segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

HÁ ADVENTISTAS E "ADVENTISTAS"!


O mundo semita se fundamentava em uma cultura do ouvir e contemplar, de admitir o sobrenatural como parte da experiência concreta. Assim, os hebreus não estavam tão preocupados em explicar Deus – o Outro Inexplicável, transcendente –, quanto nas implicações práticas de se corresponder com Ele.
Os pais da igreja enfrentaram outro desafio: defender sua fé no contexto da filosofia grega, com pressupostos distintos do contexto hebraico. Os gregos eram racionalistas e entendiam a realidade baseados na noção de separação entre a realidade humana e a divina. Na tentativa de contextualizar sua fé, os cristãos dos primeiros séculos tomaram de empréstimo conceitos filosóficos. Surgiram distorções da revelação bíblica, como a ideia de alma imortal e de que Deus, por ser eterno, é distante, atemporal e inacessível aos homens.
Embora a Reforma Protestante revitalizasse a fé cristã deformada pela escolástica medieval, não é preciso ser um especialista em exegese para notar o quanto os reformadores ainda pagam tributo às ideias da filosofia clássica. Quem quer que tenha lido os escritos de Lutero percebe sua coragem, a linguagem forte (às vezes áspera e indelicada!) e sua dependência de Agostinho e dos pais da igreja.
Com o advento da modernidade, o cristianismo se deparou com outro desafio: o racionalismo promovido pelos filósofos iluministas. Agora, a própria possiblidade de Deus Se revelar de modo concreto parecia estar em xeque. Obviamente, surgiram reações cristãs – como o método histórico-crítico, baseado em um racionalismo que entendia as Escrituras como apenas uma manifestação da cultura antiga. Ao lado desse cristianismo liberal, a ala conservadora procurava apresentar “provas” do que acreditava, promovendo uma versão racional do cristianismo, mas sem abrir mão da tradição (o que inclui o aparato filosófico que vinha desde a Idade Média).
Por todo o tempo, Deus trabalhou por meio de homens a quem constituía arautos de Sua revelação. Eles atuavam no sentido de despertar o povo, levando-os a uma compreensão de aspectos da verdade eterna encontrada na Bíblia. Justamente no fim dos tempos, o Espírito Santo despertou alguns cristãos, por meio do estudo das profecias de Daniel e Apocalipse. Surgiu a Igreja Adventista do Sétimo Dia, com o propósito de transmitir a verdade sobre a intercessão de Cristo no Santuário Celestial (Hb 7:25) e a mensagem de advertência sobre o juízo próximo (Ap 14:6).
E quais são os desafios que a época impõe aos adventistas? Nascido no período moderno, o movimento agora se depara com a pós-modernidade. A crise trazida pela mistura com a filosofia clássica e agravada com o racionalismo só aumenta com a disseminação do relativismo, da versão contemporânea de tolerância e consequente esvaziamento de conteúdo de toda forma de cristianismo.
Resultado? A exemplo de outros períodos, a igreja cristã tem de decidir a quem servirá. Os adventistas sentem isso na pele. Como nunca, temos uma igreja dividida. Talvez não na América do Sul (ainda), mas em um contexto global, sim. As bases proféticas já não interessam muitos adventistas. Eles preferem aceitar uma versão bem soft do evangelho, a exemplo dos evangélicos, advogando que só Jesus salva; o que importa é o coração; que as regras não importantes; que não importa o que você crê, mas o tipo de impacto que isso traz à sua vida.
Em muitos países, há professores universitários adventistas reivindicando o direito de ensinar o evolucionismo teísta como uma alternativa à tradicional visão criacionista endossada pela denominação e há um forte movimento de homossexuais pedindo abertura para serem aceitos. Isso sem contar aqueles que não acreditam que em 1844 tenha acontecido algo de relevante, os que duvidam do dom profético de Ellen G. White (ainda que na surdina) e as incursões de carismatismo que já compõe o cenário adventista (sem causar estranheza mesmo entre aqueles que se consideram ortodoxos e clamam pela volta dos velhos tempos!).
Todo esse reducionismo, misticismo, materialismo epistêmico e acomadação ao ethos contemporâneo enfraquece as premissas do adventismo e conspira contra sua razão de ser. O cenário poderia ser desanimador, se não fosse a clareza da profecia que já anteviu toda a sonolência do povo de Deus vivendo no fim (Ap 3:14-21). Não apenas o diagnóstico é confirmado, como o tratamento oferecido. O povo de Deus precisa de um reavivamento, uma volta às origens, um resgate de sua identidade. O contrário disso resultará em uma fragmentação ainda mais radical do movimento adventista ou (tão ruim quanto) uma transformação da denominação em mais uma igreja carismática e secularizada.
Já que eu não tenho poder para mudar a denominação inteira, decidi mudar o que posso: eu mesmo, submetendo-me Àquele que chamou os adventistas para esse tempo. Estudando a revelação bíblica, assumindo a identidade profética e anunciando a verdade presente, quero contribuir para que Jesus retorne o quanto antes. Chega de shows gospel, programas formalistas e de viver do capital dos pioneiros (a essas alturas, já estamos com saldo negativo!): é preciso redescobrir a alegria de servir a Deus com integridade. É hora de ser adventista de fato, sem dubiedade ou incoerências. Jamais seremos perfeitos (Deus me conhece bem!), porém temos de buscar inteireza de propósito. Maturidade precisa ser nosso alvo diário.

