terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UM FAROL PARA QUAL DIREÇÃO?: OU “NOTA DE RODAPÉ NA HISTÓRIA DA SECULARIZAÇÃO DA MÚSICA ADVENTISTA"


Para quem conhece o Heritage Singers, uma apresentação do grupo não seria completa caso a música The Lighthouse fosse excluída do repertório. Gravada em 1976, a canção já era sucesso absoluto no meio do Southern Gospel. Isso porque a gravação original pertence ao famoso Stamps Quartet, um dos grupos evangélicos mais populares da época.
Naqueles idos, J. D. Sumner, um dos baixos mais graves da história do gospel, fazia parte do quarteto, assim como seu sobrinho, Donnie Sumner. Donnie era o lead do grupo. O lead é conceito diferente do que havia nas músicas adventistas da época, especialmente graças à influência do arranjador Wayne Hooper. Nos arranjos tradicionais de quarteto, geralmente alguém cantava a melodia da música, harmonizando com as demais vozes. Hooper fez a melodia “passear” por entre as vozes, rezando-a e mudando os acordes dentro de uma mesma música. Já o conceito de lead se ressume a dizer que esse cantor será o solista, explorando graves e agudos em uma mesma música, como um showman, enquanto os demais componentes harmonizam em função dele.
As versões de The Lighthouse gravadas pelo Stamps Quartet e pelos Heritage Singers diferem nessa concepção. Donnie canta como um lead, atingindo em alguns trechos agudos impressionantes (especialmente quando não era comum ter registros tão agudos no período). Seu solo é rasgado e a interpretação muito próxima dos cantores seculares de então.
Na versão do Heritage, os solos são divididos e a melodia é cantada por naipes diferentes. Os cantores empregam uma técnica mais próxima à da música erudita (embora, a rigor, não sejam propriamente líricos). A percussão forte na gravação do Stamps, que lhe dá um tônus emocional, é bastante suavizada pela versão do grupo, que aposta em cordas e interpretação suave. E o Heritage introduziu o famoso trecho narrado pelo baixo (na época, Jim McDonalds o gravou).
Um rápido olhar pela discografia do Heritage, de seus momentos iniciais à sua popularidade máxima, entre as décadas de 1970 e 1980, e mesmo na atualidade, fará perceber que o grupo permanece como o grande catalizador que sempre foi: o que Gaither Vocal Band e demais expoentes da gospel southern music gravarem hoje, amanhã será regravado pelo Heritage.

Isso levanta alguns questionamentos bastante importantes. Destaco alguns: (1) será que toda música antiga é realmente melhor do que se produz hoje? Não melhor em termos técnicos, quanto aos detalhes de gravação (isso não seria mesmo!) ou capacidade dos cantores (ponto difícil de aquilatar), mas no que toca à orientação, à filosofia da música em si. Muitos exaltam o passado, mas seria apenas nostalgia ou estamos falando de princípios? Em consequência desse ponto, (2) não deveríamos avaliar a qualidade (novamente, referente à filosofia) musical pelos princípios que temos como adventistas, independente da época em que foi composta/produzida/gravada? E, por último, (3) o fato de que algumas músicas já foram controversas (e o Heritage Singers coleciona algumas polêmicas!), não deveria nos fazer refletir em como o tempo apagou tais controvérsias? E o que diremos disso? Simplesmente apontar, como alguns liberais adoram fazer, que música é simplesmente questão de época e o escandaloso hoje se torna o tradicional de amanhã? Ou deveríamos pensar que temos sido coniventes e brandos, agindo inicialmente desconfiados com a influência evangélica sobre nossas músicas, para capitular paulatinamente a ela tempos depois?

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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

domingo, 22 de novembro de 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

2 BOBS, & JERRYS: OU “NOTA DE RODAPÉ NA HISTÓRIA DA SECULARIZAÇÃO DA MÚSICA ADVENTISTA"



O ano era 1968. Por volta de uma década, a Chapel Records trazia o melhor da música adventistas em LPs. Organistas como Paul Carson, Les Barnett, Brad Braley, Helen Lange e muitos solistas, como Charles Turner, John Webb, Jerry Dill e Del Delker. Claro, havia os quartetos de então, sendo os mais conhecidos The Faith for Today e The King’s Heralds, ambos de alta qualidade. Todavia, em 1968, dois grupos distintos gravaram seus respectivos álbuns, marcados por coincidências. Vamos a elas: além de mesma gravadora, os grupos eram masculinos – um era trio, o outro, quarteto –, tendo dois componentes com os nomes Bob e Jerry cada um! Além disso, a história de ambos começa em um internato.
Os King’s Heralds, quarteto oficial do programa radiofônico The Voice of Prophecy, iniciara suas atividades em 1927, sendo apenas depois convidados a fazer parte do programa (que ainda nem existia). Entretanto, o afamado evangelista H.M.S. Richards propôs a troca do nome do quarteto formato por ex-estudantes do Southwestern Junior College (agora Southwestern Adventist University).
Ao longo de décadas, o quarteto passou por algumas formações. Em 1968, os componentes eram: Bob Edwards (primeiro tenor), Jerry Patton (segundo tenor), Jack Vezeay (barítono) e Jim Mcclintock (baixo). O novato era o segundo tenor, Jerry, enquanto o outro tenor, Edwards, cantava há 21 anos no quarteto! Tanto Vezeay como Mcclintock haviam se unido aos King’s Heralds em 1962, com a saída de Wayne Hooper e Jerry Dill.

