quarta-feira, 26 de março de 2014

POR QUE O ESTILO DE VIDA DOS ADVENTISTAS É DIFERENTE EM ALGUNS PAÍSES?


Frequentemente, alguém afirma que não faz sentido manter algumas regras na igreja. Afinal, isso é algo cultural. Muitos de nossos irmãos adventistas em outras localidades não se valem das mesmas normas de conduta. Um exemplo seria o uso de joias. Em muitas partes dos EUA e Europa é comum que as pessoas usem adereços como brincos, colares, correntes, pulseiras, etc. Se em tais lugares é lícito, por que aqui ainda temos barreiras com o assunto? Seria resquício de um conservadorismo legalista, que valoriza mais o exterior do que o relacionamento com a pessoa de Jesus?
Apesar de ter mencionado o caso das joias, não quero focar nesse assunto, que mencionei a título de exemplo. Tampouco poderia dar conta de explicar todas as pequenas e grandes diferenças entre as normas adotadas por comunidades adventistas ao redor do mundo. Isso seria assunto para um livro, com diversos colaboradores. Meu objetivo aqui é refletir em algo que passamos por alto quando lidamos com essa questão. Eu me refiro à secularização.
Embora a palavra secularização pareça mais popular em nossos dias, ela é antiga. Creio que pouco antes da segunda metade do século XX já se falava disso, senão bem antes. Basicamente, o processo de secularização significa a perda da influência da religião na vida prática. Uma sociedade secularizada toma suas decisões e estabelece seus valores sem buscar qualquer tipo de orientação espiritual, seja cristã ou não. Uma pessoa com a mente secularizada não deixa de crer em Deus, ou mesmo de frequentar a igreja. Apenas não se preocupa com Ele enquanto trabalha ou vive sua vida “secular”.
Hoje os sociólogos falam da “revanche do sagrado”, com a explosão de cultos e aumento do número de fiéis de praticamente todas as religiões, especialmente muçulmanos e cristãos. Entretanto, o secularismo contemporâneo assume novas formas, especialmente em função da mentalidade pós-moderna. Um dos componentes da pós-modernidade é o relativismo, que consiste em assumir que a verdade depende da perspectiva de cada um, variando de época em época e comunidade em comunidade. A verdade é uma construção social, um jogo, algo que criamos para viver bem. E quando as necessidades mudam, criamos novas verdades. Se a verdade já não é mais tão verdadeira assim, não vale a pena lutar por ela. Ao invés disso, consumimos as verdades que nos atraiam no grande mercado das religiões. E, ao mesmo tempo, as reduzimos à uma experiência entre quatro paredes. Quando saímos do templo, da mesquita, da sinagoga ou igreja, a verdade fica lá.
Como a secularização afeta a compreensão das normas que compreendem o estilo de vida? Ela as relativiza e diminui sua importância. E como a secularização afeta os países industrializados, as comunidades adventistas nesse contexto sofrem o impacto dessa tendência de forma mais acentuada. Não é de admirar que o estilo de vida dos adventistas não difira daquele adotado pelo restante da população em alguns estados norte-americanos e na Europa. Mesmo aqui no Brasil, há estados, cidades e bairros nos quais a secularização se faz sentir com mais impacto do que seria o esperado.
O antídoto para a secularização se chama reavivamento e reforma. Embora o processo  de deixar Deus para escanteio avance, o povo de Deus pode e deve resistir às pressões culturais que tendem a deformar sua identidade. Obviamente, a luta possui muitos matizes e há pormenores difíceis de lidar. Entretanto, quando nos unirmos em torno da revelação de Deus poderemos obter esclarecimento da parte dEle, enquanto, de outro modo, nos perderíamos em intermináveis discussões de opinião.

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sexta-feira, 21 de março de 2014