O mundo e o Reino precisam de adventistas adventistas.

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18 comentários:

marcio goncalves disse...

Interessante texto, principalmente porque ele fala sobre o momento em que o Adventismo surgiu e o momento em que nos encontramos hoje, filosoficamente.
A Bíblia é clara e fala por si quando nos mostra que Deus é superior, bem superior ao ser humano.
Por esta razão, é Ele quem busca o ser humano, e tenta se fazer entender em épocas tao distintas que as vezes nem nos damos conta.
A única maneira que Deus tem para se fazer entender é justamente dentro da cultura humana, já que o ser humano vê e entende tudo baseado naquilo que conhece e na história. Na Bíblia, Deus se apresenta como alguém que é extremamente respeitador da cultura, mesmo ela sendo humana e justamente por isso, falha.
Existem boas razoes porque a modernidade está cedendo o espaço para a pós-modernidade, excelentes razoes.
A verdade é que a nossa fé adventista surgiu numa época moderna, e a maneira que fizemos teologia na época é com os métodos que eram os da cultura de então, os métodos racionais e científicos da modernidade.
Precisamos reconhecer que, pelo menos em boa parte do mundo ocidental, as pessoas não tem mais inerentes os ideais modernos. Portanto é mais do que necessário mudar os métodos, já que o evangelho não é para a nossa salvação, e sim para a salvação de outros.
Claro que o ser humano vai errar nesta empreitada, antes de acertar; mas há muitas coisas positivas no progresso da nossa igreja.
Por sinal, o espírito dos pioneiros é justamente este: o constante progresso e a oposição clara a doutrinas fixas, na época em contraposto ao sistema católico.
Creio que, mesmo parecendo o caminho mais incerto e inseguro, precisamos analisar a nossa cultura e filosofia, progredir com as nossas crenças e focar na missão principal que nos foi dada.
Voltar ao passado não é uma opção, infelizmente. E nem seria bom fazê-lo. Até porque o tal passado, se não tinha os mesmo problemas de mornidão, as vezes sofria do principal problema do ser humano, o único grande problema: o de amor próprio.
Há muita coisa que os pioneiros fizeram muito bem, sem dúvidas. O que não foi positivo, porém, mas foi parte da cultura em que viviam (crista e moderna): a ideia de que ter as crenças certas e viver da forma correta era ser cristão.
De forma alguma devemos voltar a esta parte do nosso legado.

douglas reis disse...

Márcio,

obrigado por essa sua nova interação. A relação entre evangelho e cultura é bastante complexa e carece de um estudo mais detalhado. Esbocei algo em um capítulo do meu livro Explosão Y, mas falta um livro sobre o assunto de uma perspectiva adventista.

Posso dizer que o evangelho, embora precisa ser revelado dentro de uma cultura para ser compreendido, transcende a cultura. Se ele fosse compreendido apenas sob a ótica da cultura, teríamos vários evangelhos, como parecem crer Brian McLaren e o teólogo brasileiro Leonardo Boff.

Mas a revelação divina não é refém da cultura (ou cairíamos na teologia liberal!). Inclusive, sua proposta consiste justamente em reformar a cultura, a qual é fruto do coração humana e possui a influência do pecado (inevitável em toda cultura, mas sob manifestações diferentes).

