sábado, 24 de dezembro de 2016

sábado, 10 de dezembro de 2016

O EVANGELHO NA LÓGICA DO IMEDIATISMO CONTEMPORÂNEO


O tempo não era um problema para os hebreus. Embora o tempo fosse real, não havia a necessidade de controla-lo, por meio de segmentação coerciva. Ironicamente, nossa vida pautada por datas e horas rígidas estabeleceu o controle do tempo sobre nós e não o contrário. Simultaneamente, o tempo vai perdendo seu vínculo com a realidade, especialmente com a intrusão da virtualização trazida pela cibercultura. A conexão com a internet nos desloca para um não-lugar, sem referência de tempo. Só existe uma versão unidimensional do tempo – o agora.
Em um mundo instantâneo, como se vive a espiritualidade? Acostumados com a velocidade da dromocracia – o domínio de uma sociedade em constante movimento de aceleração –, as pessoas se tornam exigentes e impacientes. Ninguém quer esperar. As respostas precisam ser instantâneas, prontas. E decodificadas, porque a impaciência se estende aos domínios da concentração (ninguém quer pensar demais para resolver qualquer questão). Vivemos em um contexto em que tudo flui. A crença pessoal é moldada para atingir o mesmo nível de fluidez que permita às pessoas terem, paradoxalmente, algum vínculo com um ponto sólido.
O cristianismo fluido, líquido, maleável e moldável é a resposta que as pessoas esperam nesse momento. Por isso os movimentos carismático-pentecostais largam na frente quando se trata de falar a linguagem das pessoas hoje. Nessa cristianismo carismático-pentecostal, a conexão com Deus é direta. E empoderadora: a energia da divindade corre nas veias em um fluxo emocional inesgotável, atendendo os anseios do presente. Não há complicações cristãs clássicas, porque o mínimo de doutrina se destaca – dose suficiente para garantir o ponto sólido de apoio. A descomplicação e praticidade do discurso religioso garante sua atualidade. A experiência se reveste de notoriedade e fornece um vínculo com os anseios materiais; afinal, tudo o que reivindicar da parte de Deus, me será concedido (confissão positiva).
A expressão bíblica do cristianismo é mais lenta. Deus Se revela pela Palavra. Ela precisa ser estudada e decodificada, o que exige um compromisso com o Espírito Santo. Estudar as Escrituras não é um investimento que garanta resultados imediatos (embora os resultados sejam garantidamente superiores). Não existe um elo emocional evidente, uma espécie de energização via fluxo emocional. O estilo de vida se apresenta contracultural ao extremo no cristianismo bíblico, capaz de alterar hábitos de maneira incômoda, com provável prejuízo para as relações interpessoais. Obviamente, o cristianismo bíblico não satisfaz as expectativas do imediatismo do mundo líquido.
E esse é o ponto: o que fazer com o cristianismo bíblico? Sua proposta desafia homens e mulheres de todas as épocas a não se conformarem com a cultura, experiência, relacionamentos e até com as expressões derivativas do próprio cristianismo. Se Deus se auto-revelou, como a Bíblia afirma, não poderíamos esperar que Ele o fizesse de maneira satisfatória aos padrões humanos, ainda mais porque tais padrões são resultado da tendência adquirida ao egocentrismo. Essa tendência é o resultado direto do pecado e se interpõe contra a vontade divina. Para salvar o homem de si mesmo, Deus precisa contrariá-lo, esnobá-lo, humilha-lo e leva-lo ao reconhecimento de sua maior necessidade: a salvação. Às vezes, isso leva tempo, porque Deus não Se pauta pela lógica do imediatismo. Mas tempo não é problema para Deus.