Justamente naquele ano, os King’s Heralds gravaram We Worship Thee, um álbum de música sacra que tinha algumas peças bem eruditas. A formação da época regravou Go To Dark Gethsemane, Lost In The Night (que tem uma versão em português chamada Só e sem luz, gravada pelos Arautos do Reis) e Holy, Holy, Holy ((Schubert). Quase todo à capela, We Worship Thee traz a marca do quarteto, com incrível equilíbrio de vozes.
Do outro lado, haviam outro Bob e outro Jerry, curiosa coincidência: Bob Summerour, Jerry Hoyle e Don Vollmer, estudantes do New Bold College (na Inglaterra, embora os três fossem americanos) formavam o The Wedgwood Trio, que gravava seu primeiro LP: Country Church. O Wedgwood trazia uma mistura de pop/country com bluegrass, um estilo surgido praticamente na década de 1940, com Bill Monroe, Earl Scruggs, Lester Flatt, Chubby Wise e Howard Watts, que se popularizava bastante adotando violões (ou banjos), violinos e celos/baixos. O Wedgwood gravaria álbuns pelas décadas seguintes, alcaçando formidável sucesso. Eles mantém a mesma formação até hoje, sendo que Vollmer deixou o grupo de 1969 a 1992, retornando para uma apresentação em Long Beach, California, e permanecendo com o grupo desde então.



O vocal dos Wedgwood é bem limpo, sem impostação lírica que marcava os King’s Heralds desde o início da década de 1960. Escutar a gravação de Way Beyond The Blue, faixa do álbum de estreia, nos remeterá à música pop da época, com um ar despretensioso e com aquela inocência dos primeiros grupos de rock, como Beatles e Beach Boys. O grupo também usou sua competência vocal inegável para gravar música secular, mas sem mudar o seu estilo característico.
Pelas décadas seguintes, veríamos outro grupo gravar pela Chapel, seguindo a tendência dos Wedgwood de associar música religiosa com ritmos populares: The Heritage Singers. Vocais harmônicos bem executados e incorporação de elementos culturais já presentes na música gospel do período, fizeram do Heritage um influente catalizador de tendências no meio adventista. Sua influência extrapolou a do Wedgwood trio, chegando a proporcionar uma revolução na música adventista em escala mundial! Embora não tenha tempo de tratar em detalhes isso, basta lembrar a influência do Heritage na discografia dos The King’s Heralds na década de 1970 (quando Bob Edwards já sido substituído pelo tenor John Ramsey) e sobre os próprios Arautos do Rei (sim, o Heritage passou por aqui na década de 1970, dividindo opiniões).
Os King’s Heralds passariam pelo processo de aproximação com as músicas seculares na década de 1980, sob a direção de Jim Teel. Teel, multi-instrumentista e arranjador formidável, conseguia produzir álbuns a capela com arranjos incrivelmente elaborados e também álbuns que pendiam para o country ou adaptavam canções cristãs populares. Ao sair da direção musical do quarteto, ele aceitou ser ministro da música e pastor de jovens na igreja adventista de Simi Valley, California. E esteve envolvido com o controvertido movimento Celebration das décadas de 1980 e 1990, que pretendia usar músicas contemporâneas, liturgia informal e pregações tratando de assuntos do interesse do público (autoestima, divórcio, como ser feliz, etc). Nada se cria, não é…
O que se pode perceber dessa pequena parte da história da gravadora Chapel? Somos forçados a admitir que música religiosa não deveria ser caracterizada como antiga e nova, ou clássica e contemporânea. A tendência de mesclar música religiosa e popular é antiga. E possui forte relação com a secularização, porque diminui a barreira entre santo e profano, admitindo que qualquer gênero musical é aceitável a Deus e pode ser usado em seu louvor, embora a linguagem musical de determinado gênero não exista com a finalidade de louvar a Deus e, por suas características, transmita uma mensagem bem diferente daquelas que são próprias para adoração: submissão, entrega, reverência, santidade, reconhecimento, gratidão, etc. A secularização da música adventista teve seu grande catalizador no grupo Heritage Singers, mas o processo continua e já está em fase muito mais adiantada. Não à toa, para muitos ouvidos as músicas do Heritage são mais santas (menos secularizadas, diríamos com acuidade) do que a atual produção fonográfica adventista. A diferença é que eles plantaram a semente; hoje, colhemos os frutos. 
A música depende, como toda arte, da perspectiva de quem a cria. Criar um modelo único, alinhado com uma teologia bíblica ou adaptar o que a cultura produz são decisões importantes, que influirão nos paradigmas musicais adotados por músicos ou congregações inteiras. Por isso, advogo que essas questões, sugeridas dos exemplos da Chapel, nos levem a uma busca consciente dos paradigmas musicais adequados à nossa mensagem.
Para encerrar, algumas palavras sobre música sacra e cultura. Há diversas interações possíveis, as quais tentei condensar em modelos para tornar o assunto didático e sugerir suas linhas principais: 