Recomendo a você o vídeo do teólogo Fernando Canale, que postei recentemente: http://questaodeconfianca.blogspot.com.br/2013/12/fernando-canale-cultura-ou-cristo.html

Creio que Canale tem muito a acrescentar a essa discussão que está apenas começando (tardiamente!) em nosso meio.

Um forte abraço!

William Fernandes disse...

Pastor Douglas Reis, tenho acompanhado seu Blog nas últimas semanas. Seus artigos são excelentes, pois sua leitura dos acontecimentos proféticos é bem realizada e pontual, que Deus seja louvado por sua disposição e coragem de ser fundamentalista em um momento do cristianismo onde se propaga o liberalismo. Orarei por você e sua família. Abraços. William (IASD Campo Limpo Pta-SP).

marcio goncalves disse...

Pastor,
conheço bem o Fernando Canale (li aquele livro enorme dele), e admiro as suas posições sobre a filosofia da Bíblia.
O Evangelho realmente é apenas um, mas a sua expressão pode ser incrivelmente variada.
A supercultura de Deus é um cultura onde o amor a si mesmo não é a forca dominante, algo que nenhum de nós pode realmente imaginar; mas podemos sentir o gostinho, de vez em quando.
As ideias de Brian McLaren são válidas (tb li um dos seus livros), sem dúvida. Ele não tem todas as respostas, mas creio que ele faz as perguntas certas.
Muito depende de como enxergamos a Bíblia. Se realmente vamos tratá-la como inspiração verbal, devemos fazê-lo. Se não for inspiração verbal, precisamos encontrar uma maneira de entendê-la sem a tratar como inspiração verbal.
A questão da inspiração está na base da questão do evangelho.

douglas reis disse...

Oi, Márcio.

Como você deve saber, sobre esse ponto da inspiração (na verdade, chamamos de fenômeno revelação-inspiração), Canale tem uma proposta diferenciada, que não é a inspiração verbal.

E mesmo sem crer em inspiração verbal, não podemos ceder à ideia de que o evangelho é mutável em seus princípios.

Abraços.

marcio goncalves disse...

Conheço a posição de Canele, mesmo, Douglas.
Mas os princípios é que estão em disputa - quais são os princípios?

Por exemplo, no seu texto você deixa parecer que a criação em 6 dias consecutivos é um principio Bíblico, quando não o é. Deus como Criador, que organizou com cuidado de Quem ama e deu responsabilidade aos seres humanos sobre a vida na terra criada. E a vontade de preencher a Terra com a sua presença, de se encontrar com o homem, estes são os princípios encontrados em Gênesis 1.
Qualquer coisa fora disso não é principio, portanto não deveria ser razão de separação entre os irmãos, ou de chamar alguns de adventistas apenas entre aspas.
Isto é apenas um exemplo, mas há inúmeros.

douglas reis disse...

Márcio,

tenho de novamente agradecê-lo pela oportunidade de voltarmos a interagir.

Não duvido de que você conheça as ideias de Canale. Só achei estranha a sua referência à inspiração verbal, uma vez que Canale, eu ou algum estudioso adventista de destaque a partir da década de 1990s defenda esse princípio.

Ainda assim, continuamos oficialmente acreditando na criação em 6 dias, o que não deixa de ser a base de nossa crença no sábado do sétimo dia. Não faz sentido construir uma teologia do sábado sem crer em uma criação literal em 6 dias.

A oficialidade dessa crença foi posta em dúvida na última assembleia da Associação Geral, mas a igreja reforçou esse princípio. Não vejo qual o sentido de alguém questionar isso, a não ser que adote outros princípios de interpretação, como o método histórico-crítico (oriundo da teologia liberal).

Quando mencionei a herança dos pioneiros, esse é um ponto importante a ser resgatado. A macro, meso e micro-estrutura hermenêutica que eles adotaram é resultado direto da Reforma Protestante, com sua insistência no princípio Sola Scriptura.Podemos dizer que os pioneiros do movimento deram uma contribuição exímia, a qual precisa ser recuperada. Ou seremos reféns da cultura, sem ter certeza de qual seja a vontade de Deus (caindo em uma espécie de relativismo cristão, humilde demais para admitir que o evangelho seja verdadeiro!).

