quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ANO NÃO TERMINA, ELE SE DILUI


Ansiosas pelo espetáculos dos fogos nos grandes centros, expectantes pelas guloseimas na reunião de família ou se fazendo promessas remissivas – em todo caso, as pessoas demonstram assaz expectantes quando se trata dos momentos finais de um ano. A própria surpresa pelo fato de o ano estar nos deixando leva a comentários do tipo “como o tempo passou” ou “parece que foi ontem que começávamos esse ano”. Em tudo, testemunhamos ritos de passagem. De certa maneira, eles surgiram como memória simbólica. A questão é que os símbolos estão nus na era do consumo. É o mundo líquido, no dizer de Bauman, erodindo os memoriais do ocidente – água mole em pedra dura…
 O que quer tudo isso? Que a vida perdeu significado em uma sociedade marcadamente relativista e de moral utilitária. Logo, a ansiedade do fim de ano, que em algum tempo levava à reavaliação da conduta e à formulação de propósitos específicos dali por diante (algo que se degenerou para as fúteis promessas de fim de ano), parece cair em ouvidos moucos. Até bate uma ansiedade, porém a reflexão que ela naturalmente despertaria é sufocada por apelos de consumo e espetáculos que celebram o ano na forma de acontecimentos únicos elegidos pela mídia. E o ano de todos se reduz a alguns eventos marcantes, sem que se pare sequer para agradecer as pequenas realizações que Deus proporcionou no campo pessoal ou na vida da comunidade. A ação glocal das retrospectivas com ênfase no mundo das celebridades, esportes ou eventos anula a percepção de Deus interagindo na vida de Seus filhos.
E passada a ocasião do fim de ano, já surgem as primeiras festas saudando hedonisticamente o novo ano, quando menos ainda se reflete sobre o papel no mundo e os deveres e reponsabilidades cristãos. Somos arrastados em uma enxurrada de sentimentos eufóricos celebrando o milagre da vida, uma expressão que foi tão secularizada, que não se pode deixar de notar a ironia de haver milagre sem a figura de quem os orquestra.
Assim o ano segue, marcados por feriados e datas especiais, cada vez mais servindo como interrupção despropositada do trabalho. Não no sentido de que o descanso seja de todo inútil; apenas que o motivo inicial para a existência daquela data específica perdeu-se na história e, para a população em geral, mais vale ter um dia sem exigências trabalhistas, que tipicamente se degenera em razões para o ócio. O calendário cristão, em grande parte marcado por festividades católicas, é um exemplo típico de perda de propósito. Todavia, a questão se torna mais sensível por ocasião da Páscoa e do Natal, ambas épocas em que supostamente eventos espirituais estariam em pauta (mesmo que sem motivo bíblico para tais celebrações, sendo a primeiro abolida no Novo Testamento e substituída pela ceia do Senhor, enquanto a segunda jamais fora ordenada pelas Escrituras!): o que se vê são símbolos duvidosos – o coelho e o Papai Noel –, embalados pela cultura de consumo. Se são festas da fé, não seria injustos aclarar que tal fé seja tudo, menos a fé cristã!

O ano passa mais rápido, não por altercação do tempo: ele se liquefaz, porque a própria vida na pós-modernidade é líquida, como os sentimentos e compromissos que voam mais rápido do que as folhas do calendário. Para aqueles que servem a Cristo segundo a Sua Palavra, vale lembrar da reflexão suprema feita pelo próprio Mestre acerca das prioridades da vida (Mt 6:25-34) – sem dúvida, algo a ser considerado em todo o tempo, esteja o ano no seu fim, começo ou em qualquer outra época. Um discurso cujo essência não é apenas putativa ou do tipo que tenciona criar uma relação simbólica que remeta a outra sentido, mas ele próprio gerador de sentido e vida, porque essa era a intenção de Jesus ao proferi-lo. Quem diria que frases tão contundentes e apropriadas para esse tempo foram ditas há milênios? Mais uma demonstração de que, se tudo à volta passa, a Palavra de Deus dura para sempre (1 Pe 1:24-25).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ORAÇÃO COM CORAÇÃO PESADO


Eu subi a colina para ouvir o sacerdote, 
Andei a procura dos escribas nos lugares altos.
E encontrei discursos povoados de elogios
Como se a visão encontrasse cumprimento inequívoco.
Porém o sonho se derreteu no oceano
O vento mandou a névoa para o horizonte.
Nada restou para mim das promessas da carne.
Saí feito mosca atrás do que apodrecia,
Nada se aproveitou.
Volto meus olhos para o Senhor, esperança de Israel.
Aquele que recorre à mão do Altíssimo ficará em pé 
Seja por onde a planta de seu pé passar.
No Senhor meus olhos se fixam para achar repouso
Sua companhia é regato para o justo.
Por que se lamuriar, alma minha? 
Confia nAquele que organizou o Céu por Sua Palavra
Dando vida à matéria inanimada.
Toquem, trombetas de Israel, toquem.
Aclamem o Senhor que conduz Seu povo
E ao Ungido que deixou o pó.
A Verdade não será abatida,
Ainda que alguns dentre o povo fiquem esquecidos
E padeçam nas mãos dos poderosos.
O Senhor conduz aquele que confia em Sua Palavra.
Aleluia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

50 APENAS



Quando soube de ti, subiu o chão
Para perto do Céu. Súbito e doce
Foi dizer que virias, ainda fosse
Demorar para ver nosso grão.

E havia tanto amor à tua espera!
Dois pares de olhos com aquela pressa
De quem ama e na ação amor expressa…
O que mais belo foi, já não mais o era,

Que o belo em ti brilhou na luz de um sonho:
Eras maior do que outra bênção do ano
Ou da vida. Foi quando o nosso plano,
Não se sabe por que, ficou medonho:

Perdemos nosso grão. Em desalento,
As lágrimas nos cobrem. Rastro rubro
Te recolhe dos pais. Em dor descubro
Que sempre amarei quem foi um momento!