A VERDADE AZUL EM MEIO À AQUARELA SECULAR


A Verdade é azul. Não o é de fato, contudo, para efeito de exemplo, vamos dizer que o seja. Isso significa que tudo o que for preto ou cinza ou vermelho difere da verdade. Como agir com quem ama, defende e acredita nas demais cores, tanto (ou mais) quanto amamos, defendemos e acreditamos no azul? Vamos respeitá-los com a mais alta consideração. Ao nos aproximarmos de tais pessoas, ouviremos com atenção, e, munidos de intenções calorosas, mostraremos amizade e amor em gestos desinteressados. Oraremos por elas e, se possível, com elas. Aproveitaremos as oportunidades para usar de persuasão educada e lúcida. Exploraremos os melhores argumentos em prol do azul, com lógica e sensibilidade, sem ofender ou agredir.
Pelo fato de a Verdade ser azul, isso nos fará mais cautelosos. Há muitos tons de azul. Talvez a perspectiva cultural, personalidade e experiência nos façam acreditar que o azul claro seja mais distinto do que os demais tons. E o azul claro nos fará bem durante anos. Entretanto, disso pode nascer uma confusão, quase inocente, mas perigosa: confundir o azul revelado com o azul de nossa preferência. Se forçarmos os demais crentes no azul a crer em um azul particular, aquele que nos agrada, isso será despótico e pretensioso. Deus não nos pediu que promovêssemos divisões entre azuis, ignorando o parecer e interpretação dos outros. Afinal, há espaço para todo tipo de azul.
Sempre haverá pontos cuja tonalidade não poderemos distinguir com clareza – mesmo que continuem sendo todos azuis. Nisso reside o exercício de humildade, afeição pelo próximo e disposição de dar ao outro a mesma liberdade que nos apraz usufruir. Os azuis não precisam aceitar o mesmo tom para se reconhecerem como irmãos e seguirem com objetivos comuns.
Uma outra realidade: é provável que surjam elementos híbridos, como verde (azul acrescido de amarelo) ou roxo (azul miscigenado com vermelho). É igualmente possível que surja um laranja (cor complementar do azul). Por quê? Alguns alegaram que se requer adaptação à contemporaneidade; ou que o azul de antes seja o roxo de hoje; que a intenção seja mais relevante do que a cor propriamente. Entretanto, com a máxima consideração pelas opiniões divergentes, aqueles que desejam obedecer a Deus permanecerão com o azul.
De fato, não importa que em outro país as pessoas tenham se acostumado ao verde, misturando doses de amarelo com o passar do tempo. Tampouco fará diferença que algum líder proeminente seja visto defendendo o roxo. Deus dirige um povo e, simultaneamente, cada um dará conta de si. O ensino do azul continuará sendo sustentado sob toda pressão cultural de um mundo que não encara com bons olhos a intransigência e inflexibilidade de princípios. Porém, nós, azuis, sabemos qual a fonte de nossa crença.
Às vezes, é fácil justificar racionalmente a escolha pelo azul, explorando dados da ciência ou apelando à experiência ordinária. Nem sempre se dá assim. Ser azul é desafiar paradigmas e se ver contra a maré. É suportar a impopularidade. Surgirão situações em que não fará sentido crer no azul. Não haverá estudos que comprovem a supremacia da nossa cor; ela parecerá estranha à cultura ou desagradável aos costumes populares. O que fazer? Se Deus disse, isso tem de servir para sustentar a nossa confiança. Sobre Ele repousa toda certeza e Sua Palavra suplanta a experiência humana. Em um mundo de tantas cores, falta reconhecer a cor necessária. Aqueles que a têm, precisam comunica-la com sinceridade e comprometimento. Sem medo de ser diferentes ou parecer arrogantes.
A fome da verdade azul tem tornado tudo mais sombrio e pálido. Façamos nossa parte.

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terça-feira, 18 de março de 2014

O DEVER DE REPREENDER OS CRISTÃOS EQUIVOCADOS



Não consideramos que nossos perigos não são nada inferiores aos dos hebreus, antes maiores. Haverá tentações para ciúmes e murmurações, e haverá franca rebelião, tais como se acham registrados acerca do antigo Israel. Sempre haverá o espírito de insurgir-se contra a reprovação de pecados e ofensas. Silenciará, porém, a voz da repreensão por causa disto? Se assim for, não nos encontramos em melhores condições do que as várias denominações de nossa terra, as quais temem tocar nos erros e nos pecados dominantes entre o povo.

Aqueles que Deus separou como pregadores da justiça têm sobre si solenes responsabilidades quanto a reprovar os pecados do povo.

Ellen G. White, Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), vol. 1, 358.


terça-feira, 11 de março de 2014

HIPPIES OU CRISTÃOS?

Tudo seria mais fácil para João Batista se ele pregasse "paz e amor"...