Um abraço.

marcio goncalves disse...

Oi Douglas,

só para esclarecer: em nenhum momento estou querendo dizer que alguém na nossa igreja acredita na inspiração verbal.
O que digo, sim, é que as vezes interpretamos a Bíblia como se ela fosse inspirada palavra por palavra. Na nossa teologia, damos grande valor as palavras e seus significados, fazemos construções inteiras a partir disso, e isso nem sempre com coerência (o que seria difícil mesmo).
Costumamos também ligar as palavras a sua cultura, que é pelo menos parte do método histórico-crítico, já que sabemos que as palavras ganham o seu significado através da sua cultura.
Creio que os pioneiros fizeram um excelente trabalho, mas como seres humanos, nem tudo que conseguiram entender da Bíblia na época pode ser levado como a verdade absoluta. Eles mesmos defenderam a ideia de progredirmos no conhecimento da Palavra.
Creio que a Bíblia deixa bastante coisa em aberto, e creio que ela o faz de forma intencional. Nunca entenderemos, por exemplo, todas as interpretações corretas de Daniel & Apocalipse, ainda mais se nos fecharmos a novas maneiras de vermos as coisas. E ainda corremos o perigo de perdermos de vista as mensagens principais destes dois livros: Deus está no controle, e ele garantirá que haverá Justiça no meio a esta injustiça que vemos em todo o lugar.
Entendo o medo da cultura atual ou de qualquer uma, e entendo a sua preocupação com o que anda acontecendo na igreja. Mas eu entendo que precisamos buscar um terceiro caminho, e não decidir por um deles.
Em suma: creio que existe bem mais relativismo que estamos acostumados a admitir, mas com certeza há verdades absolutos, princípios claros. Precisamos focar mais nestes.

douglas reis disse...

Márcio,

na década de 1970, estudiosos adventistas defendiam a inspiração plenária, alegando que as ideias não as palavras dos escritores bíblicos eram inspiradas.

O problema é que estamos diante de uma impossibilidade cognitiva: qualquer pensamento que alguém tenha sobre qualquer coisa será expresso em palavras.

É evidente que a inspiração atinja o nível das palavras. Em síntese, é essa a crítica contundente de Canale à inspiração plenária. Sua proposta, o modelo histórico cognitivo, tenciona harmonizar a liberdade e cultura dos escritores bíblicos com a direção divina.

Canale propõe que Deus revelou as formas significativas aos escritores bíblicos (revelação), e guiou-os, por meio de um processo de interação divino-humana que nunca iremos compreender completamente, para escolherem palavras que não traíssem o conteúdo revelado (inspiração).

Assim, não precisamos do método crítico (nascido e alimentado por uma perspectiva naturalista, bastante contrária aos pressupostos da Sola Scriptura) para reconhecer a influência das palavras e da própria cultura nos escritos bíblicos.

Mas isso ainda é diferente de condicionar a revelação à cultura, ou dizer que toda interpretação é apenas culturalmente condicionada (como Foucault propôs).

Nesse ponto, o da interpretação, Canale recorre ao grande pai da Hermenêutica moderna, Hans Gadamer, o qual advoga, em síntese, que toda interpretação deve levar a uma análise das coisas em si. Isso apoia a noção do Sola Scriptura.

É óbvio que os pioneiros não descobriram toda a Verdade, que jamais será esgotada pela inteligência humana, pois sua origem é divina. Mas eles deixaram marcos importantes. Abrir mão desses marcos para adotar um sentido mais espiritualizado/existencialismo não me parece algo que se coadune com a herança dos pioneiros.

Se por exemplo, eu dissesse que não houve um Êxodo como a Bíblia descreve e que o relato serve apenas para me inspirar com a mensagem de que há um Deus que me liberta de meus temores e limitações, isso não seria em nada parecido com a compreensão adventista; lembra mais a teologia liberal do encontro, surgido nos primeiros anos do século XX.

Acho que relativismo é diferente de aplicabilidade de princípios. Um princípio bíblico é o da reverência diante da presença do sagrado (como em um culto, por exemplo).

Entre os ocidentais, uma forma de manifestar reverência é não conversar durante o culto (por exemplo), enquanto os cristãos árabes expressam o mesmo princípio tirando os seus calçados ao entrarem no templo. Mesmo princípio, culturas diferentes.