1. Contextualização: nesse modelo, há área de contato entre princípios bíblicos e elementos da cultura.  Os princípios revelados levam os envolvidos na criação da música (compositores, produtores e intérpretes) a selecionar criteriosamente características de uma determinada cultura (por exemplo, a tonalidade média das canções populares brasileiras) para criar um padrão novo, que expresse adequadamente diretrizes que Deus deixou para a adoração em Sua Palavra (Bíblia e testemunhos). Aqui se forma uma tradição, que estará sujeita à manutenção e atualização, criando um desenvolvimento pouco influenciado pela música popular;




2. Aculturação: diferente da contextualização, aqui os elementos da adoração bíblica se tornam reféns da cultura, sendo influenciados decisivamente pela música popular e desejo de produzir em função do público externo (uma visão de evangelismo que não se coaduna com o que os testemunhos apresentam). Assim, a música sacra será tão cambiante em seus ritmos quanto a música popular, sujeitando-se igualmente a demandas comerciais. Entretanto, ainda haverá uma tênue diferenciação entre sacro e popular (e justamente aqui, sugiro, se encontra o ponto em que a produção fonográfica adventista se encontra no momento);




3. Isolamento cultural: nesse caso, a produção musical se vale de uma tradição própria, completamente à parte da cultura como um todo. A música religiosa muçulmana e o cantochão católico são exemplos dessa tendência. Aqui a tradição sofre pouca ou nenhuma renovação, apenas emulação: a mesma música, cantada da mesma forma, passada de uma geração a outra. Vale ressaltar que esse isolamento não é o ideal, porque se funda em uma ideia monástica de separação radical do cristão com a sociedade, o que não é bíblico. Ademais, corre-se o risco, na prática, de se aderir a uma adoração transcendentalista, mística mesmo, que entenda Deus como Alguém tão superior que Seu contato com a humanidade seja remoto ou mesmo impossível, necessitando-se de mediação (daí a relação da espiritualidade católica com o canto gregoriano, exemplo de como música e teologia andam juntas, para bem ou, nesse caso, para o pior);



4. Nivelamento cultural: dentro do processo de secularização, esse seria o último estágio. Nele, os princípios de adoração (e quase já não se pode mais falar em adoração bíblica) equivalem e se correspondem completamente com as expressões culturais existentes. A adoração se torna espiritualizada, descompromissada com a teologia, desvinculada de um estilo de vida cristã e completamente descaracterizada em relação a como os cristãos praticaram a adoração ao longo da história. Pode-se falar em um misticismo cristão renascido, como na Igreja Emergente, por exemplo. Estamos perto disso? Cabe ao tempo revelar.
A guisa de conclusão, defendo que estudar a história da música sacra e de nossa própria produção, em conjunto com os princípios revelados, nos ajudariam a conter o presente processo de secularização (via negativa) e voltar a produzir música sob o paradigma da contextualização (via positiva). 






quinta-feira, 13 de agosto de 2015

BÊNÇÃO OUVIDA


Seu coração domou medos, em ritmo
De início apaixonante, som de vida
Em preparação, força desprendida,
Equação não expressa em algoritmo.
Seu coração lhe ultrapassa em dimensão
E agrilhoa meus olhos nessa espera;
Coração que se faz própria atmosfera
– Se respiro, respiro coração.
Os dias. O futuro, névoa ainda,
Como todo croqui, nasce mistério,
Até o traço ter contorno sério,
Sendo possível ver: que forma linda!

Seu coração – presente do Deus Santo,
Para quem suplicou por isso tanto!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

TRÊS É (BOM) DEMAIS!