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

REPORTAGEM DO G1 EXALTA PRINCÍPIOS DE SAÚDE DOS AVENTISTAS


Em meio a uma paisagem urbana cercada por fast foods e lojas de conveniência, uma cidade na Califórnia conseguiu manter bons hábitos alimentares e alcançar uma expectativa de vida dez anos mais alta que a média dos Estados Unidos.
Estudos mostraram que os habitantes de Loma Linda vivem até dez anos a mais do que a média dos americanos (79 anos) e chegam à idade avançada com uma saúde melhor.
É um fenômeno notável em um mundo onde o custo da crise de obesidade é reconhecido como sendo tão prejudicial quanto o de fumar ou dos conflitos armados.
A longevidade tem ligação com a religião da comunidade. Os adeptos da Igreja Adventista do Sétimo Dia compõem cerca de metade dos 24 mil habitantes do local. É uma comunidade cristã evangélica que segue diretrizes rigorosas sobre alimentação, exercício e descanso.
"Os dados são claros. Foram publicados e revisados", diz Wayne Dysinger, presidente do Departamento de Medicina Preventiva da Escola de Medicina da Universidade de Loma Linda.
"Não há muita dúvida de que as pessoas que seguem este estilo de vida vivem mais tempo."

'Templo' do corpo

Loma Linda - em espanhol, "colina linda"- fica 100 km a leste de Los Angeles. É conhecida como a meca da vida saudável há décadas.
A cidade foi adotada pelos fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que na virada do século 20 compraram uma propriedade na área.
Ellen White, uma das líderes e pioneiras da Igreja, afirmou que se encantou com o charme do lugar.
Branca [em realidade, Ellen White era negra!], pequena e com uma personalidade forte, ela inspirou os ensinamentos da Igreja sobre questões de dieta, exercício e estilo de vida. White alega que suas crenças são baseadas em experiências visionárias – sonhos e conversas com Deus.
"Ela classificou o tabaco como um veneno maligno e lento em 1864", diz Richard Schaefer, historiador da biblioteca da universidade. Isso foi cem anos antes de a autoridade de saúde pública americana abordar o tema.
White, que tinha pouca educação formal, disse que o álcool danifica o cérebro. Ela também escreveu sobre os perigos de consumir muito sal.
"Os motivos disso eu não sei, mas repasso a vocês as instruções que me foram dadas", disse a pioneira, parafraseada por Schaefer.
Os adventistas creem que sua longevidade esteja ligada ao respeito pelo corpo humano como um templo do Espírito Santo.
"Vocês têm o dever de reservar esse templo para o serviço de Deus, porque Ele nos fez", explica o pastor aposentado Belgrove Josiah.
"Por causa desse princípio, estamos muito preocupados com o que colocamos em nossos corpos."
"Não descartamos a ciência médica no geral, porque ela está muito relacionada com nos guiar sobre como tratamos nosso corpo", acrescenta Josiah.

Descanso

O modo de vida adventista envolve uma dieta principalmente à base de vegetais, exercício regular e um compromisso com a celebração do sábado como o dia de descanso.
Um estudo de longo prazo que começou em 1976, envolvendo 34 mil membros da igreja, concluiu que seu estilo de vida acrescentava um número significativo de anos para a média de vida. Os pesquisadores identificaram "surpreendentes" efeitos protetores de uma dieta vegetariana.
"Quando olhamos apenas para a mortalidade, os adventistas parecem morrer das mesmas doenças, mas eles morrem muito mais velhos" diz Larry Beeson, professor de epidemiologia da Universidade de Loma Linda.
Beeson participa de pesquisas sobre adventistas por mais de 50 anos.
Ele argumenta que a boa saúde não se deve apenas à dieta. Para ele, o que ocorre é uma mistura complexa de religiosidade, espiritualidade e compreensão de uma pessoa de sua crença em Deus, combinado com outros componentes do estilo de vida, como exercícios e apoio social.
Betty Streifling, por exemplo, tem 101 anos e ainda levanta pesos na academia de sua casa de repouso. Streifling vive em seu próprio apartamento, uma casa aconchegante, cheia de recordações familiares e móveis feitos por seu falecido marido. Ela frequenta uma aula de exercícios cinco dias por semana e faz um passeio matinal na rua.
Ela atribui sua longevidade a "viver uma vida pura, sem álcool, sem tabaco, ir para a cama cedo, louvando a Deus por sua bondade e pela bênção da vida".

Fast foods

É possível comprar um hambúrguer e batatas fritas em Loma Linda, mas no ano passado a prefeitura proibiu o funcionamento de novos "restaurantes de fast food com drive-through". O movimento foi pensado para "proteger a saúde pública, segurança e bem-estar" de seus moradores.
Existem mercados de agricultores e lojas de alimentos saudáveis fazendo sucesso com nozes e vegetais.
O estilo de vida de Loma Linda parece dar uma receita promissora para o bem-estar. Não é para todos, e a maioria dos adventistas reconhece que há diferentes graus de observância às diretrizes alimentares e sociais definidas pela igreja.