Há espaço para isso e para questões de cunho pessoal; mas os limites são dados pela revelação. Eu não posso dizer que usar brincos seja opcional ou meramente cultural, quando a Bíblia claramente afirma que não! Mesmo o que é aceitável a uma cultura (seja ela cristã ou não) pode ser contrário à Bíblia. Devemos decidir de que lado ficar em todos esses detalhes. Que Deus nos ajude!

Um abraço.

marcio goncalves disse...

Douglas,
vc disse:
"Eu não posso dizer que usar brincos seja opcional ou meramente cultural, quando a Bíblia claramente afirma que não! Mesmo o que é aceitável a uma cultura (seja ela cristã ou não) pode ser contrário à Bíblia. Devemos decidir de que lado ficar em todos esses detalhes. "

Acho que é justamente disso que estamos falando. Com que textos vc justifica esta afirmação sobre as joias?
Vejo um perigo tremendo em sentir que temos que "decidir de que lado" ficamos em "todos esses detalhes". Compreende a minha preocupação?

douglas reis disse...

Márcio,

Bom dia! Vejo que você continua animado em suas perguntas. De minha arte, fico feliz em podermos conversar sobre assuntos espirituais, a fim de que o Senhor nos leve a um melhor entendimento de Sua Palavra.

Em resposta à sua pergunta, os textos bíblicos centrais usados são: 1 Tm 2:9,10; 1 Pe 3:3-4. Sobre o primeiro texto, transcrevo um parágrafo da autoria de Craig L. Blomberg. O Dr. Blomberg, uma das maiores autoridades em NT, não é adventista. Ponderando sobre 1 Tm 2:9,10, ele afirma:

"Não havia nada de errado com o cabelo frisado em si, mas o penteado ornado de joias nas tranças, como forma de prender o cabelo da mulher, envolvia horas de atenção à aparência exterior e, muitas vezes, era acompanhado de roupas abundantes e caras [...] Então, existe um princípio atemporal, até mesmo nesses comentários aparentemente ocasionais, de que as mulheres (e presumidamente os homens também) não devem preocupar-se com roupas, joias e outras coisas extremamente caras e pomposas. Podemos imaginar quantos adoradores cristãos hoje infringem o princípio de Paulo todo domingo." Craig L. Blomberg, Nem pobreza, nem riqueza, p. 207.

Há todo um estudo detalhado do respeitado Ángel Manuel Rodriguez sobre o uso de joias na Bíblia que, junto ao Comentário Bíblico Adventista e aos escritos de Ellen G. White podem aclarar o entendimento bíblico sobre as joias.

Quanto à sua preocupação, eu gostaria de entendê-la melhor. O que lhe preocupa?
(a) Que alguns aspectos da obediência cristã soem como legalismo, retirando a compreensão da centralidade de Cristo no processo da salvação?
(b)Que estejamos usando textos bíblicos para defender uma tradição religiosa defasada?
(c) Que nos distanciemos das pessoas a quem queremos salvar?
Diga-me o que você pensa e repensemos o caso.

Abraços.

marcio goncalves disse...

