terça-feira, 29 de julho de 2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A SEMPRE CONTROVERSA RELAÇÃO COM A CULTURA


Cultura é uma palavra que não aparece na Bíblia. Basicamente, sua raiz indica o cultivo de algo, o que ganhou uma conotação mais ampla – hoje abrangendo praticamente as atividades humanas mais variadas, desde a produção de conhecimento e arte, a hábitos de vida de uma sociedade.
Não é tarefa simples avaliar a cultura por um prisma cristão. Para complicar, vivemos uma cultura em transição, devido às mudanças com viés tecnológicas, globalização, relativismo, entre outros fatores. Outro problema se levanta ao constatarmos que, uma vez que a cultura afeta quem somos, ela afeta nossa maneira de pensar e de entender as coisas. E se a cultura influencia nossa interpretação, o que isso representa para o estudo da Bíblia?
Quando se lida com a hermenêutica, definida aqui de maneira simples, como ciência que trata da  interpretação de textos, as implicações são mais profundas: podemos interpretar a Bíblia objetivamente ou estaríamos condicionados pela cultura a uma interpretação determinada, incapazes de entender o sentido original da Bíblia, o qual sempre nos escapará? Afinal, a cultura é um ponto de partida ou seremos, por assim dizer, reféns dela, limitados ao seu escopo?
Em realidade, a cultura, longe de ser algo estanque, é o que fazemos dela. Logo, é possível uma transformação da cultura, a partir da transformação de quem está inserido nela. Isso é significativamente diferente de afirmar que componentes culturais são imprescindíveis para a construção teológica, posição que os cristãos liberais adotaram desde cedo, pela maneira como enxergam o fenômeno revelação-inspiração: apenas como um contato místico, sem transmissão de conteúdo objetivo. Logo, os próprios escritores bíblicos, na visão dos liberais, são condicionados pela cultura – que dizer então dos intérpretes das Escrituras! A conclusão: afirma-se que o evangelho muda a cada geração, porque sua compreensão estaria sempre comprometida…
Sustentar que a Bíblia não pode ser compreendida senão à luz da cultura é uma afirmação que pressupõe um entendimento pós-moderno da hermenêutica. Antigamente, se cria em neutralidade – alguns até defendiam que a Bíblia deveria ser seguida, sem necessidade de qualquer interpretação. Não penso que isso seja possível; afinal, toda leitura pressupõem uma interpretação. Ao mesmo tempo, a admissão de que nossa compreensão é condicionada pela cultura pode levar a uma relatividade do entendimento. Isso cairia na teologia liberal, sem dúvida.
O que fazer? Muitos teólogos e filósofos falam de aproximação cultural. Isso se dá pela compreensão da intentio operis (intenção do texto, conceito proposto por Agostinho), que é soberana sobre a intenção do intérprete. Todo intérprete não pode ultrapassar as ideias do texto. Para compreendê-lo com clareza, deverá estudar o sentido que ele possuía aos seus primeiros leitores, perfazendo um jogo de aproximação que libertará o texto de mal entendidos. Na verdade, o intérprete pode mudar suas pressuposições hermenêuticas em contato com a obra (segundo parte da teoria de Gadamer).
Como isso se dá no estudo da Bíblia? Estudá-la acaba levando à assimilação de princípios hermenêuticos da própria Bíblia. Dito de outra forma: a Palavra de Deus nos transmite conceitos sobre como interpretá-la.  Pensadores pós-modernos gostam de nos lembrar que somos humanos, com conhecimento limitado. Mas isso não nos impede de conhecer a verdade de modo essencial, embora não de modo onisciente. Deste modo, não precisamos nos calar diante dos desafios que a cultura levanta na área da hermenêutica.