Mas há pouca dúvida de que esta comunidade pode esperar viver muito mais tempo do que a maioria das outras pessoas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

COMO OS ADVENTISTAS SE RENDEM NA UNIVERSIDADE


O conhecimento da verdade não pode servir como uma alienação justificável. Durante um congresso universitário, ouvi certo líder da igreja afirmar: “Não vamos combater teoria com teoria; vamos combater teoria com vida.” A declaração se deu no contexto da resiliência do cristão no ambiente universitário. Em virtude de tantos golpes filosóficos da academia contra a fé, o melhor seria viver com tal integridade que o evangelho demanda. Entretanto, o raciocínio, que cito como exemplo sintomático, apenas glamouriza a sina do crente como mártir em um processo de suicídio intelectual.
Crer não basta. A crença inspira. Ela opera como um alicerce para construção de teorias alternativas. O cristão piedoso sobrevive mudo ante as pressões da academia; já o cristão pensante, que não deixa de ser igualmente piedoso – uma coisa não exclui a outra! – faz a diferença no ambiente dominado por concepções seculares. Pensar, nesse caso, é o melhor testemunho que se dá sobre a própria fé.
Em um ciclo de palestras que proferir em uma grande igreja do Rio de Janeiro, uma senhora se manifestou.  Ela, professora universitária de filosofia, estava em crise:  em seu trabalho, criticava teoria vigentes; contudo, quando seus alunos lhe perguntavam o que ela defendia como verdade, surgia o dilema:  de que modo lhes apresentar que Jesus é a verdade, sem parecer simplista ao extremo?  Eu argumentei que a questão reside na base: sendo a filosofia essencialmente bibliográfica (uma observação que o próprio filósofo ateu Luc Ferry fez em um de seus livros), isso cria limitações para a expressão Intelectual. Todavia, sempre se pode recorrer a filósofos cristãos, desenvolvendo e ampliando a contribuição deles, sem ser simplista ou anti-intelectual.
Quando estive em Londres, conversei com um professor de educação física, companheiro de viagem.  Ele cursava mestrado e meu interesse se fixou nesse tema.  Quando lhe perguntei sobre a linha de pesquisa que adotara, o rapaz confessou: " Perante o pensamento da igreja, sei que isso está errado.  Mas é a linha que o meu orientador me recomendou."  Enquanto persistir a dicotomia artificial entre crença e pesquisa, fé e fatos, verdade religiosa e verdade secular, nosso cristianismo será reduzido a um compromisso irrelevante, tanto para a esfera acadêmica, quanto para o mundo real.

Precisamos raciocinar com clareza, apresentando a verdade entretecida com nossos pensamentos e ações.  Em cada área, a verdade deve se fazer presente, como um fio de ouro amarrando todas as pontas.  Não quero sugerir que isso seja fácil ou simples.  Se fosse, seria redundante escrever esse texto!  Porém, no momento em que estivermos focados nisso, haverá oportunidade de diálogo com pessoas que não endossam a mesma fé.  Com amor, respeito, integridade intelectual e maturidade poderemos ser usados por Deus para mostrar que os cristãos não deixaram o cérebro fora do corpo desde a ocasião de seu batismo.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

SUPER-PROMOÇÃO DE NATAL 2014


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

DEPUTADO QUER ENSINO DO CRIACIONISMO NAS ESCOLAS



Projeto do deputado Artagão Júnior (PMDB) propõe que seja incluído no currículo da rede estadual de ensino “conteúdos sobre criacionismo”, a teoria religiosa que nega a evolução das espécies e defende que Deus criou os animais e plantas da forma como é descrito na Bíblia. A proposta estava na pauta de ontem da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Paraná. Mas a votação foi adiada porque os parlamentares aguardam um parecer da Secretaria Estadual de Educação sobre a proposta, que deve voltar à pauta da CCJ na terça-feira que vem.
Na defesa da proposta, o parlamentar afirma que os estudantes ficam confusos ao aprender na escola o evolucionismo (a teoria científica oficial) e na igreja o criacionismo. “Ensinar apenas o evolucionismo nas escolas é ir contra a liberdade de crença de nosso povo”, justifica Artagão no texto do projeto.

Laicidade

A proposta já havia sido apresentada pelo deputado em 2007, mas acabou arquivada. “Não estou impondo nada nem dizendo o que é certo ou errado. Mas é importante a discussão de um tema em que a grande maioria da população acredita”, afirma Artagão. Para ele, o projeto não fere a laicidade do Estado. Segundo o deputado, não há nada que garanta que a teoria da evolução realmente ocorreu (a ciência, porém, assegura que a teoria já foi corroborada). Por isso não haveria motivos para que o criacionismo não seja discutido pela comunidade escolar.
Outros deputados têm visão semelhante. “Desde que a escola inclua também visões não teístas, não vejo problema”, diz o deputado Péricles de Mello (PT), ex-presidente da Comissão de Educação da Assembleia. “Justamente pelo fato de o Estado ser laico, ele pode contribuir com o diálogo religioso.” Péricles, porém, é contra a obrigatoriedade do ensino religioso e defende que os temas escolhidos para discussão com os alunos sejam definidos por um conselho.

Papa


A Igreja Católica tem posição favorável ao ensino do evolucionismo. Em uma declaração no fim do mês passado, o Papa Francisco afirmou que a teoria da evolução está correta e não é incompatível com a crença religiosa. O papa disse o mesmo sobre a teoria do Big Bang da criação do universo.


Colaborou: Márcio Xavier
Fonte: Gazeta do Povo

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

AUTOR ADVENTISTA LANÇA E-BOOK SOBRE FÉ NO CONTEXTO DIGITAL


O autor do livro Explosão Y, Pr. Douglas Reis, lançou esta semana o e-book Adventismo para uma nova geração – Como viver a fé em um contexto digital.
A obra discute o impacto das ferramentas digitais na formação cultural e espiritual do indivíduo cristão que professa a fé Adventista.  O autor aponta que uma das consequências desse contexto é a superficialidade, uma armadilha para quem deseja viver integralmente o cristianismo. Reis associa o tema à identidade adventista, atrelada à profecias bíblicas, também encontradas nos livros de Daniel e Apocalipse.
Ele explica que sentiu a necessidade de construir uma obra que abordasse, de forma clara e acessível, temas relevantes para a Igreja no início do século XXI.
 “Havia abordado parte do tema no livro anterior [Explosão Y], que segue uma linha mais acadêmica e atinge o público universitário. Agora desenvolvi a discussão da forma mais acessível, tanto quanto os temas permitem”, pontua.
A escolha por este formato, também foi intencional. Reis justifica que existem poucos materiais em português exclusivamente digitais produzidos por adventistas. “Além disso há possibilidade de oferecer um conteúdo importante por um valor acessível. Neste caso, quatro vezes menos do que se fosse impresso”, acrescenta.
O E-book pode ser adquirido por apenas R$7,60 no link http://dlvr.it/7NLMRG. Ou pelo Amazon: http://bit.ly/1yYfJjk.
O Pr. Douglas Reis é capelão e professor no Instituto adventista Paranaense (IAP). Entre livros e materiais de conteúdo cristão publicados, Reis finaliza sua sexta obra.