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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A DEGRADAÇÃO DO SENSO DA PRESENÇA DE DEUS


A missão que temos é transmitir a última mensagem de advertência. Trata-se de uma responsabilidade solene. Solenidade é um conceito que escapa à contemporaneidade. Sua gravidade é diluída nos filmes de Hollywood, quando nos momentos trágicos parece haver a necessidade de um contraponto cômico. Nem as músicas religiosas atuais conseguem mais representar a solenidade. Talvez, apenas atrás do conceito de reverência, solenidade seja um dos artigos mais raros no mercado atual. Ambos são raros pela mesma razão: a degradação do senso da presença de Deus.
Em um contexto tecnológico, tudo apela aos sentidos. Mas Deus permanece invisível. Os comunicadores instantâneos, ubíquos, fomentam a ilusão de estarmos presentes em diversos lugares e de igualmente termos os amigos próximos. E com tantos elementos atraindo a atenção, o Deus Altíssimo, presente no mundo material, é ignorado. Se a presença do Criador passa despercebida, que dizer da comunhão com Ele? Que dizer da forma de responder ao Seu chamado?
A ironia fatal de uma época em que a adoração ganha contornos de metalinguagem – com músicas de adoração que falam sobre adoração –, é que os cristãos, em geral, não entendem adoração como a resposta obediente ao que Deus fez por mim. Adoração não significa sucumbir a um êxtase emocional, na tentativa de reproduzir a presença de Deus de forma carismática, como se a música e a emoção fossem elementos catalizadores para fazer um download de Deus. Adoração compreende me relacionar com Deus, nos termos que Ele estabeleceu em Sua Palavra. Isso implica em rendição, gratidão, júbilo, disposição para servir e obedecer e tantas outras coisas.
O verdadeiro adorador obedece voluntariamente. Ele quer testemunhar, porque não pode conter o amor que brota nele em resposta ao amor que fluiu do coração de Deus. Com humildade e poder, alegria e tato, sabedoria e entusiasmo, ele prega. Com suas palavras, mas com cada gesto silencioso. Prega usando a Bíblia, mas por meio de sua coerente busca para se mostrar fiel. Não há aquele sentimento estreito de alguém mecanicamente condicionado a fazer algo segundo um programa. Existem muitos manuais, planos e estratégias. Recursos não faltam. Falta é amor, transformação, vidas impactadas pela comunhão. Falta o Espírito de Deus descendo sobre Seu povo a cada manhã.
Ser um adventista é abraçar a missão. Sem os modismos que invadem a literatura evangélica a cada época. Sem o proselitismo pelo proselitismo. Viver a missão, ser a missão, pregar com o fogo de quem ama o Salvador e ama aquelas pessoas que Ele ama. Uma imensa responsabilidade, maior do que qualquer ser humano poderia imaginar.
Uma responsabilidade solene para tempos solenes.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BLACKMONTH - APROVEITE


Nota: terminada a promoção, voltamos ao preço normal do livro: R$ 27,60. Adquira pelo link:



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A OBRA DE OUTRO ESPÍRITO


“Nas igrejas que puder colocar sob seu poder sedutor, [Satanás] fará parecer que a bênção especial de Deus foi derramada; manifestar-se-á o que será considerado como grande interesse religioso. Multidões exultarão de que Deus esteja operando maravilhosamente por elas, quando a obra é de outro espírito. Sob o disfarce religioso, Satanás procurará estender sua influência sobre o mundo cristão.”


Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 20120, 464.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