Um comercial de chocolate perguntava: "e se as coisas boas da vida fossem três?". Às vezes, são.  Estamos com um promoção-relâmpago: 3 exemplares de Explosão Y por um preço especial. Aproveite! Clique no botão abaixo e garanta agora sua coleção.


domingo, 9 de agosto de 2015

SINCERIDADE E RESPOSTAS


Faz uma década que convivo com adolescentes. Com o tempo, você acaba conquistando a confiança deles. Aprende que eles são sinceros de forma crônica. Não poucos entre os adolescentes enfrentam a religião dos pais como quem luta contra regras obsoletas. Claro que, para um adolescente, as únicas regras não obsoletas estão no grupo daquelas que convém (os adultos, em geral, têm mais pudores para dissimular esse comportamento).
Eles não são culpados, tomando um exemplo, por não assimilarem a ideia de termos uma profetiza moderna. Nós, adultos, somos mestres em evitar esse assunto, tratando algo digno de gratidão como tema espinhoso!
Aliás, durante uma aula, um aluno muito espontaneamente perguntou o quão "moderna" era a profetiza, que viveu há... 100 anos! Convencê-los da atualidade dos conselhos inspirados é quase como apelar para que comprem fichas e façam a ligação em algum telefone público. Entretanto, não é apenas algo necessário, como imprescindível.
Se mesmo entre os melhores jovens permanecem tantas dúvidas sinceras, que dizer do quadro geral? Quando olhamos para uma geração inteira que assiste o culto de cabeça baixa, mais preocupada em responder as mensagens no WhatsApp do que naquilo que acontece durante os momentos solenes, como não se preocupar?
Não se trata de alugar um ginásio, convidar o cantor gospel do momento, entoar 10 músicas repetitivas e fazer um discurso emocional. Os adolescentes precisam saber coisas concretas sobre a fé adventista. Menos espetáculo e mais estudo da Verdade. Ensinar meninas e rapazes a marcarem em suas Bíblias cadeias de textos (devidamente contextualizados) para que entendam em que baseiam as doutrinas - isso ajudaria a vencer dúvidas e aumentaria o envolvimento com a missão. Afinal, eu não compartilho algo se não conheço o suficiente para explicar. Treinamentos missionários, simulando desafios reais, e projetos que ajudem a conhecer melhor a história do movimento adventista seriam outras ações possíveis.  
Pais, líderes e educadores precisam criar fórunspensando em como ajudar a nova geração a retomar a base bíblica adventista. Necessitam igualmente dar o exemplo para os jovens de que se acham pessoalmente envolvidos na salvação de almas e que seu maior interesse é a vida eterna. Quando "culto de pôr do sol" e "culto familiar" não soarem como alienígenas nos ouvidos de famílias adventistas, significativa mudança surgirá entre os adolescentes. 
Não basta pais piedosos orarem por seus filhos; pais espirituais precisam orar com eles e lhes ensinar a amar a Verdade a ponto de encarná-la em sua própria vida. Afinal, a sinceridade adolescente merece respostas, fruto de um cristianismo autêntico.    


segunda-feira, 27 de julho de 2015

MÁSCARA E SUB-MÁSCARA


Reconhecido como um dos melhores poetas contemporâneos em Língua Portuguesa, Fernando Pessoa demorou a se adaptar ao idioma materno, devido ao tempo passado na Inglaterra durante os anos de formação. Os primeiros versos de Pessoa foram ainda escritos em inglês. Aqui apresento uma tradução de um dos sonetos escritos pelo luso, o de número 8, bastante conhecido. Aparece em versos decassílabos e mesmo esquema de rimas.

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;

And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking.

(trad. Douglas Reis)

Quanta máscara e sub-máscara para
Sobre o nosso semblante da alma, e quando
Por jogo a alma a si mesma desmascara,
Reconhece o disfarce e o rosto brando?
Nada a máscara real sob outra sente,
Mas vê por meio de olhos mascarados.
Assim que a consciência à obra se apresente,
A obra aceita traz sonos encadeados.
Qual teme a criança as faces espelhadas,
Nossa alma, que é criança e ideia ida,
Põe diferença em caretas observadas,
Pondo ao mundo todo em causa perdida.

Se vem a ideia máscaras tirar
Não sem máscaras vem desmascarar.

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quarta-feira, 22 de julho de 2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

ORNITORRINCOS E PAPAGAIOS



Ávido de obter quietude
Nesta Babilônia de afetos
Tão inoportunos. Corrompo
Pés sofisticados na lama
– Minha condição impensada.

Ranjo os dentes. Eu, torturado,
Vulto ciclotímico nas ruas,
Parte do mosaico de ferro;
Nada se parece com o antes
– Minha infância sob o concreto
Perde o colorido. O que resta?

Uma sensação histriônica,
Digna de maníacos, surge
Quando me deparo com prazos.
Sempre a trajetória das horas,
Vindo ineludível contra a alma.

Penso. Consternado. Penso alto.
Penso em espiral. Logo esqueço.

Ouço ornitorrincos em pânico,
Todos afogados. E eu vendo
Ônibus atrás de dezenas
De outros. Irritado, desabo.
Quando anoitecer, dormirei
Perto da lareira, na praia
Ou na cordilheira dos Andes.