Fonte: site do IAP


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

PARA DEFENDER A VERDADE


Que as vossas palavras sejam de molde a exaltar a Palavra de Deus. Vivei e ensinai os princípios da reforma de saúde. Realçai vossa crença nas grandes verdades sobre as quais as pessoas cristãs em geral concordarão convosco. Ao defenderdes a verdade de Deus, deveis ser em todos os sentidos o exemplo dos fiéis. Ellen G. White, Conselho sobre Regime Alimentar, p. 547.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

LANÇAMENTO - ADVENTISMO PARA UMA NOVA GERAÇÃO (EBOOK)



Em uma era em que grupos de oração se formam pelo whatsapp e as pessoas leem a Bíblia em seus tablets e smartphones, a velocidade das informações pode sobrecarregar enquanto entretém. Sem contar que a influência das mídias, sobretudo das digitais, cria um senso de conexão, formatando a cultura. Prova disso: a espiritualidade do momento, a qual é bastante superficial. Uma verdadeira mescla de humor soft com apelos sentimentaloides. Todavia, os adventistas não podem deixar de lado o chamado profético feito por Deus. Sua identidade e sucesso estão atrelados à mensagem comunicada pela profecia bíblica, especialmente Daniel e Apocalipse. Os adventistas devem se recordar de quem são e a Quem servem.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SE OS ADVENTISTAS NÃO PENSAREM EM ESTRATÉGIAS, O QUE ACONTECERÁ?


Esse não será um texto de cunho esportivo. Todavia, para tornar claro meu argumento, recorrerei a um fato recente: o famigerado Brasil e Alemanha, partida da semifinal da copa do mundo. Sei do risco da estratégia; meus leitores não reagem bem a futebol e até publicações denominacionais são criticadas por se referirem ao esporte, mesmo quando a título de ilustração. Entretanto, espero que o leitor inteligente seja motivado a chegar ao fim do texto, ainda que em nome da curiosidade, marca primordial do espírito humano em todas as épocas.
Sem mais: o Brasil foi derrotado pela Alemanha. Outras seleções foram derrotadas em semifinais e não é incomum que o anfitrião sofra revés em uma copa do mundo. A partida ganhou repercussão pelo placar elástico: Alemanha 7, Brasil 1. Os gols alemães se seguiam com uma luxúria esportiva, uma garra, um não sei o quê de glamour que ganharam comentários pelo mundo todo. No Brasil, comentaristas, técnicos, jogadores, comissão técnica, todos se uniram em uma uniformidade quase plena de discursos. Parecia coisa ensaiada. Diziam, sem sequer corar, que aquilo era fatalidade, algo impensável, inusitado. Ficava a sensação de que pelas terras tupiniquins era desconhecida a exuberância do Bayern de Munique, base da seleção campeã da copa.
Ora, não me fale em fatalidade: fatalidade é aquele tipo de tragédia inesperada, incalculada, da qual ninguém pode ser culpado. Atropelar uma pessoa que correu na frente do carro é uma fatalidade: em muitos casos, o motorista nada poderia fazer para evitar a colisão. A explicação da derrota brasileira não se deve às forças getulistas ou a mistérios inusitados. O nome é despreparo, desorganização, desqualificação profissional, chame como quiser. Apostamos tudo no talento individual e esquecemos de que o futebol moderno é diferente daquele de Pelé & cia. Hoje se exige estratégia, tática, diminuir os espaços, marcar sobre pressão, etc.
Como avisei a princípio, o meu interesse não é esportivo. Ressuscitei a derrota homérica impingida sobre o Brasil para refletir sobre nosso espírito nacional no campo eclesiástico. Qual a relação? Assim como nos esportes, gostamos de atribuir sucesso (antecipadamente) ao pretenso talento. Não nos planejamos e escolhemos (propositadamente) as soluções simplistas, evitando reflexões sérias e mudanças necessárias.
Porém, os tempos exigem outras abordagens. Olhe a Igreja Adventista nos EUA: associações encolhendo (um amigo me dizia que em um ano, sete associações se fundiram em duas!), crise nas publicações (a Pacific Press e a Review se fundiram, para equilibrar o fracasso financeiro que vinham acumulando) e uma membresia cada vez mais envelhecida. Pensamos que aqui seja diferente. Os membros são envolvidos na missão. As publicações, fortes (a colportagem bate recordes a cada ano). Muitos batismos. Novas igrejas e campos sendo abertos. Ou seja, nosso talento conduz a um sucesso notável.
Porém, os números contam outra história. Crescimento de membros ínfimo, perto do crescimento populacional. Divisões de campos que apenas geram mais gastos organizacionais. E isso sem contar com as mudanças que se avizinham: o que se vive na Europa em termos de secularização e que os EUA passaram a viver nas últimas décadas, já começa a despontar no Brasil. Quando a secularização amadurecer, como os adventistas sul-americanos reagiram? Não muito bem, infelizmente.
Antes de me acusar de pessimismo, é só parar e pensar: se temos importado o que os adventistas americanos fizeram (que, por sua vez, importaram ideias e metodologias do mundo evangélico), como poderíamos esperar nos sair melhor do que eles? A estratégia errada irar gerar fracasso. E isso não poderá ser atribuído à fatalidade. Se o plano divino fosse fielmente seguido nos territórios em que a igreja enfrenta dificuldades, os resultados seriam mais encorajadores. Um amigo que participou de um projeto de missões no Uruguai me disse isso. Todos falam da secularização naquele país. Entretanto, como ele comentava comigo, em cada esquina há um terreiro de macumba – religião afro que nem sequer é originária do país (é, aliás, bem brasileira). A letargia de muitos adventistas uruguaios é que enfraquece os esforços evangelísticos.