GLORIFIQUE SEMPRE


Se eu escrevesse um diário, na folha correspondente ao dia de ontem eu jogaria um pote de nanquim. Já viveu um dia em que nada, absolutamente nada, desse certo? Assim o dia de ontem foi para mim.
Minha manhã? A mais estressante possível. Confusões. Confrontos. Nervos à flor da pele. Mal consegui almoçar, de tão tenso que me achava. Saí para fazer compras em Maringá, a cidade grande mais próxima de onde moro. Devido a mudanças no centro, foram removidas algumas vagas para estacionamento localizadas nos canteiros entre as pistas, forçando a estacionar longe das lojas. Na prática, isto significou andar bem mais!
Depois da peregrinação, precisei ir ao supermercado duas vezes. Na primeira, não consegui a lista de compras em meu e-mail e não havia nenhuma rede wi-fi disponível! Precisei ir até um shopping (outra caminhada) para acessar os itens a serem comprados. Quem disse que a tecnologia ajuda quando precisamos?
Ao voltar ao supermercado, já estava passando minha compra no caixa quando esbarrei em um vidro de leite de coco. Adivinhe se ele não caiu no chão e sujou minha calça? Junto ao balconista, havia uma zeladora que acabara de perguntar se precisava limpar algo ali perto. Assim que derrubei o vidro, o rapaz lhe respondeu: “Agora precisa!”.
Aquilo pareceu a prova final de que meu dia fora formidavelmente horrível. “Hoje é o dia em que nem deveria ter me levantado da cama”, disse para a zeladora, como tentando encontrar simpatia para meus infortúnios. Ela simplesmente retrucou em tom triunfante: “Todos os dias devemos nos levantar e glorificar a Deus!” Confesso que se ela tivesse pulado em mim e me acertado no peito com os dois pés não teria doído tanto! Deu até vontade de dizer: “Muito prazer, senhora, eu sou um pastor adventista.” Bem, foi melhor nem ter dito mesmo…
Quando voltei para o carro, eu comecei a pensar, enquanto acomodava as sacolas com as compras, nas coisas positivas que aconteceram ao longo do dia, negligenciadas em meio à maré de infortúnios. E havia muitas coisas boas, bênçãos do Pai celestial que não receberam minha devida gratidão; afinal, eu estava mais preocupado em chorar como uma criança mimada!
Somente quando nos esquecemos de quem é Deus e de Sua sagacidade para cuidar dos detalhes de nossa vida é que passamos a reclamar e ver tudo sob um espectro obscuro. Viver sem considerar a influência do Senhor em todos os aspectos da vida leva a um dramático descompromisso com Seus mandamentos. Afinal, por que obedecer a um Deus que nos abandonou? Tragicamente, se houve abandono, foi de nossa parte, não da do Senhor.

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Mesmo quando tudo dá errado, é certo que ele está conosco

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

DO CONTO DE FADAS AO PESADELO


O sonho de sua infância não era ir à lua ou jogar no Real Madri. Nunca foi brilhante ou ambicioso. Apenas queria o mesmo que qualquer um, sem buscar destaque entre a multidão.
Subitamente, o caipira com mato no canto da boca recebia os aplausos de empresários. Da carroça para o interior de limusines e iates. Não ganhara em nenhuma loteria, nem sorteio da televisão. Sequer fora descoberto por uma agência de modelos (embora as mulheres sentissem o frissom que sua presença causava!). Mas sob seu cabelo desgrenhado e lavado com sabão pousou a coroa real. O menino brejeiro tornou-se o mandatário da nação, quem diria!
Naturalmente, ninguém se assustara mais do que ele próprio! Para quem jamais sonhara com coisas tão espetaculares, o sonho assumia uma forma assustadoramente maior – e real! Quando você ganha algo sem merecer, dado por quem o ama, chega a ser ofensivo mesmo o menor esboço de recusa. O mínimo a se fazer é aceitar, tentando corresponder ao presente.
O menino pobre se tornou rei, sem ter sangue azul ou ser diplomado em ciências políticas em Havard; ele não merecia aquilo, diriam os críticos com razão. Porém, ele poderia ter correspondido à escolha divina.
Poderia.
A tragédia maior das ascensões meteóricas é a dificuldade em lidar com o sucesso quando ele chega sem aviso ou antes do pretendido. E quando falamos em sucesso espiritual, ainda se corre o risco de apressar a derrocada, quando atribuímos as glórias a coisas como esforço, talento, habilidade e merecimento. Ao nivelar as bênção divinas com conquistas humanas, nos desabilitamos à posição em que Deus nos pôs.
Saul, o rei que chegou ao poder como um matuto, logo se sentiu à vontade no trono. Passou a tomar decisões sem se importar com conselhos de sacerdotes, profetas ou mesmo do próprio Deus. Governar se tornou algo que ele sentia depender de seu instituto nato de líder. E quando Deus o rejeitou, escolhendo um homem melhor para liderar Israel, o pior de Saul veio à tona: invejoso, rancoroso, capaz de armar ciladas e matar quem quer que ficasse entre ele e o seu reino. Você já viu essa história, certo?
O ciclo se repete, mesmo entre o povo escolhido por Deus. Afinal, é próprio do ser humano amar o poder e se apegar a ele com um carinho que brota do egoísmo enraizado em nosso coração. Se você duvida, basta assistir uma típica reunião eclesiástica. Desde a igreja local, até os níveis superiores de nossa organização, parece sempre haver indivíduos que amam mais o poder que sentem possuir do que o Deus que lhes oportunizou servir com seus dons a Sua causa.
É fácil nos esquecermos de onde Deus nos buscou e reconhecer que os dons vieram de Seu Espírito (1 Co 12:11). Em algum momento, passamos a ocupar o centro, empurrando aos poucos Deus para a preferia da vida cotidiana (deixe Ele continuar sendo o Senhor do sábado apenas). Tragicamente, enquanto disputamos o poder, Deus escolhe representantes humildes com os quais consiga Se comunicar sem barreiras. E a obra dEle será concluída por pessoas cujo nome continue desconhecido em todos os círculos do poder.
O problema não está na liderança em si, nem poderia estar, uma vez que Deus usou grandes líderes em momentos-chave da história, como Abraão, José, Moisés, Josué, Gideão, Sansão, Samuel, Daniel e Neemias, para citar alguns nomes. Liderança nunca foi sinônimo de desonestidade, corrupção ou opressão. Entretanto, o fato de alguém ser chamado para servir a Deus de modo especial demanda mais íntima comunhão com Ele e uma vida à altura do serviço. Somente líderes espirituais se acham prontos para servirem em assuntos espirituais. Se o talento, a habilidade de planejar, a coragem para executar e força de vontade não forem devidamente consagrados a Deus, a liderança se converterá em um jogo de poder com um verniz eclesiástico.