Me preocupo porque nós temos tido a tradição de enfatizar alguns assuntos menores, com o perigo de perder de vista as grandes verdades por trás. Tentamos acertar nos detalhes, muitos vezes pouco nos preocupando com a visão geral. Diferente dos fariseus, por um lado, mas semelhante, por outro.
Os fariseus não eram um povo mal ou maldoso, pelo menos não ao seus olhos. Eles tinham em memória o trauma passado pelos seus avós e bisavós, o trauma de ter que deixar a sua pátria e ver a sua cidade santa destruída.
Eles entenderam que foi uma consequência, talvez até punição divina pela falta de obediência, e jurarem que isso não iria acontecer novamente. Então, fizeram um estudo cuidadoso do Pentateuco, interpretando todas as leis e levando elas aquilo que pensavam ser a conclusão geral, tendo como alvo avaliar todas as situações da vida com as Escrituras como base.
Queriam estar certos de que não voltariam a perder cidade e pátria por desobediência.
No sermão do monte, Jesus endureceu os 10 mandamentos; justamente para mostrar aos fariseus que a obediência não era apenas externa, mas interna. E que cada lei tem ideais tao altos que nenhum homem pode cumpri-los. Logo depois, vem o texto de que não podemos julgar, conclusão obvia já que não podemos ver o que Jesus vê, o coração.
Nós, os adventistas do sétimo dia, também surgimos de um trauma. Jesus não voltou quando tínhamos certeza que ele voltaria. A salvação do nosso trauma, a solução para ele, foi a interpretação diferente das profecias.
Por isso, a interpretação da Palavra de Deus tem uma centralidade histórica na nossa igreja, e é por esta razão que a atual falta de união teológica é parece tao ameaçadora a nossa identidade. São situações diferentes, mas caímos mais uma vez no perigo de brigarmos por "pormenores" e perdermos de vista a visão maior, a essência do evangelho e o nosso papel principal nele.
Defendo que há prioridades na Bíblia, e que os adventistas nem sempre se atentam para eles. Somos especialistas em interpretação bíblica, talvez dos melhores, em termos de organização. Mas para muitos, é mais importante estar certo do que ser cristão.
Ser de Cristo quer dizer rejeitar o mundo. Mas o "mundano" que a Bíblia condena tanto no AT como no NT não são acoes individuais, acoes de pecado. É a injustiça social causada pelo egoísmo do ser humano. É a busca por reconhecimento, poder e riqueza. É a prioridade em si mesmo e seus projetos.
O perigo de decidir o que é certa e errado nos detalhes é que isso pode nos dar uma falsa sensação de segurança, porque assim corremos, como humanos, o perigo de fazermos algumas coisas sem o espírito daquela coisa.
Aquele que vive a sua vida conforme as leis do Reino, resumidas muito bem tanto no sermão do monte como em 1. Cor 13, não a vive tentando ser melhor. Porque já não mais importa o que será de mim se o meu foco está no outro.
A história do Bom Samaritano é um bom exemplo. Para nós, soa estranho o levita e o sacerdote passaram de longe, mas para o povo da época, estava tudo normal: afinal, esta era a Lei de Moisés. O samaritano era bem diferente. Nao se importou com a sua pureza. Nao ligou para a sua superioridade. Sem pensar duas vezes, sujou as mãos, livrou o homem semimorto e o deixou em um lugar onde pessoas poderiam cuidar dele. E prometeu voltar.
Jesus é o bom samaritano, claro. Nao se importou com as glórias do céu e arriscou a sua pureza, sua santidade, sua vida. Ele é o nosso exemplo. E Ele quer que cuidemos dos semimortos.
Amar é subestimado. É muito custoso amar, e alguns parecem pensar que "só amar é fácil". Claro que não é!

marcio goncalves disse...

Se somos Igreja de Deus, devemos ensinar, também. Mas primeiramente, temos que amar e aceitar como as pessoas são, e isso inclui a nós mesmos. O perigo do foco nos detalhes do certo ou errado é que é natural do ser humano a) se sentir seguro nas regras ou b) desistir de tudo isso porque parece tao difícil ou mesmo c) viver uma vida dupla, o que inúmeras vezes já vi na nossa igreja. Se o foco for no que é certo fazer e certo evitar, teremos um problema tremendo - porque o foco ainda estará em nós mesmos e nossas acoes acertadas e menos acertadas.
Precisamos nos comprometer com a causa de Deus ensinando as suas grandes verdades: Deus te criou, Deus não quis um mundo assim, a única grande Lei de Deus é do amor que se doa ao outro, principalmente ao fraco; e existe uma forma diferente de viver que não é trabalhar para comprar para ter para ser - e nunca ficar satisfeito.
E, depois, um "vem com a gente", viver estes ideais diferentes e tentando enxergar o mundo como Jesus fez enquanto esteve aqui: passando bem mais tempo com os fracos e excluídos do que com os teólogos.
Sobre se fuma ou não fuma (uma herança do movimento anti-saloon que também tem enfase especial em sexo/prostituição, bebida alcoólica e jogos de sorte, todos assuntos apenas indiretamente bíblicos), se usa joias ou não, se ouve rock ou não, isso pode tudo vir depois (caminho que se chama santificação, que deve ser andado em comunidade, mas não julgado por ela), se e quando necessário.
Se entendo bem os pequenos profetas, Deus prefere alguém usando joias do que alguém não usando por achar que estar agradando a Deus, mas viver a vida "mundana" - não de festas, bebidas e sexo, mas de busca de reconhecimento, sucesso aqui, riqueza e poder. Deus até chega a dizer que condena rituais como a guarda do sábado, pelo que as pessoas estavam fazendo durante a semana: trapaceando os seus irmãos, abusando dos escravos e pensando sempre na sua vantagem.
Na minha experiencia, e creio ser a experiencia de muitos, o foco extremo em crer de maneira certa ou errada não nos torna melhores cristãos - tem o perigo de nos tornar piores cristãos. Claro que muitos destes assuntos são importantes, mas eles são secundários.
Tudo isso obviamente não é verdade absoluta, são os meus pensamentos baseado nas minhas experiencias, naquilo que vejo e sinto, e naquilo que tenho encontrado na literatura teológica e na Palavra de Deus, principalmente.
Eles são pensamentos em formação, há muito o que aprender, mudar e crescer.
Se com isso eu não sou um adventista de verdade, ou da maneira que eu deveria ser, de repente (e é óbvio que não acho que você, Douglas, faria este julgamento, porque vejo só intenções boas nos seus textos), então eu prefiro ser aquilo que George Knight chama de "Adventista Cristão".
Todos os seres humanos precisam aprender a serem cristãos, mas o nosso povo talvez precise aprender mais ainda; de todos os lados do espectro.