Deus nos convida para irmos a Ele e encontra-Lo em Sua Palavra. O Divino técnico nos dará a estratégia vitoriosa, como fez com Josué (Js 5:13-15; aliás, Deus usa metáforas de guerra no texto, mais fortes do que as esportivas…).

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

IV SIMPÓSIO DO IAP TRATA SOBRE A REVELAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE


O livro foi escrito pelos palestrantes, a maior parte doutores em teologia e professores de seminários.

Diante das opiniões em relação à idoneidade de seus súditos cristãos, o imperador romano Trajano infiltrou naquela comunidade um de seus conselheiros, para que trouxesse um relatório sobre quem eram os seguidores de Cristo e que tipo de prejuízo poderiam trazer ao seu governo. Passado o tempo determinado, o enviado, Plínio, apresentou-se ao imperador com a seguinte conclusão: os cristãos são os melhores cidadãos do seu reino, justos, honestos, pagam seus impostos… No entanto, vivem aqui, como se fossem estrangeiros.
 “Em minha opinião essa é a melhor definição do que é ser um cristão, em qualquer época e contexto. Precisamos impactar positivamente o meio em que vivemos com as nossas práticas, sem nos influenciarmos, a ponto de perdemos nossa identidade”, contextualiza o Pr. Jean Zukowski, PhD em História do Cristianismo pela Andrews University, durante o debate teológico promovido no IV Simpósio Universitário do Instituto Adventista Paranaense (IAP). “Para que os cristãos sejam relevantes no contexto pós-moderno precisam viver as mensagens que pregam. Saber aplicar princípios, sem se aculturar”, complementa.
Durante os três dias do evento, 19 a 21 de setembro, cerca de 200 inscritos assistiram as palestras, participaram dos workshops e debates relacionados ao tema central do programa. O resgate do papel da Revelação cristã no contexto pós-moderno foi a base para todos os temas apresentados.
Evangelismo – O Pr. Natal Gardino, um dos palestrantes, coordena em Curitiba-PR, o Espaço Novo Tempo, uma célula evangelística da Igreja Adventista do Sétimo Dia que visa ensinar doutrinas bíblicas a pessoas com características pós-modernas. Gardino explica que os pós-modernos são críticos, porém cultos; autocentrados, mas espiritualizados. Estão abertos a novas ideias, no entanto, não admitem incoerência entre o pregador e a mensagem. “Há uma grande diferença entre tradições e princípios. Precisamos compreender e estudar cada um desses conceitos na Bíblia e na história do movimento adventista. É preciso também se aprofundar nas doutrinas bíblicas e compreender o objetivo da igreja adventista para não perdermos o foco. Para alcançar essas pessoas é necessário modificar nossa abordagem, mas nunca, nossos valores e princípios”, enfatiza o pastor ao apresentar uma proposta adventista para evangelismo em grandes cidades, tema do doutorado que desenvolve na Andrews University, Estados Unidos.


O Pr. Valdecir Lima, Unasp-EC, foi capelão no IV Simpósio do IAP

De acordo com o doutor em Teologia Histórica, Fábio Augusto Darius, professor de filosofia no Centro Tecnológico da Universidade de Caxias do Sul, as pessoas estão abertas para compreender os princípios adventistas.  Não apenas o que diz respeito ao estilo de vida, mas, também, às doutrinas bíblicas.  Por lecionar em uma instituição pública de ensino, Darius percebe que a principal inquietude ainda é o sentimento de que falta algo. “As pessoas se percebem vazias e estão buscando de alguma forma preencher essa lacuna, sem saber por onde começar. Estão perdidas nessa busca. E o principal problema é que as soluções propostas ainda estão muito autocentradas, pois as pessoas se colocam no centro das decisões”, explica.
Princípios – Ensinamentos teológicos no atual contexto social é a ênfase dos temas aplicados no Seminário Adventista Latino Americano de Teologia, no Paraná. Durante quatro anos os alunos de teologia do IAP serão preparados para atuarem nas mais diversas áreas da igreja Adventista, levando em conta os desafios dos grandes centros urbanos.
O professor Zukowski explica que um dos papeis da academia é levar pessoas a perceberem onde estão as bases filosóficas que motivam suas ações e decisões.  “Não existe prática sem teoria. Nossas práticas estão sempre pautadas em teorias, mesmo que você as desconheça. Se você não sabe qual é a base filosófica da sua prática, não faça. Por que é possível errar, mesmo bem intencionado”, aconselha.


Em primeiro plano, Jean Zukowski, Fábio Dárius, Natal Gardino, Douglas Reis e Jônatas Leal

E quando o tema é evangelismo, o Pr. Valdecir Lima, mestre em Educação e orador do Simpósio, alerta: “Seja coerente. Para exercer influência sob outras pessoas precisamos estar aos pés de Jesus. E como podemos fazer isso? Passando tempo com Ele. Ao ler a Bíblia e permanecendo em oração. Jesus é a essência do evangelho. Não alcançamos as pessoas com planos próprios, mas com os planos de Deus. Testemunho pessoal: Essa é a melhor maneira de pregar o evangelho”, finaliza.
Cada participante levou para casa um exemplar do Livro A Restauração do papel da revelação cristã na pós-modernidade: uma perspectiva adventista, produzido especificamente para o evento.  O material não será comercializado, no entanto, algumas cópias foram doadas para instituições como a biblioteca da Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Faculdade Adventista da Bahia, Centro Universitário Adventista de São Paulo, Engenheiro Coelho, entre outras sedes administrativas da igreja adventista.