Deus chama a todos para usarem seus dons a fim de semear o evangelho, apressando o regresso de Jesus. Na luta com o orgulho e atitudes carnais, podemos aprender com o exemplo de Saul, o primeiro rei de Israel. Esse livro foi escrito especialmente para a atual geração de adventistas, que muitas vezes é tentada a desanimar em face de tantos conflitos que existem em suas igrejas locais ou tenta achar um caminho para renovar a fé adventista. Lembre-se de que Deus conduz essa igreja. E, se seguirmos os métodos dEle, buscando reavivamento e reforma pessoais, veremos uma melhora nos relacionamentos entre cristãos, além de um caminho que permita viver o evangelho em sua plenitude, incluindo o uso de nossos dons para cumprir a missão.

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O coração do discipulado
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domingo, 9 de outubro de 2016

RESTAURADO



Rompe-se a paz do lar: o homem sem roupas no Éden
Sente a rispidez do ar, que lhe raspa as entranhas.
Rapidamente, os dois olhos de Eva lhe pedem
Para repor a paz nestas horas estranhas.

Tudo quanto se fora, ao fim nos será dado
– O Éden há de voltar! Gramas grassando agora
Mais verde vão por todo o jardim restaurado,
Onde a beleza cobre cada grão que aflora.

Perante o esplendor vivo em cada planta e ser,
Há outra luz que flui do trono altaneiro:
Ali, mesmo anjos, com estatura e poder,
Dão glória, glória, glória ao Senhor e ao Cordeiro.

E a glória de Deus é doar-Se à criatura,
Com materno olhar, um olhar que, ao amar, reluz;
Para espanto do cosmo, o amor em forma pura
Demonstrou seu extremo ao assumir a cruz.

Por isso, os vinte e quatro anciãos dão louvor:
Tudo novo se fez! Adeus à nódoa rubra.
Em estatura e graça, homens crescem no amor
E veem no mundo mais para que se descubra.