Na história do movimento adventista, têm havido muitas mentes brilhantes que não souberam responder aos desafios da cultura. Originalmente, os adventistas entenderam que foram chamados para ser o remanescente de Deus nos últimos dias. Sua função era transmitir as últimas verdades ao mundo no contexto do juízo iminente. O conceito de remanescente surgiu do estudo das profecias e está ligado à identidade adventista. Seria complexo e estranho haver teologia adventista sem a noção de remanescente. Os últimos a proporem isso acabaram levando a resultados no mínimo questionáveis.
Steve Daily o fez e hoje é pastor de uma congregação que é uma espécie de adventismo aberto a outros cristãos (seja lá isso o que for...), na qual até se fala em línguas! Fritz Guy fez o mesmo e hoje sua teologia se tornou liberal em muitos pontos (evolucionismo teísta, homossexualidade, etc). Fica claro que uma interpretação bíblica que assimile aspectos liberais e admita que a cultura deve nos ajudar na construção do pensamento teológico jamais poderá sustentar que somos o povo remanescente. Aliás, não poderia haver um remanescente, porque não existiriam verdades únicas a serem transmitidas. A cada geração, a verdade muda, porque a interpretação muda – tal é a cilada da teologia liberal!
Gosto do espírito de Gerard Hasel: ele “questionou” a tradição adventista não para propor algo definitivamente novo, que alguns gostam de honrar como se todo novidade acadêmica significasse intrepidez e discernimento. Hasel pesquisou embasado na Bíblia, revisando pontos importantes da argumentação adventista. Sua proposta significou um retorno radical à Bíblia. Obviamente, há outros eminentes estudiosos adventistas, anteriores e posteriores a Hasel, comprometidos com o espírito dos pioneiros. Eles contribuem em suas respectivas áreas. Além da erudição especializada, cada adventista, obreiro ou membro, é desafiado a crescer em suas compreensão bíblica, construindo sobre o alicerce dos pioneiros. Na atualidade, esse talvez seja o maior desafio intelectual do movimento adventista: reformar a cultura com a mensagem das Escrituras.
Infelizmente, o que não desenvolvemos no pensamento teológico, copiamos de outros, que, por sua vez, sustentavam sua teologia mais com base na filosofia do que na Bíblia. Isso passou a ocorrer talvez a partir da década de 30 ou 40, continuando a ocorrer até hoje. Assim se descaracterizou o adventismo, fazendo dele quase a mesma colcha de retalhos que é o mundo evangélico.
Sei que é difícil para adventistas que vivem em um contexto mais tradicional enxergar esse fato e recebo muitas perguntas nesse sentido. Mas meus amigos na Europa e nos Estados Unidos, fora a literatura especializada, conhecem a probante dificuldade de um adventismo dividido pela cultura. Já é hora de voltarmos ao projeto dos pioneiros.
Voltando à ideia de remanescente, não só a Bíblia advoga o conceito, como nossos pioneiros – praticamente todos eles – criam que fazíamos parte de um remanescente com uma mensagem distintiva. Além disso, como afirmado antes, todos os nossos pioneiros criam que o movimento adventista era o remanescente da profecia - inclusive, Ellen G. White. Se houve um engano, teríamos um problema mais sério: como um profeta pode ensinar algo (de forma consistente, ao longo de décadas) que seja um erro?
Além deste aspecto, do ponto de vista da efetividade, não vejo como poderíamos fazer a diferença nos tornando apenas mais um grupo evangélico dentre outros! Afinal, os dados mostram que o movimento adventista mais cresce nos lugares onde se mantém a visão tradicional de um remanescente: onde quer que a teologia liberal tenha se disseminado, a igreja estagna e tende ao ecumenismo. Vide Alemanha.
Claro que apenas manter aspectos tradicionais sem nos posicionar em relação a questões contemporâneas é insuficiente. Temos de alcançar uma geração com o evangelho eterno, oferecendo as respostas bíblicas às perguntas atuais, não nos acomodando com os velhos enfoques.