 “Acredito que os objetivos traçados foram atingidos, uma vez que a Revelação recebeu tratamento adequado e foi destacado seu papel fundamental para a construção da identidade adventista”, conclui o Pr. Douglas Reis, organizador do IV Simpósio Universitário em parceria com o grêmio Universitário da Faculdade IAP.

Fonte: IAP


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O DOM PROFÉTICO NO LIVRO DE NÚMEROS



Ao longo do Antigo Testamento, percebe-se a comunicação de Deus com Seu povo por intermédio dos profetas, o que ocorreu em ocasiões de maneiras diversas (Hb1:1). Todavia, o profeta sempre é reconhecido como aquele que fala pelo divino, sendo que em a terminologia bíblica inicial fala que o espírito do Senhor veio sobre a pessoa, enquanto a terminologia mais tardia é “veio a mim a Palavra do Senhor”.[1] Basicamente, os profetas comunicavam a Palavra de Deus para situações presentes, confrontando o pecado de Israel, mas também intercediam pelo povo diante de Deus.[2]
Apesar de associar-se profetas aos livros que o escreveram ou aos livros históricos, encontramos exemplos e manifestações proféticas no Pentateuco. Aliás, é justamente no Pentateuco que ocorre a primeira menção à palavra “profeta” (Êx 4:16). No livro de Números, o qual narra a travessia do povo de Israel até Canaã, em continuação aos episódios referidos no livro de Êxodo, em meio a sua variedade de temas e gêneros literários[3], há passagens que abordam o tema do dom profético. Nesse artigo, analisaremos brevemente algumas referências a profetas em Números, focando três narrativas distintas: (1) O episódio em que Deus repartiu seu Espírito sobre os líderes de Israel (Nm 11), (2) a controvérsia envolvendo Moisés e seus irmãos (Nm 12) e, finalmente, (3) a chamada “perícope de Balaão” (Nm 22-24).
Em virtude do limite de espaço, faremos considerações pontuais sobre os três episódios, focando no que o livro de Números ensina sobre o dom de profecia. Ao fim, apresentaremos o resumo de nosso estudo, juntamente com um esboço de uma possível teologia de Números sobre o dom profético.

O Espírito Repartido

O contexto de Números 11 trata de uma crise que enfrentava a liderança de Moisés. A queixa, fomentada por estrangeiros entre o povo (Nm 11:4), estava relacionada a razões dietéticas (Nm 11:4-6). Diante da pressão popular (Nm 11:10), Moisés queixou-se com Deus e mostrou a exaustão que sua responsabilidade lhe causara, a ponto de admitir que não tinha condições de continuar liderando sozinho o povo, preferindo a isso a própria morte (Nm 11:14-15). Após atender a demanda do povo de forma miraculosa, Deus decidiu repartir o Espírito dado a Moisés entre outros setenta líderes, que passaram a profetizar, o que fizeram apenas nessa ocasião (Nm 11:24-25). O contexto sugere que “houve distribuição tanto qualitativa como quantitativa do espírito do Senhor.”[4]
Curiosamente, duas autoridades que faziam parte do grupo, Eldade e Meldade, também profetizaram, fazendo-o no meio do acampamento (Nm 11:26), razão de despertar-se os ciúmes de Josué (Nm 11:29), o jovem auxiliar de Moisés. Ciúmes ou zelo, nesse caso revela que Josué deseja que Moisés continue sendo o único líder.[5] Obviamente, era um zelo fora de lugar.[6] A resposta de Moisés indica uma disposição não de monopolizar os dons divinos, mas de vê-los livremente atuando na comunidade (Nm 11:29).

Desavença entre Moisés e seus irmãos

Uma nova crise atinge Moisés em Números 12, desta vez com um caráter familiar. Seus irmãos passaram a criticá-lo em decorrência da etnia de sua esposa (Nm 12:1-2). Para sanar a questão, Deus convocou os três irmãos e, em defesa de Seu servo, explanou a diferença entre Seu contato com os profetas e a maneira como se relacionava com Moisés (Nm 12:6-8).
O termo profeta (nabi), que aparece no verso 6, é o mesmo referido quando Moisés expressou seu desejo de que todo o povo profetizasse (Nm 11:29). Deus se comunica com os profetas tradicionalmente por sonhos (Chalowm, palavra que aparece com mais frequência no livro de Gênesis, mas apenas aqui no livro de Números) e visões (Mar'ah, termo usado por profetas na época do exílio, como Daniel e Ezequiel). Porém, Moisés falava com Deus boca a boca, ou seja, face a face. Quando junto com o povo, Deus se manifestava a ele por meio de Sua presença no santuário; mas quando a sós, era como se Deus lhe permitisse estar dentro da tenda sagrada.[7] O contato de Moisés com Deus era, portanto, “mais regular e familiar” em relação àqueles que possuíam uma experiência profética.[8] Assim, Arão e Miriã, também relacionados entre os profetas (Dt 18:15; 34:10), deveriam respeitar seu irmão, uma vez que ele “é posto à parte e acima dos profetas.”[9]