Enfim, a paz! Enfim, a perene certeza
Da harmonia entre Deus e o homem. Enfim, a vida
Como se planejou em seu princípio. À mesa,
Deus Se assenta ao redor da família reunida.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A IMAGEM NA MÍDIA ADVENTISTA


A mídia é construída e sustentada pelo poder da imagem. O que celebridades midiáticas vestem ou costumam dizer se torna icônico. O icônico é o novo clássico: digno de ser imitado, mimetizado. O termo clássico significava, originalmente, aquilo que é digno de ser estudado em classe. Tem de ser reproduzido, porque está baseado em convenções (especialmente literárias e relacionadas às artes plásticas). As convenções estabelecem o lugar-comum, ou seja, o modelo para cada nova produção artística. A boa arte se faz dentro dessas convenções. A qualidade não tem que ver com absoluta originalidade, mas em respeitar com louvor o lugar-comum e fazê-lo com elegância.
No século XX, a arte moderna se ergueu contra as convenções, recuperando o ímpeto romântico (libertário em sua essência) e extravasando-o: havia, então, um anarquismo quase infantil, mas politizado e autoconsciente. Ironicamente, a mídia popular de massa (surgida ainda no período moderno) impõe o novo clássico: o icônico, a convenção da imagem. Você sabe que um herói entra em cena no filme pelos cortes, ângulos, fumaça, trilha sonora, postura corporal e tipo de roupa. Há uma maneira de filmar e apresentar a imagem do herói (tão estabelecida que já virou alvo de pastiche). Quando se quer que uma banda faça sucesso, o produtor se preocupa não apenas com a qualidade do material sonoro, mas com a capa do CD, o site oficial do grupo, as roupas que usarão e os programas de televisão nos quais estarão.
A imagem impõe uma nova racionalidade. O conteúdo está vinculado à aparência, responsável por fomentar o interesse sobre o produto. Ninguém é bem-sucedido se não usar certa marca de roupa. Ninguém é legal se não ouvir determinada música. Ninguém faz sucesso se não possui milhões de seguidores. Não à toa, as redes sociais que mais crescem (Instagram e Snapchat) não se baseiam em texto ou informação, mas no poder da imagem, do registro, explorado ad nauseaum. O sucesso inconteste dos youtubers não me deixa mentir.
Nesse contexto, a mídia adventista se forma. Primeiro, em uma tentativa embrionária, com a Chapel Records, dos anos de 1950 a 1970. Basicamente, a empreitada nasceu para ser uma gravadora que reunia os grandes músicos adventistas (King’s Heralds, Faith for Today Quartet, Del Delker, Ray Turner, King’s men, Brad Bradley e, posteriormente, Heritage Singers). Outras inciativas ganharam formas nas décadas seguintes, em diversos países do mundo, especialmente os programas radiofônicos e televisivos (precedidos pelo Voice of Prophecy e Faith for Today nos EUA). Isso até a consolidação do Hope Channel e seus similares (Novo Tiempo e Novo Tempo, para citar os exemplos presentes em nossa geografia) e da rede particular 3ABN.
Os adventistas jamais sonharam em gerenciar um império das telecomunicações. Suas iniciativas no campo da mídia em massa são para serem encaradas da mesma forma que seus investimentos em editoras, agências sociais, redes de educação e hospitalar e indústria alimentícia: são suportes missionários. Devem existir como parte de um projeto de influência, em prol da mensagem de advertência que deve ser dada (Ap 14:6-12). O perigo surge apenas quando uma instituição perde seu foco e se torna um fim em si mesma.
Há o risco da mídia adventista se tornar um gueto autorreferente. Usar linguagem que apenas os entendidos assimilem. Seria tremendo desperdício e despropósito. O outro extremo seria desenvolver uma mídia com mensagens genéricas, mal disfarçando o tom ecumênico e com exacerbada ênfase na imagem, copiando os modelos seculares, uma mídia icônica (no sentido negativo). Os efeitos de ambos os extremos seriam danosos, algo como irrelevância ou entretenimento, o discurso religioso sectário ou o tom de religiosidade secularizada e carismática (no sentido religioso, pentecostalizada). O risco permanece e não podemos dizer que se tenha chegado a um ou outro polo. Porém, todo cuidado é pouco. Resta nos lembrar que, no mundo da imagem, nossa salvaguarda é a Palavra (Mt 4:4)!