Tenho a sensação de que estou
Dentro do viveiro, cercado
Pelos papagaios do asfalto.

Com coloração destacada,
Quais tagarelices imitam?
Sem ineditismo aparente,
Fazem narrações repisadas,
Vasto vozerio de cópias.

Há infiltração nos pulmões
– Pobre ornitorrinco esquecido
Longe do cortejo de sósias
Presas à aparência vivaz.

Acho que domingo retorno
Para me esquecer de mil caos.
Para me irritar em parcelas
Menos repetidas de tempo,
Ávido de obter quietude
– Quando anoitecer, dormirei.

Mas se demorar a dormir,
Posso ornitorrincos contar
(Contem os demais seus carneiros!).


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Passos noturnos
Um ato de risco
Delido

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O QUE APRENDER COM AS DECISÕES DA IGREJA



A cada cinco anos, a Igreja Adventista do Sétimo Dia reúne delegados representando todos os campos, em uma assembleia mundial, conhecida como Conferência Geral.  Ali são tratados todos os assuntos envolvendo doutrinas e regulamentos, práticas e procedimentos, escolha de líderes e apresentação de relatórios. Nos últimos anos, um dos temas mais delicados tratado nessas reuniões é a questão de ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
Comissões do mundo inteiro se reuniram para estudar o assunto. O debate passou do âmbito administrativo para o do estudo teológico e chegou finalmente à grande parte da membresia adventista, especialmente nos países mais desenvolvidos. Finalmente, nessa 60ª edição da Conferência Geral houve a votação sobre o assunto: dentre o total de 2363 votos, 977 foram a favor, 1381 contra e ocorreram 5 abstenções. A maioria, portanto, entendeu que não há evidência na Revelação divina (Escrituras Sagradas e testemunhos de Ellen G. White) que apoie a ordenação de mulheres.
O que se pode aprender com isso? Primeiro, que a igreja de Deus, sendo mundial, age sabiamente em uma democracia, procurando consenso entre pessoas de opiniões, formação, cultura e experiências distintas. Na multidão de conselhos há sabedoria. Crescemos ao ouvir pessoas que, embora tão diferentes, vivem a mesma esperança que nós. Obviamente, a base de nossa fé é a Revelação e devemos submeter todas as outras coisas a ela. Ainda assim, devemos ser humildes em nossa maneira de entender as Escrituras, orando para que em nossa hermenêutica mantenhamos o sólido princípio de interpretar a Bíblia por meio da própria Bíblia.
Por outro lado, como um povo espalhado pelo mundo inteiro, é natural que divergências em assuntos menores apareçam. Isso não deve nos deixar perplexos ou temerosos. A fé que nos une será sempre desafiada por questões culturais. E elas merecem ser tratadas, em sua dimensão apropriada. Cabe a nós buscar consenso e nos fixar no que realmente possui importância: o cumprimento de nossa missão profética! Isso não implica em fuga de assuntos relevantes ou simples postura anti-intelectual: os adventistas entendem que Deus lhe conferiu uma prioridade (Ap 14:6-12). 
A lição mais importante que se deve extrair: não há, como alguns líderes assinalaram, perdedores e vencedores na questão particular da ordenação das mulheres – ou em qualquer outra que se levante. Todo o povo de Deus sai vencedor quando debate assuntos delicados sem perder o espírito cristão e quando busca manter a unidade na verdade eterna da Palavra. Preservar a identidade adventista frente a questões contemporâneas requer humildade e espírito de oração. Não há respostas prontas, nem estradas planas. Porém, confiando na direção de Deus e palmilhando por onde a palavra profética indica, seremos vencedores em todas as disputas.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

MÚSICA DE NATAL - THE KING'S HERALDS

2 A MENOS NO BRASIL



Eles são meus amigos e gostaria de tê-los mais perto - de preferência, no Brasil! Mas é por uma boa causa. E já que as boas causas merecem apoio, aproveito para divulgar a aventura desse casal. Vocês se divertirão, tenho certeza. Sucesso, Dieter e Deyse. Continuem somando.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