Jovens, paz e amor, liberdade total e pregação autêntica daquilo que se crê. Muitos acham que isso é o cristianismo. Estão confundindo os movimentos: o nome dessa ideologia é movimento hippie. Cantar que “todos precisam de amor” é a musiquinha grudenta dos Beatles, que alguns incorporam para o não menos grudento estilo worship dos cultos renovados.
A miopia pós-moderna nos faz cegos à ira santificada de Jesus. Para aqueles que, com um non-sense adolescente, afirmam que deveríamos pregar o evangelho sem criticar os outros, minha sugestão: leiam Mateus 23. Jesus não fez um discurso florido sobre amor e ação social. Ele criticou os líderes religiosos por suas perspectivas equivocadas (Mt 23:13-31). Quem conhecer o mínimo possível o que dizem os evangelhos, verá que não foi um caso isolado.
 Jesus vivia em disputa com fariseus, saduceus, herodianos e todo tipo de gente portadora de uma mensagem distorcida. Todos se lembram dos fariseus, os rígidos conservadores. Pouca gente se recorda dos saduceus, liberais acomodados com a cultura greco-romana.  Não restam dúvidas que hoje há muitos fariseus adventistas, mas os saduceus continuam no poder (como, aliás, já detinham na época de Jesus).
Os opositores da mensagem do Céu recebiam epítetos duros. João Batista os chamou de “raça de víboras” (Mt 3:7; cf.: Mt 23:33). Vê-se que o profeta não fora afetado pela epidemia do “paz e amor”. Quem lê as cartas de Paulo, sabe que ele não economizava nas palavras duras (1 Co 3:31-3; 4:19-20; 5:1-5; Gl 1:6-7, 9; 2:14; 3:1). O apóstolo Pedro também escreveu contra falsos mestres, de tendência libertina – liberais e mundanos (2 Pe 2:2-3, 12-14, 17-22). Se vivessem no mundo contemporâneo, João Batista, Jesus, Paulo e Pedro teriam seus sermões filmados por aparelhos móveis e compartilhados nas redes sociais. Os vídeos receberiam enxurradas de críticas daqueles que acham que deveríamos viver o evangelho sem criticar os outros!
Infelizmente, nossa cultura fez lavagem cerebral coletiva, removendo o senso crítico e colocando um sentimento róseo que aceita tudo o que o outro diz, sob a premissa de que o pior erro seria criticar qualquer erro! Obviamente, muita gente ainda não conseguiu entender que viver o evangelho se traduz por assimilá-lo em sua plenitude, o que envolve uma postura crítica diante dos erros populares. Assim andaram os profetas do passado, repreendendo o povo, apontando seus pecados, denunciando suas atitudes.
Pense em João Batista: qual era a relação dele com a família de Herodes? Aquilo não era “da conta dele”. Provavelmente, se tivesse se calado, viveria mais. Se João fosse o tipo de cristão com cérebro flácido, diria que era preciso aceitar e amar Herodes, sem dizer uma palavra, porque só o amor convence. Felizmente, o Batista preferiu sentenças condenatórias, porque constituía a vontade divina (Lc 3:19).
Hoje, quando um pregador age simbolicamente, rasgando orientações que não seguimos, isso nos incomoda, porque parece agressivo e ninguém aceita ser reprendido, porque nos achamos adultos e livres, “donos do próprio nariz”. Desdenhamos dessa coragem denunciatória, porque apontar os erros recebe o rótulo de coisa demoníaca. Falta fazer a diferença: o diabo nos acusa para desanimar e nos levar a crer que estamos perdidos em tantos e tão grandes pecados. Deus, por meio de mensageiros cheios de senso de dever, nos repreende como um pai, buscando a salvação de cada filho (1 Co 4:14; Hb 12:5-10). Salvação depende de arrependimento, não da sensação de bem estar quando o culto nos entretém com situações cômicas e músicas emotivas.
No fundo, queremos aceitar o evangelho desde que ele não nos incomode ou nos faça agir de um modo que nosso vizinho pense em contatar algum manicômio. Não desejamos a pecha de lunáticos e estranhos. Queremos o evangelho da calmaria, do “Jesus ama e salva, ponto final”. Para descontentamento geral, o Mestre disse que veio trazer espada e não paz. Em meio à controvérsia universal entre Jesus e Seu inimigo, conflitos são inevitáveis: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3:12; cf.: 1 Pe 2:12, 16, 19-20; 3:14-15; 4:12-13). O difícil é deixar o sofá da sala para suportar perseguição…