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

A MISÉRIA DESTE MUNDO


Nosso mundo é um vasto hospital [em inglês, lazar house, ou seja, um leprosário], ou seja, um cenário de miséria em que não ousamos permitir mesmo que os nossos pensamentos se demorem. Compreendêssemos nós o que ele é na realidade, e o peso que sobre nós sentiríamos seria terribilíssimo. No entanto, Deus o sente todo. A fim de destruir o pecado e seus resultados, Ele deu Seu mui dileto Filho, e pôs ao nosso alcance, mediante a cooperação com Ele, levar esta cena de miséria a termo. “Este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim.” Mateus 24:14. 

Ellen G. White, Educação, 263.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TODOS TEMOS UM PAI


Todos temos um pai – um modelo gerador de perspectivas. Se nosso pai, nosso referencial, aquilo que origina nosso filtro para interpretar a realidade, não for Deus, certamente teremos alguém ocupando a lacuna. Mais do que uma denúncia da hipocrisia dos judeus, João 8:38 ensina que há a presença do conflito cósmico por trás daquilo que usamos para determinar o que é a verdade. Nossos pressupostos não se limitam a tentativas humanas, mas possuem a influência do mundo espiritual. Isso implica que o resultado final, aquilo que escolhemos ser e a forma como atuamos no mundo, nos identifica com Deus ou com o diabo (Jo 8:41-42).

De forma similar, o apóstolo Paulo afirma que o “deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2 Co 4:4). Segundo o texto, descrer é o resultado da cegueira provocada pelo diabo. A declaração é complementada com a ideia de que Deus “mesmo brilhou em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (v.6). Assim, da mesma forma como no texto de João, crer ou descrer não depende simplesmente de argumentação lógica ou exposição da verdade de modo proposicional (ainda que Paulo aluda à “clara exposição do evangelho”, v. 2); para além dos elementos cognitivos e racionais há o poder de pressuposições, influenciadas pela atuação de poderes espirituais. Cremos mediante nossa escolha espiritual em nos “filiar” a um lado do embate cósmico. Depois disso, criamos uma rede de ideias pré-concebidas contra ou a favor da verdade. Por essa razão, Jesus sabia da inutilidade em realizar sinais diante de uma geração incrédula (Mt 12:29; 16:4). E novamente Paulo postula que as coisas espirituais se entendem de modo espiritual, ou seja, por pessoas relacionadas com elementos espirituais (1 Co 2:13-14), sem excluir a atuação do Espírito do processo de decodificar a mensagem divina aos homens (a Verdade, na linguagem joanina).

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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DO EXISTENCIALISMO PRIMITIVO AO PRINCÍPIO POPEYANO


Do existencialismo primitivo ao princípio popeyano: considerações pseudo-acadêmicas




A genética do existencialismo parece não constar nas discussões filosóficas hodiernas, razão pela qual retomo aqui alguns conceitos que me parecem fundamentais para uma compreensão mais bem acurada da fundação do pensamento contemporâneo. Em um famoso discurso de matizes existencialistas, proferido em Bredock, ainda em 1960, destaco a frase-conceito “yabba dabba doo” (Flintstone, 1960). De etimologia incerta, o termo deveria ser submetido não à arqueologia do saber, mas ao método arqueológico que admite “Algumas vezes, buscar por tesouros perdidos não é arqueologia. É corrida contra o mal.” (JONES, 1986).
Não é de todo inverossímil pensar nas elucubrações a respeito do “yabba dabba doo”, grito de alforria contra uma sociedade conservadora. Aliás, aliada a essa expressão, nos deparamos com outra de teor igualmente libertário, que remonta a um período posterior: “Capitão Caveeerna” (CAVERNA, 1977). Em ambas se depreende uma ontologia da rusticidade, e é forçoso evocar a noção do ser em estado bruto, ou cheio de astúcia, para empregar um termo caro a Chapolin (1970).
Todavia, o “elo”, no dizer de Cebolinha, seria confinar tais libelos à sua própria época, esquecendo-se de que “yabba dabba doo” carrega uma compreensão hermenêutica poderosa – e “com grandes poderes, vem grande responsabilidade” (PARKER, 1962). Aqui me refiro à vitalidade do ethos primitivo como incentivo libertário, fator primordial para se reaver a vitalidade em tempos nos quais sói constatar, no dizer de Hard, “oh vida, oh azar” (1962). É preciso também constatar, parafraseando o último Yoda, que de mais ânimo precisamos nós para uma consciência nova ter. Talvez seja uma outra maneira para a experiência de ativar o sétimo sentido (SEYA, 1986).
Somente a legitimação da consciência histórica evitará auto repressões frequentes (MENUDO, 1984). Não posso olvidar nesse ponto o tema do ciúme como forma repressiva (ULTRAJE A RIGOR, 1985). Mensurar o preço da repressão é medida sinus qua non para um apelo à experiência yabbadabbaduística. Aliás, outro cuidado que é mister é mensurar a síndrome do “trauma de Marta” (BATMAN, 2016).