Aqui vale repensar sobre o paradigma distorcido que importamos do mundo evangélico: se o mundo mudou, temos que mudar para conseguir evangeliza-lo.  Ora, o mundo ter mudado, não constitui novidade em absoluto: ele sempre muda! A pergunta é: mudar junto com ele (mudar quanto à essência) seria realmente necessário? Isso não nos levaria a relativizar a fé? Como podemos representar a Deus para a cultura na qual nos achamos inseridos se não temos uma identidade singular, e somos apenas mais um grupo que vive em seu gueto confortável?


quarta-feira, 9 de julho de 2014

COMPRE AGORA O SEU ADVENTISMO PASTEURIZADO, ESTÁ EM PROMOÇÃO - parte 2



Indubitavelmente, há espaço para diversas contribuições sobre as questões relativas à situação do adventismo. Em virtude de nosso espaço limitado, sugiro algumas linhas de ação para revitalizar o adventismo:

•         Adoção de uma hermenêutica biblicamente sadia como condição preliminar para Reavivamento e Reforma (RR): A crise de identidade adventista possui diversas causas, todavia sua causa mais elementar é de natureza espiritual. Reconhecer a Deus como solução não é superficializar o problema, mas lançar mão do poder acima das limitações e hesitações humanas. Por isso, não se deve considerar RR um programa denominacional; trata-se de um chamado à vida, por meio de uma ligação com a sua fonte, Deus e Sua Palavra (Jo 15:7). Tal ligação inicial permitiu ao adventismo veicular sua base à Bíblia somente, adotando uma perspectiva profética. Os pioneiros construíram progressivamente sua hermenêutica, a qual dependia de forma radical do texto. Ao contrário do que se defende popularmente, voltar à Bíblia não é algo a ser reduzido ao compromisso de ler o Livro Santo todos os dias, porque existem modelos conflitantes de se interpretar a Bíblia (toda forma de leitura pressupõe uma interpretação). Ao longo dos últimos três séculos, surgiram modelos de interpretação racionalistas, que partem do pressuposto de que a Bíblia é um livro condicionado pela cultura humana, e que os profetas tiveram uma experiência mística não racional com Deus, expressa em termos meramente humanos. Assim, não há nada de realmente sobrenatural na Bíblia! Mais recentemente, surgiram outros modelos, que adotam a postura de que o significado das coisas é cambiante, mudando a cada época. Consequentemente, o foco está no leitor, pois é ele quem define o significado do texto para si, sendo este o único significado que se pode de fato alcançar. Ler a Bíblia a partir destas perspectivas limitadas não conduzirá a qualquer reavivamento e muito menos a uma reforma! Infelizmente, ideias erradas sobre revelação e inspiração afetam o entendimento das Escrituras e dividem os círculos adventistas eruditos há décadas (por influência dos evangélicos liberais e neo-ortodoxos). Tais ideias se acham popularizadas e largamente aplicadas tanto à Bíblia como aos testemunhos de Ellen G. White. Por isso, as discussões entre adventistas, que um dia se resolviam com um simples “Assim diz o Senhor”, atualmente não se resolvem com a mesma facilidade. Todos recorrem à Bíblia, porém para chegar a diferentes posições sobre o assunto. Não que a Bíblia apresente um caráter dúbio; o problema está com as pressuposições adotadas. Enquanto tais questões dividirem os adventistas, ler a Bíblia será parte do problema, não a solução. Entrementes, a condição preliminar para o RR é assumir que a interpretação da Bíblia só pode ser correta quando parte de pressupostos transmitidos pela própria Bíblia. Dito de outra forma, depende-se de Deus até mesmo no auxílio para interpretar Sua Palavra, por intermédio do Espírito Santo (Jo 16:13) e seguindo o modelo presente na própria Palavra. O processo não é simples, pois exige uma reordenação do que cremos, à medida que somos moldados pelas ideias presentes no texto inspirado. Essa reordenação mental conduz à interpretação correta, entendendo o que Deus disse não com a cabeça de quem vive no século XXI, mas como Ele pretendeu que Suas palavras fossem interpretadas em qualquer período da História. A verdade de Deus não muda em essência. Por conseguinte, é necessário um compromisso que se traduza em obediência concreta a tudo quanto Deus exige – o que é a verdadeira reforma. Nada menos do que santidade é exigido de todos nós. Diante das batalhas pela interpretação correta, muitas delas restritas aos bastidores e quase nunca enunciadas de modo esclarecedor, torna-se inócuo ressaltar o estilo de vida adventista; ainda mais porque, sem colocar a Bíblia no patamar que Deus pede, pouco se tem experimentado o processo de RR que leva à obediência na prática. Crentes sem conexão com a Palavra se sentem ofendidos pela pregação do estilo de vida, enquanto aqueles que adotam leituras liberais da Bíblia procuram alternativas para se escusarem de obedecer o que está incluso no mesmo estilo de vida. A melhor argumentação bíblica não pode convencer uma geração acostumada a não pensar biblicamente, mesmo quando lê a Bíblia. O reavivamento só ocorre quando aceitamos quem é Deus e que Ele Se comunica pela Palavra, a qual possui preceitos normativos acima da cultura humana, o que nos leva a reavaliar e descartar ideias herdadas das diversas tradições humanas e mesmo o que a experiência nos ensina;