O meu ponto é: Se a gente fizer, de forma organizada e dentro das nossas comunidades, e trabalho de Deus, que é: pensando mais nEle e menos em nós, ajudarmos a diminuir o sofrimento das pessoas da forma que pudermos e com o talento que foi nos dado, e dando a eles esperança de uma vida melhor, já aqui na Terra; então algumas pessoas talvez vão querer se juntar a nós.
Que as aceitemos. Que as batizemos. Que as crenças especificas que temos possam vir depois, e não antes. Que as pessoas não se tornem adventistas por "estarem do lado certo", mas por sentirem que este é um movimento que entendeu o espírito humano que Deus plantou em nós.
Que compreende, que carrega, ajuda a curar as feridas, e toma conta até Jesus voltar.
Creio eu que este seria o caminho para a nossa igreja. Pregar a justiça, mas vivê-la também.

douglas reis disse...

Márcio,

agradeço a você por expor o que está por trás de suas preocupações. Posso dizer que compartilho de muito do que você disse. Escrevi recentemente sobre a tendência ao farisaísmo, que sempre ronda o cristianismo e ameaça uma compreensão mais profunda do sacrifício com Cristo. Neste aspecto temos preocupações coincidentes.

Peço licença para pesar alguns aspectos. Quero fazê-lo com todo cuidado e de uma maneira respeitosa, justamente para que você não fique com a impressão de que eu o estou julgando, o que seria injusto e arbitrário, ainda mais que não o conheço pessoalmente - mesmo se o conhecesse, cabe a Deus pesar os motivos, não a mim.

Uma parte do que tenho a expressar o farei agora. Não tudo, pois terei uma reunião em poucos minutos. Peço que espere até à noite, quando terminarei minhas considerações.

Creio que a espiritualidade cristã cobre todos os aspectos da vida, embora não se concentre em detalhes periféricos, mas ainda assim os engloba. Veja as orientações bíblicas sobre alimentação, casamento, guarda do sábado e outras encontradas no pentateuco. São bastante exigentes, não?

marcio goncalves disse...

Haha, Pastor, nao se preocupe. Sei que minha ultima postagem foi intensa, foi apenas um resumo das coisas que ando pensando.
Nao precisa ter nenhum cuidado comigo, eu nao me sinto julgado por ninguem.
Gosto de teclar aqui com vc, por algumas ideias para fora e discuti-las.
Entao, nao precisa ter dedos comigo, vamos continuar conversando numa boa.
Espero nao ter dado a impressao de estar te atacando tb, pelo menos nao foi minha intencao, de forma alguma.

Vamos falar de casamento primeiro. Creio que Deus tem os seus ideais, as suas ideias iniciais ao criar o mundo e a nós. Ele deixou isso de forma explicita e implícita.
Sabemos também, porém, que o mundo deixou de ser ideal. E temos também evidencias na Bíblia que, embora não aprove, Deus aparentemente respeitou arranjos humanos que Ele não planejou.
Os pais da fé não estavam seguindo o ideal de Deus a terem várias esposas e filhas com servas (escravas); mesmo assim, Deus aceitou ou pelo menos não pediu que mudassem.

douglas reis disse...