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domingo, 9 de março de 2014

ADVENTISTAS: O POVO DA DESCONSTRUÇÃO


Converse com dez adventistas. Pergunte-lhes se veem coisas erradas na igreja – dirão que sim, os dez, sem dúvida! Pergunte-lhes o que está errado. O problema começa aí. As respostas não seriam concordes. Muitas, seriam quase banais, relacionadas a questões locais, congregacionais. Temas como relacionamentos, incoerência, críticas a líderes, etc. Outras assumiriam uma dimensão mais ampla, afetando erros administrativos, estratégicos ou deficiências espirituais. O que há por trás de tudo isso?
Duas igrejas. Uma jovem, com pouco entendimento da história da igreja, querendo mudanças e imbuída do espírito deste tempo. Esta parcela de adventistas é formada por indivíduos cansados de crítica, sequiosos por mais ação. Acham que falta amor, justiça social e cultos mais dinâmicos. Querem uma igreja com a cara deles: jovem e descolada. Se pudessem, rapariam a barba de James White e fariam John Andrews usar penteado moicano.
A outra igreja, que está morrendo, abomina as mudanças. Refere-se aos “bons e velhos tempos”, quando a igreja “era outra”. Detestam as músicas barulhentas e a falta de sermões doutrinários. Reclamam dos rumos que o movimento adventista está tomando e chegam, em alguns casos, a falar de apostasia. Tenho a impressão que essa segunda parcela de adventistas se vê sem rumo, com pouco apoio e confusa diante de tudo que vê acontecer.
Quem está certo nessa discussão? Todos. Ninguém.
As mudanças devem acontecer. Os adventistas surgiram com uma proposta de mudança radical. Uma mudança que se inicia com a interpretação da Bíblia (hermenêutica), atinge as doutrinas comuns à cristandade e chega a uma abordagem diferenciada sobre estilo de vida. Contudo, engana-se quem creia que a ênfase esteja na mudança pela mudança. A mudança visa a um objetivo – desconstruir a tradição evangélica. Não se trata de uma desconstrução derridiana, porque me parece que Derrida propunha uma desconstrução visceral e nunca finalizada, uma mutação que se perde em um jogo de interpretação, sem a possibilidade de alcançar uma verdade palpável. A desconstrução adventista é do tipo que retira o entulho para reconstruir sobre o alicerce correto, os escritos inspirados.
Alguns querem mudar para acompanhar as tendências da cultura. Péssimo motivo. A cultura não é parâmetro para o cristão. A Verdade que recebemos na Bíblia tem aspectos tremendamente contra-culturais! Nesse caso, vale o dito segundo o qual “não se pode servir a dois senhores” – ou Deus, ou a cultura. As mudanças são mecanismos para nos aproximar da Palavra de Deus, cujo estudo deve ser renovado pela atuação do Espírito Santo.
Muitas das explicações doutrinárias que dávamos há trinta anos devem ser abandonadas, não porque a cultura mudou, mas porque estavam equivocadas e há explicações melhores do ponto de vista exegético. O avanço na pesquisa bíblica proporciona uma melhor fundamentação doutrinária – mas é impossível notar isso ouvindo (pela milésima vez) o mesmo sermão sobre o cego Bartimeu!
E para quê mudar a liturgia? Se for possível elencar boas razões bíblicas, eu apoio! Se for apenas para copiar o modelo de outras denominações ou congregações, isso é mera distração, quando não, algo nocivo, vindo da cultura secular. Já notou como se gasta tempo discutindo música, quando o Novo Testamento dá pouco espaço ao tema e Ellen G. White enfatiza o canto congregacional em sua simplicidade? Estudar a Bíblia, o ponto essencial do culto cristão, parece um caso perdido; deixe que o pregador leia alguns versos, conte trezentas histórias interessantes e voltemos para casa, porque é hora do almoço…

Em suma: nem como antes, nem com o tipo de mudança que se pede. Nem pela tradição dos anciões, nem pelo modismo do “viva sem criticar”. Os problemas existem porque a Bíblia está empoeirada e nós queremos diversão ou resgatar “a igreja da infância”. A solução? Como disse o profeta, no contexto da infidelidade do reino do norte, “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.” (Os 6:3).