A perícope de Balaão

Israel chegou à estepe de Moabe. Sem dúvida, diante de uma eventual invasão israelita, Balaque formou uma liga Moabe-Midiã (Nm 22:4), sendo a solução encontrada em consenso (Nm 22:5, 6): a única forma de conter o avanço do povo santo era amaldiçoá-lo. Para o serviço, contataram Balaão, cuidando, na mensagem destinada ao vidente, em não mencionar quem era o inimigo, a fim de evitar um conflito de interesses, uma vez que ele consultaria o Deus de Israel para amaldiçoar Seu próprio povo.[10]
É muito debatido o status de Balaão: profeta legítimo ou mero vidente? O termo que lhe é atribuído, “adivinho”, é “pejorativo ou apresenta sentido negativo, especialmente nos livros proféticos.”[11] Por mais inverossímil que tal personagem pareça, a arqueologia descobriu um conjunto de relatos em paredes de gesso do século VIII a.C, o qual guarda paralelos com essa narrativa bíblica. No relato, Balaão é mencionado e descrito como estando em associação com vários deuses; apesar disso, não se pode descartar que ele tenha sido um monoteísta no passado, especialmente por viver em uma geografia que o ligava aos arameus, antepassados de Abraão e seus descendentes.[12]
Outras descobertas se relacionam a Mari, cidade situada entre a Babilônia e Alepo. Ali se praticava o profetismo pagão e os achados nos informam sobre esta prática no Antigo Oriente próximo. Basicamente, havia profetas que se constituíam oráculos sacerdotais (muitos deles também praticantes da prostituição sagrada) e profetas extáticos. Embora não se explique o fenômeno da revelação entre eles, “é possível que os prognosticadores extáticos da Mesopotâmia usassem substâncias que alterassem a percepção, como álcool, haxixe ou esporão de centeio [com efeitos alucinógenos[13]].”[14]
É digno de menção que Ellen G. White afirma que Balaão possuía conhecimento (ao menos parcial) sobre o Deus verdadeiro,[15] o mesmo juízo expresso pela literatura rabínica.[16] O próprio Balaão utiliza uma palavra em seu terceiro pronunciamento, traduzida como “palavra” ou “oráculo” (Nm 24:3), cujo sentido indica “declaração profética inspirada (2 Sm 23:1) ou uma declaração do Senhor (e.g. Gn 22:16; Nm 14:28; Is 1:24).”[17]
Apesar de inicialmente Deus vetar Balaão de atender ao convite de Balaque (Nm 22:12), Ele o permitiu após um segundo encontro com o vidente (Nm 22:20). A viagem deve ter durado cerca de 20 dias.[18] Contudo, durante a ida do profeta, por três vezes sua montaria interrompeu o curso da viagem (Nm 22:23-27). A reação de Balaão foi castigar severamente sua jumenta (Nm 22:27). Curioso é perceber o contraste entre as consequências da ira divina (causa da intervenção do anjo) e as inconsequências da ira humana (vista na atitude de Balaão contra o animal). No momento em que Balaão se mostrava mais irracional, Deus tornou a jumenta racional. Até um animal usado por Deus age com mais inteligência do que um homem obstinado no erro. Com efeito, Deus pode usar qualquer pessoa ou coisa, como alguém já considerou:

Da mesma forma que Balaão cavalga a sua mula até ser ela detida pelo anjo do Senhor, Balaque igualmente impulsiona Balaão a amaldiçoar Israel até que é detido pelo seu encontro com Deus. Da mesma forma como Deus abre a boca da mula, ele colocará as Suas palavras na boca de Balaão, para declarar a sua vontade. Este paralelismo entre Balaão e sua mula sugere que a capacidade de declarar a Palavra de Deus não é necessariamente sinal da santidade de Balaão: revela somente que Deus pode usar qualquer pessoa (e até um animal) para ser Seu porta voz.[19]

Obviamente, o episódio serviu de alerta para que Balaão apenas dissesse o que Deus mandasse (Nm 22:35), compromisso que se viu obrigado a cumprir, mesmo à revelia de seu contrato com Balaque. A respeito de seus oráculos, depreende-se deles o quão precioso e notável é Israel para Deus, a ponto de ser considerado especial, entre todos os povos da Terra![20] Um comentário assevera que como “o primeiro e o segundo oráculos, o terceiro se refere às bênçãos de prosperidade, poder e fama […]”.[21] Talvez se possa dizer com maior precisão que, enquanto os dois primeiros poemas de Balaão se referem ao passado de Israel, os dois últimos apontam para o Messias vindouro.[22] Parece que Balaão se porta como autêntico profeta em seus pronunciamentos finais.[23] Até mesmo a palavra que é usada para suas visões (Machazeh) é usada no Pentateuco em referência a aparição divina a Abrão (Gn 15:1).
No último pronunciamento feito pelo vidente, temos a compreensão de que se descreve o rei messiânico como “experimentando um novo Êxodo escatológico, recapitulando em sua vida os eventos do Israel histórico no seu Êxodo do Egito e conquista de seus inimigos.”[24] No mundo antigo, a estrela representava uma divindade. Considerando isso e a difusão dessa profecia de Balaão em meio ao paganismo,

Não é coincidência que uma estrela guiasse os magos do oriente ao bebê Jesus em Belém (Mt 2:1-11). Tanto os magos como Herodes consideram a estrela como sendo um sinal do divinamente designado “rei dos judeus” (2:2), um governante como a “estrela” davídica fora de Jacó que Balaão viu (Nm 24:17). Nesse caso, o recém-nascido Rei era o Filho de Deus (Lc 1:32-35), cuja origem era celestial, divina (Jo 3:13, 31; 6:38, 51), tornando o símbolo da estrela ainda mais apropriado.[25]

Dessa forma, as profecias de Balaão alcança uma realização escatológica, apontando para o Messias vindouro. Que um profeta pagão antevisse a vinda do Salvador da humanidade é de causar assombro!