•         Integração da fé bíblica com a experiência de forma relevante em um contexto secular: Há mais de meio século, o Ocidente vive um processo de secularização responsável pelo enfraquecimento da religião como referência para as diversas áreas da vida. Pessoas religiosas sofrem os efeitos disso; sempre se corre o risco de compartimentalizar a experiência cristã, limitando-a ao mero conhecimento bíblico dissociado do cotidiano ou simplesmente como algo místico, capaz de proporcionar êxtase emocional. Entretanto, o adventismo surgiu como uma espiritualidade prática, não desvinculada das demandas intelectuais ou exigências práticas do mundo real. Por isso, o adventismo propôs um sistema educacional diferenciado, adotou uma dieta saudável, incentivou evangelismo via colportagem, preocupou-se com as relações familiares e se dispôs a enviar missionários para o mundo. Nunca houve adventismo sem um estilo de vida adventista. Entretanto, a onda de revisionismo pós-moderno deixou a sala de reunião dos catedráticos para se manifestar em uma enxurrada de comentários em fóruns pela internet, reivindicando liberdade para construir sua própria experiência espiritual e ressignificar a tradição religiosa. Quando isso aconteceu com cristãos tradicionais, foi assustador; quando passou ao seio do movimento adventista, calamitoso! Que se questione coisas básicas como criacionismo, a relevância da data de 1844 e a importância destas coisas para o adventista hoje, é sinal de estarmos em maus lençóis! Isso não representa um progresso no adventismo, no sentido de torna-lo relevante ao mundo secular pós-moderno. Relevância implica em traduzir algo para um contexto diferente, tornando-o compreensível, mas sem alterar sua essência. A forma como relevância se tornou um paradigma para a evangelização leva ao risco da assimilação. Assimilação é a adaptação de algo a conceitos alheios à sua natureza, alterando a sua essência. Muitos ardorosos defensores do evangelismo relevante se tornam, na prática, promotores do evangelho assimilado pela cultura contemporânea. O adventismo não recebeu a incumbência de pregar um evangelho assimilado pelo mundo, mas de pregar o evangelho eterno (Ap 14:7) buscando fazer isso de forma relevante. A pregação ao mundo (Ap 14:6) se torna pregação contra o mundo, no sentido de anunciar um juízo universal, de consequências eternas contra os pecadores impenitentes (Ap 14:8-11), conquanto seja, simultaneamente, a pregação da salvação, convidando à saída de Babilônia (Ap 18:4). Nesse sentido, a compreensão adventista de que todos as demais denominações cristãs faziam parte de Babilônia os conduziu, desde as primeiras décadas do movimento, a buscar evangelizar mesmo aqueles que já eram cristãos praticantes, comunicando a eles o evangelho eterno, em sua pureza bíblica. O retorno à Bíblia, que tratamos no item anterior, assim como a experiência de RR, levam a integração ideal entre ensinos bíblicos e vida prática, tornando o povo de Deus a testemunha para esta época. Qual a relevância da mensagem adventista em um mundo pós-cristão e secularizado, onde há muitas “verdades”? Como sempre, as pessoas precisam da salvação, quer cônscias disto ou não. E se a salvação for oferecida por pessoas que a experimentam de forma substancial, conquanto não sejam isenta de falhas, tanto maior será seu efeito sobre quem tiver contato com a mensagem;


