família e defesa da liberdade religiosa em países muçulmanos.

Fonte: Portal Gospel Mais 

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

APENAS O GLACÊ: COMO A REDUÇÃO DO EVANGELHO FAVORECEU AS MUDANÇAS NO CULTO


Por que a adoração praticada nas igrejas cristãs tem se desviado do padrão admitido há séculos, com sensíveis variações, e assumido formas diferenciadas, incluindo expressões teatrais, dança, inserção de vídeos e outras novidades cúlticas?
A pergunta abre uma série de questionamentos. A revolução tecnológica, que sedimentou o estabelecimento de uma nova geração – os millenials ou GeraçãoY – está entre os fatores que contribuem para cobranças por interatividade e dinamismo no culto cristão. Certamente, o culto nunca deveria ter sido ambiente para mera assistência passiva. Entretanto, a interatividade exigente do contexto contemporâneo cobra um padrão de qualidade que se pauta por valores midiáticos. Não à toa, o departamento de mídia de muitas congregações já recebe tanta atenção quanto o de louvor.
Contudo, somente a mudança na sociedade como um todo parece ser razão insuficiente para dar conta da revolução litúrgica que ora assistimos. Por mais que não se trate apenas de um “fator externo” (afinal, cristãos nascidos no início dos 1980s também pertence à Geração Y, apresentando características similares a de não cristãos que nasceram no mesmo período), a mudança de geração não explica, por exemplo, a crítica e desestímulo generalizado que mesmo pessoas de outra geração expressam em relação às liturgias mais tradicionais.
Talvez o desgaste se deva em parte à falta de ênfase no estudo da Bíblia, focando a perspectiva total que as Escrituras oferecem. O evangecalismo americano, bem como sua vertente brasileira, nos transmitem o cristianismo da salvação pessoal, da experiência com Deus, sem que esse evangelho chegue perto de roçar o cérebro – nem ao menos de leve. O que a igreja tem a dizer sobre a luta do sertanejo em terra de coronéis? Ou sobre a corrupção política desmascarada no julgamento do mensalão? Que esperança prática oferecemos para universitários com seus desafios intelectuais? Para empresários às voltas com decisões éticas em meio ao mercado globalizado? Nada temos a dizer-lhes – apenas que se convertam a Jesus e salvem suas almas!
Nossa pequenez de visão e falta de abordagem holística diminui o evangelho a uma experiência menor, fraca. Como se pagássemos o melhor bolo de uma confeitaria e oferecêssemos apenas o glacê aos convidados. Todos saem comentando que o bolo deixou a desejar. Pudera! Não provaram do bolo, apenas de uma parte.
Assim, o pós-modernismo encontrou cristãos com as calças baixas. Toda desconfiança de verdades instituídas e apelo aos sentidos arrastou os cristãos porque nem eles se achavam muito bem satisfeitos com sua experiência religiosa de migalhas. Com um agasalho tão fino o resfriado era certo em meio à travessia pelo luar de inverno. Com isso, inverteu-se a ordem das prioridades espirituais.

O culto público deixou de ser o ajuntamento de pessoas de fé dispostas a adorar unidas em torno de verdades cristãs fundamentais e em sua compreensão unânime da natureza amorosa de Deus como Pai comum. O culto passa a ser uma experiência místico-emocional, em que se pode energizar a vida espiritual e obter vitórias específicas, além de proporcionar satisfação imediata. Antes, ia-se à igreja reconhecer a Deus e receber Sua instrução. Agora, o motivo é outro: experimentar a Deus e reclamar Sua bênção imediata. Quem sabe como esse novo paradigma afetará os adventistas...


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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

POLEGADA A POLEGADA


 "A mais forte prova da queda do homem de uma condição elevada é o fato de lhe custar tanto voltar. O caminho de retorno só pode ser vencido por duras lutas, polegada a polegada, a toda hora. Por um momentâneo ato da vontade pode alguém colocar-se sob o domínio do mal; mas requer mais do que um momentâneo ato de vontade partir esses grilhões e alcançar uma vida mais elevada, mais santa. Pode estar formulado o propósito, iniciada a obra; mas sua realização exigirá esforço, tempo, perseverança, paciência e sacrifício." Ellen G. White, Conselhos Sobre Educação, p. 243.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

OUTRA INSATISFAÇÃO


Outra insatisfação igual não há!
Ela acabrunha, inquieta; o que senti
Segmentou o andar, feito o de um siri.
Que é do norte? A ignorância disso é má!

Ela estropia o trópico em que está,
Numa espécie de crise contra si,
Que prefere o longínquo ao aqui,
Pois não se é feliz perto como lá.

Outra insatisfação em lugar dessa!,
Mais respeitosa aos pés que andam com pressa,
Sem saber para onde ou sentir o chão.

Quero me assentar para alívio da alma,
Contando as opções sobre minha palma
– E Deus, que guia os pés, responde: “não”.

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O PREÇO DA VIRGINDADE



Li há pouco a notícia de meninas indígenas cujas virgindades são leiloadas em São Gabriel da Cachoeira, município lonquinquo do Amazonas (Folha de São Paulo, 4/11, C1). Comerciantes, políticos e militares estariam entre os envolvidos. Por R$ 20 é possível conseguir passar a noite com uma menor, com idade entre doze e quatorze anos. Algumas vítimas relatam terem ganho celulares, chocolates e até roupas dos aliciadores. 

Muitas famílias recebem dinheiro para sustentar a prática de vender suas filhas. Outras são ameaçadas para não denunciarem o caso. A polícia Federal segue com as investigações, sem ter havido a prisão de qualquer um dos suspeitos. As denúncias seriam decorrentes desde 2008 (Idem, p. C4).

Por mais bizarra e asquerosa que seja a notícia, parece haver pouca tristeza quando se pensa em jovens, mulheres e homens, os quais têm vendido a pureza sexual por menos ainda. E pior: de forma voluntária. Refiro-me àqueles que por impulso resolvem “curtir” o momento. Eles banalizam o sexo, como se intimidade fosse algo para ser compartilhado com qualquer pessoa, em qualquer lugar e momento.

Entre cristãos, é grande o número daqueles que não resistem às tentações sexuais, seja na forma de namoros mal conduzidos, ou quando se apresentam nas imagens de alguns sites. Estão vendendo algo valioso por uma quantia ínfima.

Virgindade é algo valorizado por Deus, mas quando se trata de pureza, o preço é mais alto. Muitos que temem perder a virgindade descuidam com o que veem, ouvem ou tocam. Relacionam a virgindade com algo físico e até sacrificam a pureza para mantê-la hipocritamente – seus contatos íntimos e sexuais, embora calculadamente evitem a penetração, numa pretensa manutenção da virgindade, constituem uma deturpação grosseira do relacionamento sexual saudável. 

Quem se consagra à obediência dos mandamentos de Deus, estrutura sua conduta sexual de maneira a não ser dominada pelos impulsos, sabendo expressar sua sexualidade no tipo de relacionamento apropriado – a associação monogâmica e heteressexual, exclusiva e partilhada entre duas pessoas, após terem preenchido requisitos sociais e recebido a bênção divina (algo que as pessoas conhecem como “casamento”).

Quem sabe esperar, é recompensado com um tesouro incalculável. Compensa chegar virgem ao casamento – e, principalmente, ser puro antes, durante e depois dele.

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