Conclusão

No livro de Números, encontramos menção a episódios envolvendo manifestações proféticas ou alusões ao tema. Neste artigo, tratamos de três menções, duas delas envolvendo Moisés, outra, não. No primeiro caso, vimos como Deus concedeu temporariamente o dom de profetizar aos anciãos de Israel, mostrando que as responsabilidades da liderança mosaica estariam divididas entre eles. Apesar da medida haver desgostado Josué, o próprio Moisés afirmou que seria muito melhor se todo o Israel recebesse uma parte do Espírito distribuído à liderança. No segundo caso, em meio à uma desavença familiar que afetava a imagem de Moisés, Deus expressou seu íntimo relacionamento com seu servo, superior à experiência profética e, sem dúvida, um caso peculiar, talvez sem paralelos na História do antigo Israel. Por fim, verificamos nos relatos envolvendo Balaão que o Senhor usou um vidente pagão para abençoar Seu povo, agindo de forma soberana para mostrar que Israel era distinto das demais nações e que lhe estavam reversadas bênçãos futuras, em continuidade a tudo o que Deus já lhes havia proporcionado. Também a promessa messiânica é afirmada por meio de Balaão e, surpreendemente, para um auditório pagão.
Revisando as três passagens, sugerimos as seguintes implicações para uma possível teologia do dom profético no livro de Números: (1) Deus é Soberano na escolha de Seus mensageiros, podendo, em casos específicos, fazer uso de pessoas não diretamente ligadas ao Seu povo, para eventualmente transmitir verdades, embora regularmente Se revele a pessoas que desfrutam de um relacionamento com Ele; (2) O Espírito do Senhor é imputado de maneira sobrenatural ao profeta, condicionando-o a exercer um ministério em favor do povo de Deus, maiormente para guia-lo em assuntos espirituais; (3) Mesmo um profeta necessita reconhecer e respeitar líderes instituídos por Deus, não os desrespeitando ou discriminando arbitrariamente.



[1] John J. Schmit, “Preexilic Hebrew prophecy”, in David Noel Freedman, The Anchor Bible Dictionary (New York, NY: Doubleday, 1992), 482.
[2] Robert L. Cate, “Prophet”, in Watson E. Mills, Mercer Dictionary of the Bible (Macon, Georgia: Mercer University Press, 1990), 715.
[3] Jacob Milgrom, Numbers - The JPS Torah Commentary (Philadelphia, NY: The Jewish Publication Society, 1990), xiii.
[4] Ibid., 90–91.
[5] Timothy R. Ashley, The Book of Numbers – The New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing, 1993), 216.
[6] Philip J. Budd, Numbers - Word Biblical Commentary (Waco, TX: Word Books Publisher, 1984), 129.
[7] Milgrom, Numbers, xxxviii.
[8] Budd, Numbers, 137.
[9] Milgrom, Numbers, 95.
[10] Roy Gane, Leviticus, Numbers – The NIV Application Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2004), 690.
[11] Charles H. Savelle, “Canonical and Extracanonical Portaits of Balaam,” Bibliotheca Sacra, 2009, vol. 166, no 664, 390.
[12] Gane, Leviticus, Number, 690–691.
[13] Trata-se de uma espécie de fungo parasita conhecido como ergot (Claviceps pupura).  O fungo afeta o centeio e outros cereais, provando diversos sintomas em seres humanos, inclusive alucinações, podendo levar à morte por envenenamento. A bióloga Linnda R. Caporael sugeriu em seu artigo Ergotism: The Satan Loosed in Salem? que o esporão de centeio teria causado alucinações em Elizabeth Parris e outras meninas de sua vila, caso que gerou uma perseguição à mulheres de Salém, acusadas de bruxaria. Daí nasceu a conhecida lenda das Bruxas de Salem. Ver Robin Robin DeRosa, “Specters, The Salem Witch Trials and American Memory” (dissertação de doutorado, Boston, MA: Tufts University, 2002).
[14] R. K. Harisson, Numbers: A Exegetical Commentary (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1992), 294.
[15] “Balaão já havia sido um bom homem e profeta de Deus; mas apostatara e entregara-se à cobiça; todavia professava ainda ser servo do Altíssimo. Não ignorava a obra de Deus em prol de Israel; e, quando os enviados comunicaram sua mensagem, bem sabia que era seu dever recusar as recompensas de Balaque, e despedir os embaixadores. Mas arriscou-se a contemporizar com a tentação […]”Ellen Gould White, Patriarcas E Profetas, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), 16a ed., 2a imp., p. 439,
[16] Savelle, “Canonical and Extracanonical,” 397.
[17] Gane, Leviticus, Numbers, 709.
[18] T. Carson, Números, in F.F. Bruce, Comentário NVI: Antigo E Novo Testamento (São Paulo: Editora Vida, 2009), 1a reimpr. da 1a ed., 335.
[19] Gordon J. Wenhan, Números: Introdução E Comentários – Série Cultura Bíblica (São Paulo, SP: Vida Nova, 2011), 4a reimp. da 1a ed., 175.
[20] Raymond B. Dillard and Tremper Longman III, Introdução Ao Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Vida, 2006), 87.
[21] Anastasia Boniface-Malle and Tokunboh Adeyemo, in Comentário Bíblico Africano (São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2010), 198.
[22] Martin G. Kingbeil, “Poemas en medio de la prosa: poesía insertada en el Pentateuco”, in Gerald A. Kingbeil, Inicios, paradigmas y fundamentos: estudios teológicos y exegéticos en el Pentateuco (San Martín, Entre Ríos: editorial Universidad Adventista del Plata, 2004), 81.
[23] Ver (a) Dennis T Olson, Numbers (Louisville: John Knox Press, 1996), 147; (b) Eugene H. Merril, Kingdom of Priest: A History of Old Testament Israel (Grand Rapids, MI: Baker Publishing Group, 2008), 2a ed., p. 107.
[24] Richard M. Davidson "A Estrutura Literária Escatológica Do Antigo Testamento", Timm et al, "O Futuro: A Visão Adventista Dos Últimos Acontecimentos: Artigos Teológicos apresentados no V Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano em homenagem a Hans K. Larondelle” (Engenheiro Coelho, São Paulo: Unaspress, 2004), 9.
[25] Gane, Leviticus, Numbers, 713.