•         Resgate e desenvolvimento do pensamento dos pioneiros: o pensamento dos pioneiros adventistas precisa ser redescoberto. Cada adventista deveria conhecer, à luz da história do desapontamento, a construção teológica revolucionária que surgiu após o evento. A partir das propostas iniciais dos primeiros adventistas, a geração atual deveria prosseguir construindo, eliminando influências teológicas evangélicas que são incoerentes com a mensagem do remanescente. Alguns parecem ter urticárias à palavra “pioneiro”, temendo que, com isso, esteja implícito um idealismo em relação a nossos primeiros teólogos. De fato, os pioneiros do adventismo possuíam limitações e a história revela algumas delas. Se a compreensão básica da fé adventista se formou até 1850, alguns pontos controversos permaneceram por décadas, mostrando que, mesmo entre os pioneiros do movimento, não havia total unidade de pensamento. Ocorre que muito do revisionismo liberal que existe dentro do adventismo prefere focar as divergências, tentando assim justificar que outras divergências mais profundas na atualidade seriam saudáveis e mesmo necessárias ao adventismo como um todo. A tese cai por terra quando somos levados a considerar que, ainda divergentes em questões secundárias, os primeiros partícipes do movimento punham em patamar indisputável o que consideram como os marcos do adventismo – justamente aquelas doutrinas que, na atualidade, os liberais costumam questionar com frequência! Ademais, a compreensão da verdade é sempre progressiva, o que se verifica no desenvolvimento das doutrinas adventistas. Negar essas doutrinas hoje, sob a alegação de que compreensão progressiva equivale a espírito progressista, equivale a agir de má fé! Os progressivos avançam dentro de certas linhas de trabalho, como no caso dos pioneiros adventistas; os progressistas retrocedem porque ignoram as linhas de trabalho e as modificam constantemente, em muitos casos, por orgulho acadêmico. O exemplo vivo disso está entre os mais reputados estudiosos adventistas do livro de Apocalipse, muitos dos quais vêm abandonando (sutilmente) o historicismo por outras interpretações mais aceitáveis academicamente, o que lhes permite publicar em revistas de prestígio e receber elogios do mundo erudito. Retornando à questão, quando se promove um retorno à ênfase dos pioneiros, tem-se em mente que o que eles descobriram deve ser posto como ponto de partida para novas descobertas bíblicas ou aprofundamentos daquilo que já se aceitou. O ponto é: não podemos nos contentar com o que os pioneiros disseram. Temos de seguir e avançar, com o mesmo espírito e metodologia, sempre apaixonados pela verdade bíblica. Especialmente, muitas das implicações da Verdade revelada precisam ser exploradas, complementando a proposta teológica que o povo remanescente lançou em seu início;