LOUVOR MIDIÁTICO


O sucesso de programas como American Idol e The Voice, revivendo os antigos shows de calouros, é um fenômeno mundial. Interpretações efusivas (para não dizer histriônicas) de músicas consagradas ganham as mídias sociais, espalhadas pelo Youtube, Facebook e Twitter. Quando se pensa no gênero pop, adotado pelos reality shows musicais, sem se restringir a eles, estamos diante de um padrão altamente disseminado nos canais convencionais, como programas de TV e FMs, e mesmo aplicativos de streaming, tais como o iTunes ou Google Play. Nós nos deparamos com a música pop em cada filme, série e clipe. Seu poder de atração não pode ser questionado ou subestimado.
Consumir essa música altamente estimulante e com viés sensual como forma de entretenimento representa vários riscos para os cristãos. Primeiro, o risco de assimilar pensamentos, conceitos e estilo de vida claramente mundano, diferente daquele ensinado pela Palavra de Deus. Segundo, adquirir um gosto por esse padrão de música, o que levaria a uma forma específica de rejeitar o estilo de vida cristão: a rejeição da música cristã. Compensa pensar sobre as consequências desse último aspecto.
Quando a música secular se torna o padrão para o cristão, dificilmente ele sentiria prazer em cantar os hinos cristãos tradicionais, seja em sua devoção particular ou mesmo no culto público na igreja. Simplesmente, os hinos soarão como cantigas inocentes, ou algo absurdamente antigo. E talvez poucas coisas aborreçam tanto algumas pessoas como algo desatualizado. Será preferível trocar as antigas canções dos hinários cristãos por música contemporânea, de viés cristão. Mesmo que você não seja um sociólogo da religião, será capaz de notar como a música pop cristã nem choca mais os adoradores contemporâneos: no caso particular dos adventistas, em pouco mais de duas décadas, eles se acostumaram com o novo paradigma.
Em nossos congressos, cultos especiais e mesmo nas reuniões regulares, a música cristã contemporânea, antes empregada sob a alegação de atrair e agradar aos jovens, já atingiu alcance congregacional, abarcando indivíduos das mais diversas gerações. Seu alcance, aceitação e a facilidade como dissemina ideias cristãs (ainda que de forma genérica, na maior parte dos casos) são as justificativas mais comuns dos defensores desse gênero de música.
Entretanto, seria, no mínimo, fato suficiente para nos causar mal-estar saber que há poucas décadas os adventistas se indignavam (acho que o termo descreve bem a reação) com as demais denominações por usar música popular na adoração. Evocava-se o fato para ressaltar que o mundanismo entrara nas igrejas evangélicas, enquanto ainda mantínhamos princípios bíblicos aplicados a música. Hoje, o quadro sutilmente se alterou: não ousamos mais demonstrar indignação. Há uma reciprocidade suspeita entre a forma como recebem nossos músicos e como recebemos cantores de outras denominações. Talvez não haja mais linhas divisórios tão profundas que identifiquem o que há décadas se chamava música adventista.
Precisamos de música nova, que exemplifique nossa doutrina, que criativamente explore aquilo que cremos. Não creio que a criatividade oriunda do Espírito Santo haja se esgotado, após profusamente abençoar autores de hinos de séculos e décadas anteriores. O problema está em nivelar a contribuição necessária para este tempo por padrão de música secular. Fazendo assim, transmitiríamos nossa mensagem na letra, todavia não na forma, associada a valores não cristãos, como satisfação própria, êxtase sensual e violência.

Se a música pop, surgida com a diluição e massificação do estilo rock’n’roll, nasceu em meio a revoluções de valores, liberdade sexual e expressão de uma juventude que queria mais liberdade, é impossível fazer uma avaliação positiva de seus constituintes desde uma perspectiva cristã. Música pop é o coração do homem contemporâneo colocado em notas musicais – e não precisa conhecer tão profundamente a Bíblia para saber qual a avaliação feita pelo Senhor acerca de nosso coração natural (Jr 17:9). Se veicularmos a essa estética a nossa mensagem, corremos o risco de distorcemos o que Deus tem a dizer a toda uma geração.

