domingo, 15 de março de 2015

CONTRA A ACOMODAÇÃO


A vida cristã não pode capitular diante da rotina mundana

"Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18:8). A conhecida sentença de Jesus se parece com um preciso relatório de autópsia. A autópsia da mentalidade egoísta e mundana, tão disseminada no mundo contemporâneo. Não me refiro à sociedade secular. Infelizmente, a profecia antecipa a situação espiritual dos servidores de Seu autor.
Temos de olhar para as palavras de Jesus como um chamado à vigilância no contexto de Sua segunda vinda. Se a fé seria artigo escasso em época de promessas de fartura consumista, não seria por falta de disponibilidade do produto: Deus continua dando fé a quem solicita (Jd 1:3). A crise se relaciona com a falta de demanda. Poucos cultivam a insistência na oração, como a viúva pobre da parábola – história que antecede a afirmação de Jesus e lhe serve de moldura (Lc 18:1-8).
Para o senso comum, fé se parece com um sentimento de pessoas idosas, com pouco estudo e desassistidas pelos serviços públicos. Porém, não se iluda com as aparências: fé não é um sentimento, mesmo sentimento religioso, do tipo que é atribuído a algumas poucas pessoas – por serem mais intuitivas ou dotadas de sensibilidade apurada.
Tampouco a fé se opõe à razão. Ouvi um palestrante que fez a infeliz afirmação de que, ao dispormos de evidências, não precisamos de fé. Nada mais contrário ao sentido etimológico da palavra grega pistis, muito frequente no Novo Testamento; traduzida como fé, transmite a ideia de confiança, crer em algo fidedigno, que se mostre bem estabelecido e digno de crédito. Definitivamente, fé cega nunca foi sinônimo de confiança absoluta!
Por último, fé não se refere aquela esperança que consola os desajudados. Fé não é o consolo fictício dos sem recursos, mas o recurso real dos inconsoláveis pelo pecado e maldade do mundo. Ter fé leva a atuar no mundo em obediência à vontade divina, mesmo quando isso requer atitudes e comportamentos que expressem recusa e negação do status quo.
É preocupante a dissociação atual entre fé e estilo de vida. Devemos nos perguntar se o discurso de que basta "ter Jesus no coração" não chegou ao povo remanescente. Como se sabe, por baixo desse slogan cativante, há toda série de escusas para se manter comportamentos bem diferentes da vida de obediência resoluta que a Bíblia oferece como modelo ao cristão.
Há sempre o risco de deixarmos gostos e preferências definirem, como critérios últimos, nosso curso de ação. Agindo assim, a tendência será a acomodação. E se acomodar constitui o tipo de experiência diametralmente oposta à dinâmica da vida cristã.
Ao permitir que a fé se aproprie da graça transformadora, somos moldados dia após dia à semelhança de Jesus (Rm 12:2). Deixamos de ser quem usualmente éramos (Gl 2:20). Também passamos a ignorar os reclamos do mundo, com tudo o que ele oferece – séries de TV com seus enredos violentos e sensuais; músicas estimulantes (mesmo aquelas de alegado cunho cristão); frequência a casas noturnas, cinemas e shows (alguns até promovidos por cristãos, que, na pratica, pouco diferem das vertentes seculares); relacionamentos sexuais sem compromisso; alimentação à base de fast food e tantos outros itens.
Seria impossível enumerar as atrações que existem e parecem comuns. Mesmo as listas criadas pelo apóstolo Paulo são sugestivas (cf.: Gl 5:19-21; Ef 5:3-8; Cl3:5-11), mencionando praticas bem conhecidas, as quais deveriam ser denunciadas por aqueles que aceitassem a nova vida em Cristo (Fl 2:14-16).
O ponto principal: sem uma fé viva, fundamentada na Bíblia e exercitada em uma vida dependente do Espírito Santo, seremos cristãos reféns de fenômenos culturais que nos submetam a um processo de acomodação em relação ao mundo. E surgirão as mais poéticas desculpas: "não podemos nos alienar das pessoas"; "por que ser tão radicais?"; "vamos nos parecer com o mundo para evangeliza-lo"; "são apenas questões culturais sem importância". Entregando, munidos da Palavra de Deus e dos testemunhos de Ellen G White, a igreja remanescente possui luz suficiente para não se acomodar ao mundo. E, fazendo assim, manterá suas principais características: guardar os mandamentos de Deus e ter a fé de Jesus (Ap 12:17; 14:12)!

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3 comentários:

Tiago Carlos disse...

"Deus continua dando fé a quem solicita (Rm 2:4)"
Não encontrei este texto na biblia, pelo menos não em Rm 2:4

douglas reis disse...

Você está correto. O texto deveria ser esse: "Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos." Jd 1:3.

Alline Lustosa disse...

"Como precisamos de alimento para sustentar nossas forças físicas, assim necessitamos de Cristo, o pão do Céu, para manter a vida espiritual e comunicar forças para efetuar as obras de Deus. Como o corpo está continuamente recebendo nutrição que sustém a vida e o vigor, assim a alma deve estar constantemente comungando com Cristo, a Ele submissa, e confiando inteiramente nEle." O Maior Discurso de Cristo, p.19