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sexta-feira, 7 de março de 2014

UMA BREVE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DA VERDADE


A Verdade não é apenas impopular, como responsável pelos maiores conflitos na Terra e no Céu. Não é de estranhar que os melhores subterfúgios e as desculpas mais escorregadias sejam empregados para atenuar suas exigências. Amar a Verdade deveria ser a prioridade de todo cristão. Na prática, achamos mais útil exaltar tradições, gostos e opiniões, devidamente arquivadas sobre o rótulo de “eu acho que”, sob a proteção de “não me julgue”.
A Verdade levou um terço dos santos às cadeias e torturas, outro terço à perseguição e desmercimento e o último ao martírio e esquecimento. Por séculos, a disputa pela Verdade mobilizou as mentes mais inteligentes e os cidadãos mais nobres. Muitos viam o dever, e resistiam, pensado em sua posição social. Quantas conquistas humanas teriam de ser olvidadas? Quantos aplausos relegados ao ostracismo? A Verdade cobrou tributo dos corações sensíveis e corajosos, dos intelectos penetrantes e sinceros, dos homens práticos e habilidosos.
De repente, a Verdade sumiu da vista. Era o artigo em falta. A mercadoria que demandava uma busca minuciosa. Poucos podiam ler suas reivindicações encerradas na língua de Cícero. Todavia, os mosteiros não puderam conter sua luz. Ela irrompeu as trevas e foi levada ao povo, na pena de homens que ainda balbuciavam em seu caminho. Da luz, conheciam o mais tênue facho. E com isso foram capazes de reconstruir a História.
A Verdade continuou a ser embaralhada nas mãos daquele que lutava contra ela. Concílios, bulas, tribunais e ameaças ergueram-se com fúria. Depois, o interesse geral diminui, as pessoas se apegaram ao que conheciam – partes da Verdade, distorcidas como reflexos em um espelho quebrado. Deus planejou o tempo da restauração.
Um fazendeiro que a Guerra fez ver o cuidado divino estudou as profecias – a Verdade insinuava seu retorno. Foram décadas de esforços, pregações, desapontamentos, oração e estudo dedicado. A Verdade voltava ao palco livre da lama dos costumes. Contudo, havia um longo (e estreito) caminho a ser desbravado.
E novamente, a confusão e embaralhamento. As costas de muitos se virando à Verdade que os pode salvar. Ainda controvérsias e disputas. E o descrédito lançado às descobertas daqueles que amavam a Verdade por seus descentes céticos e afetados pela cultura (outra inimiga antiga da Verdade).
Nada disso conteve o poder germinador da verdade, por que ela jamais foi uma teoria morta, mas está associada ao Deus Vivo. Ele é o Deus da Verdade, que a fará triunfar junto com aqueles que se apegam a ela. Deixe que digam que são preconceituosos, mesquinhos, estreitos, fanáticos, irrazoáveis, antiquados – nada mudará o desejo humilde e servidão completa deles à Verdade. Para eles, ela importa mais do que julgamentos de um mundo passageiro.
Onde estão aqueles que sofrerão pela verdade? Que defenderão a doutrina correta? Aonde se clama pelo batismo diário do Espírito com humildade e confissão de pecados? Em que casa vivem os homens e mulheres fiéis ao dever como a bússola o é ao polo? Em que ponto da cidade podemos achar essas pessoas que fazem parte do remanescente de Deus e realmente se preparam para ser a igreja triunfante? Eles estão entre nós, são pessoas reais, com fraquezas e pecados, que choram, lutam e enfrentam seus problemas. E o que os anima? O amor pela Verdade. E isso basta.
A Verdade não pertence a eles (nem poderia, porque ela é autônoma e soberana). Mas em certo sentido é deles, por que Jesus, a Verdade, Se entregou por eles e lhes confiou a Verdade. Eles, por seu turno, pertence à Verdade. Cada dia mais. Sem medo do que ocorrerá. São livres. Possuem esperança. Nada os impedirá, porque o Reino lhes será entregue – o reino da Verdade. 