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

ADVENTISTAS E A PARÁBOLA DA LARANJA


O subcomitê preparou o I Fórum de discussão sobre a carência de vitamina C no município de Andorinhas. O salão paroquial da cidade abrigou o evento, que foi divulgado pobremente no único jornal de toda a região. Pobremente porque a situação emergencial requeria uma medida extrema, rápida, sem tempo para maiores planejamentos. E o prefeito Juca recebeu exaustivas advertências da Secretaria de Saúde Pública de Andorinhas.
Juca não fazia o tipo preocupado com nenhuma questão envolvendo saúde (quer pública ou mesmo particular, dado o número de cartelas de cigarro consumidos diariamente por ele), ou algo tão ínfimo quanto a carência de qualquer vitamina que fosse. Entretanto, se chegara ao cargo máximo de administrador público do município, isso se devia a seu faro para potencializar problemas e oferecer soluções miraculosas. Às vésperas do último ano de um mandato pífio, far-lhe-ia bem à pretensão de sucessão resolver algo urgente.
 O fórum recebeu a atenção integral de seus assessores, incumbidos de alarmar a cidade com o novo problema. Apesar de notar a pobreza da divulgação, ao menos no número de veículos envolvidos, é preciso retificar e admitir o sucesso da propaganda, posto estar cheio o ambiente. Algum adivinho quiçá o tenha visto no globo de uma bola de cristal e tido tempo de comunicar os assessores municipais, o que explicaria as centenas de cadeiras de plástico locadas para garantir mais gente assentada ou detalhes como os ventiladores extras trazidos. Juca sorria como quem imaginasse não demorar muito a voltar para a cadeira no gabinete que ocupava.
Diante de milhares de eleitores, ou melhor, cidadãos de Andorinhas, Juca abriu o discurso na melhor tradição política – falou muito, não disse coisa com coisa, mas impressionou as pessoas. Seguiram-se vozes de especialistas, que mostraram os baixos índices de vitamina C prognosticada na média da população, os riscos disso e algumas possíveis medidas. Ao fim, o vereador João Lobo convidou à frente o empresário Klefetis Capitioso. Caso nos leia alguém que não logrou a sorte de ter em Andorinhas sua terra natal, é necessário apresentar um tipo conhecido por todos: o Sr. Capitioso, dono da maior – talvez seja necessário comentar, da única – fábrica de Andorinhas, responsável pela equilibrada economia da cidade. A Accommodatio, fábrica de refrigerantes bastante popular, empregava, ao todo, mesmo nesses nossos tempos de crise, 108 pessoas. Desse modo, a mera presença de Klefetis Capitioso em uma reunião como aquela gerava tensão e expectativa.
O sr. Klefetis parecia-se com um desses gurus da neurociência, falando de um modo calculado, com as devidas pausas e muitos olhares dirigidos diretamente ao pública. Juca sentia profundo alívio em se certificar que aquele homem de roupas modernas, cabelo curto e alinhado e que transpirava eficiência não tivesse qualquer ambição política. Afinal, todo poder que Klefetis queria, o poder dos revolucionários, dos idealizadores, dos grandes solucionadores, disso ele já gozava. Em poucos minutos, todos sabiam e aprovavam seu plano:
“Amigos, dizia na arrematadora conclusão, vamos usar, para combater esse problema da vida pós-moderna, uma abordagem mais arrojada, porque as novas gerações não querem mais saber de laranjas. Vocês sabem, se o consumo de laranjas aumentasse, toda essa epidemia jamais existiria”, disse olhando para baixo e deixando um curto e surdo suspiro ecoar, para retomar com novo ímpeto: “Mas o que precisamos agora é contextualizar a laranja para o consumidor atual, que não possui interesse em comer frutas. Uma nova embalagem, um novo sabor, propagandas em outdoors pelas cidade, no jornal, na rádio.” Olhava para cima, quase que vendo, ou fazendo a gente ver, o que dizia, “New Orange – é cítrico, é legal, é para você”. A reação foi imediata: palmas e vivas se seguiam, mães abraçando os filhos que não morreriam sem vitamina C, o prefeito sabendo que, se as pessoas estavam felizes, não haveriam razões para descontinuar sua administração; tudo parecia perfeito.
Os meses que se seguiram trouxeram a materialização do plano. A New Orange ganhou o mercado mais com aura de elixir milagroso do que mero produto comercial. Professoras faziam campanhas para que as crianças trouxessem o refrigerante-sensação da Accommodatio para o intervalo das aulas. Em diversos locais públicos, como biblioteca, museu, rodoviária e praças, instalaram-se máquinas com latinhas de New Orange. Dada a posição oficial que o novo produto ganhou, quase que tendo simultaneamente o status de lei e patrimônio público, poucos se atreviam a criticar a criação de Klefetis Capitioso. Mesmo para aqueles que, por alguma razão ou intuição pessoal, a New Orange não era a solução, impunha-se o silêncio, muitas vezes até auto imposto, porque ali estava, se pensava, um mal necessário ou, em um juízo mais positivo, a melhor solução possível. Mas as coisas mudaram com o tempo.
Primeiro, demorou alguns meses até que uma jovem médica, chamada Aleteia, começasse a perceber carência de vitamina C em muitos de seus pacientes, sobretudo os mais jovens. “Doutora, isso é impossível, eu tomo tanta New Orange que devia ter vitamina C acumulada até os netos!” Aleteia escutava coisas assim com tanta frequência que seu senso científico começou a fabricar perguntas. Aleteia resolver, discretamente, fazer algumas pesquisas. Os resultados a perturbaram: nenhuma evidência encontrada de que a New Orange suprisse a falta de vitamina C.  Aleteia refez os testes. E outra vez, e uma última. Sempre resultados consistentes com os da primeira pesquisa.
Ela e um amigo farmacêutico publicaram os resultados em uma revista acadêmica da região. Depois veio um artigo para um jornal de outra cidade. Finalmente, a notícia chegou voando (com perdão do infame trocadilho) em Andorinhas.  Era o caos: protestos na rua, manifestações em favor da New Orange com gente vestida com camisetas laranja (a cor), acusações de que produtores de laranja (a fruta) em outro munício estavam por trás da pesquisa ou que outra empresa de refrigerantes estava usando Aleteia como laranja (na gíria) para minar a New Orange. Não deu outra: a pobre médica se mudou. Aleteia temia pela vida em uma cidade em que não era bem vinda.
Depois dessas conturbações, a fama da New Orange se espalhou e ela passou a ser importada. Klefetis Capitioso sonhava em expandir seu produto por todo país. Ocorre que em um mundo globalizado os referenciais não são locais, mas globais. Não tardou para que pessoas mais esclarecidas começassem a acusar a Accommodatio de ter copiado refrigerantes de outros países. A New Orange era vista não mais como o produto revolucionário, apenas uma reprodução em terreno nacional do que havia lá fora. A partir daí, outras críticas se seguiram: quem bebe do refrigerante, não possui interesse pela fruta, que é a verdadeira portadora de vitamina C; a New Orange faz mal para os ossos e é prejudicial para os diabéticos; alguns dos produtos de sua fórmula são cancerígenos. Até a população de Andorinhas se alarmou escutando tantas coisas ruins sobre a New Orange. Quem não se alarmou foi Capitioso, porque sabia que poderia sustentar a fama de seu produto com silêncio diante das críticas e propaganda agressiva. Tampouco, Juca se alarmou: já estava no meio do seu segundo mandato.
  