•         Ênfase na mensagem distintiva do adventismo: não somos evangélicos, se entendermos o termo da forma genérica como é aplicado no Brasil (ou no contexto norte-americano, no qual mesmo os evangélicos tradicionais têm uma base mais filosófica do que bíblica). De fato, os reformadores do século XVI agiram com coragem ao se apartarem de Roma; contudo, eles não chegaram à uma compreensão mais acurada, porque não era tarefa simples se libertar da influência escolástica do romanismo. Os seguidores de Lutero e Calvino mantiveram muitos de seus erros doutrinários: ainda concebiam Deus como um ser eterno e atemporal (conceito da filosofia grega completamente estranho à Bíblia), a própria alma era imortal (outra herança pagã) e a justificação pela fé não passava de um decreto eterno da parte de Deus (ligada portanto com a predestinação, entendida como uma escolha soberana de Deus independente da vontade humana). Se muitos adventistas tradicionais elogiam a pregação dos reformadores é porque desconhecem o quão pouco bíblica ela era! Evidentemente, os reformadores se ergueram para defender uma volta às Escrituras, redescobrindo verdades obliteradas por séculos. Dentro da luz que alcançaram, revelaram fidelidade ao chamado divino. Aqueles que lhes sucederam não deram continuidade em examinar a Bíblia. Por outro lado, a chamada reforma radical, de menonitas e anabatistas, seguiu com mais coerência a mensagem de um retorno às Escrituras, originando o espírito que depois levaria à formação do movimento mileritas e, por conseguinte, ao movimento adventista sabatista. A mensagem adventista é tanto o fruto dessa outra tradição, que detém o melhor dos reformadores, quanto o resultado de contribuições de outros fiéis das épocas posteriores, como metodistas e batistas do sétimo dia. Deus despertou indivíduos e grupos ao longo da História para, finalmente, estabelecer o remanescente dos últimos dias. A restauração da Verdade não aconteceu de maneira mágica; o processo exigiu o esforço e a colaboração de homens santos de diversas épocas. O movimento adventista não possui méritos isolados, porém é grande devedor de reformadores, puritanos, metodistas, batistas, conexistas, mileritas e muitos outros. Manter a identidade adventista não significa rejeição a priori de contribuições de estudiosos evangélicos. Contudo, deveríamos ser seletivos quanto à teologia e cultura (estilo de culto, gêneros musicais, shows, etc) evangélicos, julgando-os a partir de nossa compreensão bíblica. Acima de tudo, já é tempo quando as grandes verdades descobertas e suscitadas pelo estudo dos cristãos fiéis que constituíram o adventismo devem ser transmitidas ao mundo com urgência e propriedade. Os adventistas não foram levantados para apresentar uma versão genérica do evangelho, nem se conformar com o presente século (Rm 12:2). Somos servos do mundo, os seres que mais precisam sentir o peso da responsabilidade de pregar a Verdade presente (Rm 10:14);

•         Participação integral na missão: são notórios e bem vindos os diversos incentivos à participação na obra missionária. A promoção dessas atividades, bem como sua diversidade, são marcas tipicamente adventistas, ainda que estejam desaparecendo em algumas geografias (especialmente na Europa). Há maravilhosas oportunidades para quem se sente vocacionado a servir como voluntário, ajudando em programas sociais e evangelísticos. Entretanto, redescobrir a missão envolve (a) incorporar conscientemente a missão, (b) refletir biblicamente sobre a missão e seus métodos e (c) verdadeiro amor pelos pecadores.



Certamente, se poderiam apresentar medidas complementares para impedir que a adventismo continue se diluindo. Aliás, o assunto mereceria um livro à parte. A despeito de nossas limitações de espaço e consequente necessidade de concisão, acredito que as medidas citadas ajudarão a impedir que nos tornemos esse tipo de sopa rala que se vê no seio do movimento evangélico. Afinal, Deus despertou um povo para ser Seu remanescente e não uma denominação cristã qualquer, anunciando pobremente a salvação em uma esquina.