Oi, Márcio.

Eis que retorno! Fim de ano sempre é mais corrido, mas vamos lá.

Você observou que o casamento tem seu ideal, mas que muitas vezes o povo esteve longe disso. Ocorre que isso não contradiz o fato de Deus ter um ideal e fornecer instruções bem específicas sobre casamento, divórcio, etc.

Muitas dessas orientações continuam no NT. Jesus retoma a perspectiva de Moisés ao abordar o assunto. As orientações sobre alimentação permanecem, assim como as leis de Deus (que ainda são aprofundadas no sermão do monte).

Um segundo ponto: a espiritualidade cristã não deve ser insensível às necessidades de outrem, nem excluí-los por pensarem diferente. Jesus não deixou de dizer à mulher samaritana que a salvação vinha dos judeus (cf Jo 4:22). Pense um pouco: isso deve ter soado como algo extremamente desagradável a uma samaritana! Ao mesmo tempo, Jesus revelou um Deus com um mensagem exclusiva, mas uma atitude inclusiva.

douglas reis disse...

Márcio,

quanto a esse assunto, ainda destaco um terceiro ponto: que as exigências sobre os convertidos para que se ajustem aos princípios bíblicos perpassam a Bíblia, especialmente o NT. Veja Atos 15:20, 28-29 e as recomendações encontradas nas cartas de Paulo (em praticamente todas!).

Há também espaço para a disciplina eclesiástica no caso de escândalos (do grego: tropeços ou o que faz com que outros tropecem). Veja Mt 18:15-18 e 1 Co 5:3-5 (se um crente pós-moderno ouvisse essas palavras de Paulo diria que ele é um cristão legalista, preocupado com detalhes externos e não estava agindo com amor e tolerância!).

Finalente, tenho a dizer que a maneira certa de crer é importante, porque a má compreensão da verdade bíblica pode nos afastar do propósito divino. Veja o que escreveu o apóstolo Pedro - palavras extremamente duras - (2 Pe 2:1-3, 12-15, 17-19). As palavras finais do apóstolo: "Se, tendo escapado das contaminações do mundo por meio do conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, encontram-se novamente nelas enredados e por elas dominados, estão em pior estado do que no princípio." v. 20.

Quanto a importância de crer na maneira correta, veja ainda: At 20:20, 29-30; 1 Jo 2:18-24 (especialmente esse último verso!).

Abraços.

marcio goncalves disse...

Oi Douglas,

primeiramente: leia um dia, se quiser, aquele diálogo com a mulher samaritana como uma briga, até provocação. É uma leitura interessante. A samaritana, uma mulher que pouco se importava com as convenções, estava irritada com Jesus - e talvez vice versa também!

Deus nos deu orientações, inclusive no sermão do monte, mas Ele sabe que somos incapazes de cumpri-las. O meu porém é porque a gente pega tanto no pé com homossexualidade (um assunto quase inexistente na Bíblia), justamente um ponto em que a grande maioria pode estar no ideal de Deus (uma raridade!). Acho injusto e desproporcional, e as vezes perdemos de vista "the big picture!, voltando a minha argumentação inicial. Além de, claro, existirem sempre outras interpretações bíblicas nesta arena, também. O que quero dizer é que essas coisas Deus pode cuidar e julgar, e nós não (razão pela qual Jesus retomou os mandamentos dados a Moisés e isso internizou).

Outra coisa, acho que a gente enxerga o livro Bíblia de maneira diferente e devemos começar por aí. Enxergo Paulo, por exemplo, como um ser humano falho (ele mesmo se considera assim), e não assumo que tudo que ele escreveu é aplicável a todos os tempos. Até porque nós não aplicamos um monte de coisa que ele escreveu...

Concordo com o seu último ponto, mas continuo discordando da visão de maneira certa de crer. A Bíblia não é um livro de códigos e regras, é um livro de histórias e experiencias. Eu sei que isso soa um tanto pós-moderno, mas é só assim que ela pode ser entendida (uma afirmação nada pós-moderna).
Ter os ensinamentos certos é importante se os ensinamentos são realmente bíblicos, e nisso sempre haverá uma hierarquia de princípios, começando pelo Amor.
Quando em dúvida, escolha o amor que renuncia o próprio Eu.