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sexta-feira, 5 de junho de 2015

CRISTIANISMO NA TERRA DOS FANBOYS



A cultura Nerd vive de fóruns sobre pormenores. Ela disseca o objeto de admiração em muitos ângulos, em um exercício de multiplicação monotemática. A internet ampliou e estendeu essa característica nerd. Surge a figura do fanboy, uma espécie de Nerd xiita que defende com unhas e dentes seu ídolo, achando argumentos para todas as críticas contrárias. Ele vive de cultuar.
Hoje há fanboys se digladiando em todos os espaços da internet: aqueles que vivem do confronto Messi x Cristiano Ronaldo ou que se limitam a falar de super-heróis. Em praticamente todas as discussões, das mais tolas às pertinentes, há fanboys expressando opiniões tão cegas quanto apaixonadas, em um exemplo de unilateralidade que vai contra a racionalidade das discussões inteligentes, baseadas em argumentos factuais ou, ao menos, factíveis.
O cristianismo pop do século XXI, com seus artistas gospel, pastores-celebridades e escritores evangélicos de autoajuda é o melhor cenário para o surgimento de fanboys. Chega a ser tedioso ver discussões intermináveis sobre quem é o melhor tenor de quartetos de todos os tempos – a própria questão, além de inócua, é impossível de se analisar, ainda mais porque metade do povo que discute isso não conhece mais do que 10 grupos do gênero. A superficialidade parece outra característica do comportamento dos fanboys, mesmo dos cristãos.
Se a admiração extrema beira à idolatria, exaltar artistas cristãos se torna ainda mais perigoso, porque desvirtua o sentimento religioso. Cria-se um vínculo com o cantor ou pregador, como se a experiência religiosa devesse se concentrar em acompanhar seu ministério (ou carreira) e defendê-lo absolutamente.  
Escrevendo aos coríntios, Paulo combate essa mesma classe de sentimentos. “Meus irmãos, fui informado por alguns da casa de Cloe de que há divisões entre vocês. Com isso quero dizer que cada um de vocês afirma: ‘Eu sou de Paulo’; ‘eu de Apolo’; ‘eu de Pedro’; e ‘eu de Cristo’”. (1 Co 1:11-12, NVI). Ao invés de se beneficiar da ministração dos apóstolos, os coríntios compartimentalizaram sua atuação. Eles criaram preferências em torno das personalidades dos pregadores. E, uma vez feito isso, logo surgiram partidos em torno das preferências.
O escritor bíblico combate o sentimento, afirmando que a fé cristã não se baseava no talento de seus expositores, nem tampouco em seu carisma e habilidades pessoais. Usando uma diatribe cheia de ironia e severidade, Paulo indaga: “Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vocês? Foram vocês batizados em nome de Paulo?" (1 Co 1:13, NVI) Tanto na época de Paulo como em nossa cultura digital o problema é o mesmo: concentrar-se desequilibradamente no ministério de pessoas leva a perder de vista o fundamento da fé: a pessoa e ministério do Senhor Jesus.

Paulo, em outro contexto, elogiou aqueles que não aceitavam sua palavra sem uma mentalidade crítica (At 17:11) – o apóstolo era contra os fanboys, mesmo quando era alvo da admiração deles! Vale notar que a palavra grega traduzida por “nobres” pode ser entendida como “mente nobre” ou “mente aberta”. Os bereanos foram elogiados por possuírem uma atitude mental altamente seletiva, do tipo que sabe ouvir e ponderar, sem aceitar um discurso pelo número de recomendações ou pela fama de quem o profere. Seria interessante encontrar mais exemplos dessa mentalidade na contemporaneidade…