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sábado, 5 de julho de 2014

COMPRE AGORA O SEU ADVENTISMO PASTEURIZADO, ESTÁ EM PROMOÇÃO - parte 1



As igrejas cristãs são todas, sem exceção, parte da Babilônia mística (Ap 18). Os pioneiros adventistas esposavam essa convicção controversa. Ao surgir o movimento adventista sabatista, os conceitos mileritas serviram como ponto de partida. E os mileritas criam que a rejeição do anúncio do retorno de Jesus tornava a cristandade parte de Babilônia (Ap 14:8). Os adventistas sabatistas mantiveram a ideia, mesmo quando, alguns anos após o desapontamento, a principal corrente de ex-mileritas projetava o cumprimento dos três anjos (Ap 14) para o passado ou futuro.
Resumo da ópera: o adventismo já nasceu em um contexto polêmico. Por alguns anos, os pioneiros creram que o convite da graça se estendia não a todos, porém somente aos mileritas (a teoria da porta fechada). Por esse motivo, os sabatistas dirigiam sua pregação aos mileritas somente.
Por outro lado, isso não significa que ele se isolaram em uma espécie de bolha teológica. Os adventistas não ignoravam completamente autores e teologias cristãs; eles faziam teologia em constante diálogo com tais fontes, em muitos casos, usando uma abordagem polêmica (termo usado quando um corrente cristã reivindica suas doutrinas reagindo contra uma ou mais correntes). A teologia do nascente movimento adventista era sólida e solidamente inserida na tradição do século XIX, ou seja, pertencia a uma bem arraigada tradição protestante.
Os hinos cantados por eles consistiam em coletâneas de hinos evangélicos populares, com acréscimos de hinos mileritas, muitos dos quais soariam atualmente como parte de um culto das igrejas pentecostais. Aliás, houve muito empenho, especialmente por parte do casal White, para conter manifestações fanáticas nas primeiras décadas do adventismo. Demoraria até se estabelecer um conceito de adoração mais ou menos homogêneo, embora persistisse a reminiscência de manifestações carismáticas (como na década de 1960, 1980 e a partir do meio da década de 1990). Isso não significou total desprezo por hinos tradicionais cristãos, quando eles não divergissem da fé adventista.
Porém, em suas linhas mestras, o clima do adventismo das décadas iniciais pode ser descrito com a palavra desconstrução: às vezes é preciso destruir as paredes para reformar uma casa. Logo, doutrinas como a trindade, por exemplo, sofriam questionamento de autores adventistas, especialmente devido à compreensão tradicional equivocada do assunto. De fato, os adventistas chegaram a crer na trindade fazendo um caminho inverso, que os levou aos fundamentos bíblicos, a partir dos quais atingiram nova compreensão sobre o assunto. Eles não eram bisonhos como os anti-trinitarianos atuais, os quais alegam não poderem crer na doutrina por não haver a palavra “trindade” em si nas Escrituras; ignoram que teologia de fato não leva em conta somente as palavras, mas as ideias contidas. A chave utilizada pelos adventistas sabatistas para crer ou rejeitar algo, ou chegar a uma compreensão diferente sobre determinado tema era a investigação bíblica.
Nem tudo são flores, porém. O que aconteceu para o adventismo hoje possuir uma acentuada dessemelhança em relação à perspectiva de seus pioneiros? Certamente, as mudanças não vieram de uma vez, nem foram causadas por um fator isolado. Talvez seja mais apropriado apresentar uma série de causas para as mutações dos genes do adventismo, sem que isso implique chegar a uma conclusão dramática de que tudo esteja irremediavelmente perdido. Afinal, se Deus suscitou essa obra, é certo que Ele continua à frente dela.
Alguns fatores, como a negligencia em áreas teológicas em detrimento do cumprimento da missão (até hoje não temos uma eclesiologia adventista bem definida, por exemplo), além da busca por parte de ministros e obreiros por formação teológica em nível de pós-graduação em seminários evangélicos contribuíram para que se abandonasse a ênfase em doutrinas distintivas. O processo se tornou mais evidente a partir da década de 1950. Naquele contexto, o adventismo se esforçava para ser aceito no seio do evangelicalismo, o que se percebe com o lançamento do livro Question on Doctrines (QD).
Fruto do diálogo entre representantes do movimento adventista e líderes evangélicos, o trabalho procurava conciliar as doutrinas adventistas com a tradicional versão norte-americana do cristianismo. A contribuição positiva de QD foi quebrar o preconceito em relação ao adventismo, fazendo com que ele perdesse a pecha de seita, além de esclarecer as doutrinas adventistas em face de equívocos e distorções. A contribuição negativa se deu com uma significativa mudança de ênfase nos aspectos distintivos da mensagem adventista, levando quase à conclusão que ele não pretendia nada de revolucionário ou novo, mas que, no fundo, era mais uma igreja protestante norte-americana, com uma ou outra doutrina sui generis.
Nas décadas seguintes, o adventismo se aproximou ainda mais dos círculos evangélicos, acarretando a crise sobre justificação pela fé, envolvendo Robert Brinsmead, Desmond Ford e outros. Finalmente, as implicações desta crise inicial geraram outra ainda mais severa, quando Ford atacou a doutrina da purificação do santuário celestial. Claramente, alguns círculos adventistas desenvolveram tamanha afinidade com o pensamento evangélico que uma revisão doutrinária parecia iminente. Embora a denominação se fortalecesse com a publicação de importantes obras reivindicando a posição adventista em assuntos como santuário celestial e interpretação profética (publicados por uma comissão especial, cuja sigla em inglês é DARCOM), dissensões e divisão de pensamento se agravaram entre os adventistas.
Entre os motivos que acirraram os novos conflitos no seio do adventismo, podemos mencionar:

•         Crescimento evangelístico desacompanhado de discipulado bíblico: os adventistas nasceram com uma missão. Organizaram-se em função de sua identidade, estabelecida a partir de um chamado profético (Ap 14:6-12). Entretanto, ao assimilar influências evangélicas, o evangelismo adventista foi deixando a compreensão profética para adotar uma versão popular de existencialismo cristão (até quando trata das profecias!). Essa pregação existencialista propõe uma visão reduzida da salvação, excluindo o estilo de vida, fator que sempre marcou a compreensão adventista. Aliado a isso, a falta de instrução bíblica acometeu o adventismo. Mesmo a produção de livros e revistas denominais (que na América do Sul é rigorosamente selecionada e apresenta uma qualidade superior em relação a outras realidades) passa longe de atingir um povo que não foi instruído a pensar biblicamente. Resultado: a denominação cresce exponencialmente em número de membros, todavia possui cada vez menos pessoas comprometidas com a missão e com os valores do estilo de vida adventista, o qual permanece questionado e relativizado;

•         Falta de posicionamento claro em questões referentes à identidade adventista: professores adventistas de teologia com acentuadas tendências liberais continuam lecionando em seminários adventistas de referência, quer na Europa, quer nos EUA. Eles gozam de total liberdade, influenciando jovens ministros e, por meio deles, congregações ao redor do mundo. Livros de tendência progressista são publicados por editoras adventistas e embora representam apenas a opinião de seus autores, ganham aura de legitimidade, como se possuíssem um selo de aprovação denominacional (não à toa, vivencia-se hoje uma crise editorial nas editoras adventistas da América do Norte). Assim, o adventismo tem se multifacetado, se dividindo e se tornado lento no cumprimento da missão profética para a qual foi levantado;
•         A aculturação em face do mundo contemporâneo: o desafio de evangelizar os centros urbanos, nos quais a esmagadora maioria da população mundial se concentra, vem levando pensadores e líderes adventistas a adotar métodos que aproximem o estilo de culto a padrões similares ao da cultura popular contemporânea. Além disso, a influência da quase onipresente mídia social molda os padrões de pensamento dos adventistas dentro de uma perspectiva secular, a qual não é combatida por modelos racionais bíblicos (Rm 12:1-2).


Diante deste quadro, ainda que brevemente esboçado, pode-se perceber os prementes desafios com os quais o adventismo se depara. O movimento que nasceu em meados do século XIX com tantas características peculiares, atravessa seu terceiro século de existência repleto de embates internos e bastante influenciado pela cultura ao redor, quer religiosa, quer secular. O que poderia resgatar dentro do adventismo seus propósitos originais? Obviamente o assunto preocupa líderes e pensadores do movimento. Cada adventista sério se preocupa com a diluição do movimento. O que fazer?



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