Resta um alento para a condição de insuficiência instigada pelas demandas dessa selva de Pedras (TITÃS, 1989): a busca por um elixir potencializador. Isso já é adotado por algumas culturas, como o exemplo de comidas exóticas (NATIONAL KID, 1960). E não se pode escapar do exemplo clássico legado pela ideologia popeyana – o famigerado espinafre (POPEYE, 1929). Creio que esses artifícios darão suporte a uma existência municiada de “ousadia e alegria” (NEYMAR, 2010). Enquanto isso, o ser-aí fica por aí mesmo…

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ADVENTISTAS E OS CANAIS EVANGELIZADORES


Queremos impactar a cultura usando a cultura. Queremos atingir as pessoas usando o que lhes é familiar. Imaginamos que os elementos culturais sejam apenas o invólucro perfeito para o conteúdo que temos a oferecer, o evangelho. Assim, passamos a investir em filmes, games, seriados e música pop cristã. Adaptamos modelos midiáticos de sucesso para convertê-los em canais evangelizadores.
É o pastor-compositor que admite criar “música-chiclete”; o diretor de uma rádio que fala em “evangelismo indireto”, para justificar a presença de músicas pentecostais, que mantém a audiência de um nicho, para o qual se pode pregar; é o pastor de jovens que advoga o uso de filmes seculares para possibilitar o diálogo com a juventude; é o doutor em missões que elogia evangélicos pós-modernos por “alcançar” a juventude pós-moderna; são inúmeros os exemplos.
Essas decisões, tomadas por atores individuais, ou mesmo em nível institucional, parecem reflexo de tendências que povoam segmentos do evangelicalismo norte-americano há anos. Quando eles falam de crescimento de igrejas, surgem adventistas que “descobrem” o crescimento de igreja; quando o tema é plantio de igrejas, voilá, temos nossos plantadores! Evangelismo urbano? Aí vamos nós. A moda é ser missional? Somos todos missionais. Estão falando em “igreja simples”? Por que não? Evangelismo para as novas gerações? Queremos carona.
Por um lado, não se pode demonizar toda contribuição evangélica apenas por não ser originária de autores adventistas. Há autores sérios com contribuições importantes. E há problemas reais que outros perceberam primeiro, dando contribuições úteis. Entrementes, muita coisa é feita sem reflexão adequada, a toque de caixa, o que impede que se meça as consequências das importações metodológicas. Todo esforço para minimizar o impacto das metodologias evangélicas incorporadas de forma acrítica ao adventismo não é suficiente para esconder as consequências negativas que surgirão.
Um exemplo próximo e oportuno: Dan Simpson era um pastor preocupado com os secularizados. Ele cria que os métodos tradicionais falhavam em evangelizar esse nicho. Imbuído das ideias de Peter Wagner (pensador neopentecostal que se diz um apóstolo moderno e está ligado ao seminário Fuller), ele chegou a contar com a assessoria de Carl F. George, um consultor de igrejas associado ao Fuller Institute. Finalmente, Simpson obteve apoio para colocar suas ambições em práticas, estabelecendo o Colton Celebration Center, em 1989.
Essa congregação usava um edifício alugado da denominação Assembleia de Deus. Era uma congregação voltada para o evangelismo de pessoas secularizadas, dando origem ao movimento Celebration, que causou imensa discussão na literatura adventista das décadas de 1980 e 1990. