quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

OS ADVENTISTAS E O MEDO DO LEGALISMO



O medo do legalismo ronda o cristianismo. Em parte, isso se justifica: é a tendência do ser humano encarar suas ações como meritórias do ponto de vista da salvação. Assim fazendo, corremos o risco de deixar de lado aquela confiança exclusiva em Deus, o único que pode nos salvar. Entretanto, algo está profundamente errado.quando se classifica a obediência, em todas as exigências que a Palavra faz, como legalismo.
A obediência é prova de discipulado, não de salvação. Alguém pode estar salvo sem ainda obedecer completamente ao que a Bíblia ensina – ou por falta de instrução ou por deficiência pessoal. Se pensarmos de forma ampla, ninguém é perfeitamente leal a Jesus. Somos pecadores e a salvação não anula por completo a natureza pecaminosa com suas inclinações. Requerer comportamento impecável é a heresia dentro do adventismo que se chama perfeccionismo. O discipulado compreende a reprodução gradativa do caráter de Jesus na vida de seus filhos, sendo um aspecto importante da transformação progressiva do caráter do cristão (ao que chamamos santificação).
Assim, não podemos supervalorizar, nem menosprezar a obediência. Ela está relacionada com a maturidade cristã. Temas como uso de joia, tipos de música a ser consumida e produzida, estilo de adoração, vestimenta e alimentação são temas sensíveis, especialmente na conjuntura atual em que se encontra o adventismo. Criticar a postura da denominação, alegando que tais ênfases seriam resquícios legalistas, é o discurso favorito daqueles que não veem (ou não querem) que a mensagem do evangelho é integral e afeta a existência em todas as suas dimensões.
É mais fácil apelar para o modelo evangélico de graça barata (defendido, evidentemente, apenas por alguns evangélicos). Tal modelo descarta a obediência ou a reduz a muito pouco. Muitos adventistas têm capitulado à graça barata, na esperança de viver uma fé mais “livre”; assim, não apenas arrumam pretextos para fugir de seu compromisso (não com a igreja, mas com o Senhor). Além disso, minam a base de sustentação do movimento, que consiste na revelação divina, expressa na Bíblia e nos testemunhos. Sem mencionar que a mensagem dos livros de Ellen G. White sofre parcial ou completo descarte da parte de gente que se diz adventista…
Em nome do medo do legalismo, está surgindo uma postura crítica que reduz a contribuição adventista a um angu ralo, compreendendo estar salvo em Jesus, aguardar sua volta e descansar no sábado. O dia em que adventismo for apenas isso, teríamos de admitir que Deus tem pouco a dizer aos seres humanos, inquietos em sua ânsia pela verdade. Felizmente, não é o caso!

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2 comentários:

claudio disse...

Você toca no ponto sensível quando fala de obediência ao "escrito". mas foi esse mesmo senso do "escrito" que conduziu ao farisaísmo da nação de Israel. o que mais labutamos hoje como pastores é a fuga de uma fundamentação de conduta apenas no "escrito". isso é fundamentalismo puro, não?

lembre-se de que Jesus, no momento em que foi consultado sobre a mulher de João 08, foi apelado pelo está escrito em Moisés. ele aplica sabedoria nessa e noutras questões, como no deserto da tentação. se ater apenas ao que está "escrito" não contraria o senso de que a revelação se atualiza hoje?

o apelo ao que está "escrito" já criou uma legião de seguidores da soterologia da soja, além de outros que se salvam pela saia... o problema é mais profundo que se imagina.

a religião do coração e da comunhão ainda parece ser o caminho a ser apontado, embora essa relação espiritual seja mediada pela Escritura e pelo discernimento do Espírito. passar disso, só descamba em antigos problemas. ou não?

só reflexões sobre conflitos que encontro todo santo dia na lida com a igreja...

douglas reis disse...

Oi, amigo.
É sempre bom tê-lo aqui, para somar com suas ponderações.

Não vejo que o problema esteja com o que está escrito e ao apego a isso. A questão do farisaísmo, como explorei em outro momento, creio estar relacionada com um fanatismo tão grande que foi capaz criar um código de leis para proteger, explicar,e ampliar o sentido das leis de Deus. Penso que seja um caso de zelo excessivo, diferente da obediência fiel.

Da mesma forma, não vejo que Jesus contrarie a lei de Moisés na questão; afinal, o Desejado de Todas as Nações mostra que faltava um elemento crucial exigido pela lei em caso de acusações de adultério - o homem envolvido! Isso em si já anularia o processo...

Quando você diz que a revelação se atualiza, entendo perfeitamente sua preocupação: deve haver contextualização e os princípios bíblicos precisam fazer a diferença na vida prática das pessoas nessa época.

Obverso que essa ênfase adventista é diferente do que alguns cristãos de cunho carismático creem - que a revelação se renove no sentido de Deus falar diretamente ao coração do crente, quase que pondo a Bíblia por completo de lado. Há uma oposição entre o Espírito e a Bíblia, o que é preocupante.

Nós adventistas acreditamos que o Espírito esteja à disposição de toda a alma sincera que o busque para que Ele ilumine a compreensão das Escrituras. Assim poderemos evitar interpretações meramente humanas, as quais divergiriam entre si, sem chegar a lugar algum.

Um abraço.