domingo, 2 de março de 2014

A GERAÇÃO DE ADVENTISTAS MAIS DESPREPARADA DA HISTÓRIA


Os ateus estão mais inteligentes? Não necessariamente. Os cristãos, em geral, ignoram o que creem? Completamente! E os adventistas em relação aos demais cristãos? São como gorilas do fim da fila, seguem o macho alfa.
Olhe para a cultura em geral: as pessoas fazem perguntas, há uma demanda espiritual, uma admissão à possibilidade de que as velhas respostas da tradição pudessem estar certas. E tradições não faltam, montando barraquinhas na feira-pública da contemporaneidade. Entretanto, nós adventistas não estamos preparados para nos mostrar nesse espaço. Talvez haja demasiada incerteza do produto que temos em mãos e de suas garantias. E, afinal, as barracas vizinhas gritam suas ofertas com tanta convicção!...
Como entender o drama? Um exemplo útil: os professores ufanistas acham bom os adolescentes lerem qualquer lixo, porque, oras, o importante é que leiam. Uma hora passaram de Rick Riordan para Machado de Assis. É tão ingênuo como achar que não há problemas em consumir batata frita, porque uma hora, por comê-las, alguém logo passará a se preocupar com uma alimentação realmente nutritiva! Esse tipo de otimismo que se agarra esperançoso no “menos-mal” acompanha os adventistas.
Achamos fantástico ver igrejas lotadas por programas de evangelismo dinâmicos. O importante é ver decisões sendo tomadas. Mudança de vida? Deixe para depois! Pelo menos, a pessoa entregou o coração a Jesus – como se o batismo fosse o passo que levasse a uma posterior renúncia de práticas mundanas. Não é.  O batismo é, em si, uma declaração radical de renúncia: “Simboliza o batismo soleníssima renúncia do mundo”, assinalou Ellen G. White. [1]
Todavia, estamos felizes! Gente com dificuldade de responder desafios intelectuais, de suportar tensões familiares e ser fiel? Menos-mal! Promovemos grandes eventos e a assistência corresponde em massa, sucesso! Porém, as dificuldades com respeito à vivência da fé confirmam a falta de embasamento de pessoas sinceras, falha no processo de discipulado (palavra ressurreta entre nós, mas que ainda precisa ser mais bem estudada). Quando se veem confrontados em sua fé, muitos sucumbem. Ensinaram-lhe que Jesus ama e salva (eterna e maravilhosa verdade); só esqueceram de instruir a raciocinar com base bíblica (a condição necessária para se manter na verdade). Salvação está condicionada à contínua tensão em lutar contra a tentação e obedecer a Deus. [2]
O adventista de décadas atrás levava certa vantagem: alguém lhe fazia decorar uma série de textos bíblicos e ele os repetia com toda convicção, sem perceber que muitos poderiam estar fora de contexto. Já os adventistas da geração atual, mencionam o que creem, sem saber por que creem exatamente – e ainda estranham quando ouvem o restante da história que ninguém lhes contou, aquelas verdades mais inconvenientes que deixaram de ser ditas nos púlpitos para não lembrar o pecador que ele é ... pecador!
Assim, heresias e ceticismo crescem como capim no terreno baldio que é a intelectualidade adventista. A mensagem mediada pelas pregações populares que chega confortável ao coração fica por aquela área mesmo, sem se dar ao trabalho de subir ao cérebro (ironicamente, quando a Bíblia fala de coração, refere-se ao centro da vontade, à mente como um todo, razão e emoção).
Quando o povo for instruído a amar a Bíblia e a gastar horas estudando-a, com a mesma paixão com que vai assistir programações que não passam de pura oba-oba gospel, aí as respostas vão surgir. Quando estudar a Bíblia deixar de ser um plano de escritório para ser algo transmitido olho a olho, o Espírito do Senhor falará ao remanescente.
O mais estranho? Deus nunca deixou de se interessar, com amor vívido e constante, por esse povo medíocre que estamos nos tornando! Mesmo quando nos falta o senso de autocrítica – e reagimos com frases de Facebook "não devemos julgar"; "cada um tem a sua opinião" –, Deus trabalha para nos despertar para as coisas essenciais, as quais estavam há muito sepultadas em glamorosos álbuns de fotos dos avós.
Acima de tudo isso, a Verdade imperará. Mas um alerta: somente para aqueles que a buscarem com esforço e coragem, amando o Senhor de “todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” (Mt 22:37). Agora, é com você.


[1] A citação completa diz: “Simboliza o batismo soleníssima renúncia do mundo. Os que ao iniciar a carreira cristã são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, declaram publicamente que renunciaram o serviço de Satanás, e se tornaram membros da família real, filhos do celeste Rei. Obedeceram ao preceito que diz: ‘Saí do meio deles, apartai-vos... e não toqueis nada imundo.’ Cumpriu-se em relação a eles a promessa divina: ‘E Eu vos receberei; e Eu serei para vós Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor todo-poderoso.’ 2 Coríntios 6:17, 18.’” Ellen G. White, Testemunhos Selectos, vol. 2, 389. Também aparece em Idem, Evangelismo, 307.

[2] “Todos estão sendo agora experimentados e provados. Fomos batizados em Cristo, e, se desempenharmos nossa parte em renunciar tudo que nos afeta desfavoravelmente, fazendo de nós o que não devemos ser, ser-nos-á concedida força para o crescimento em Cristo, que é a nossa cabeça viva, e veremos a salvação de Deus.” Idem, Conselho sobre Regime Alimentar, 23.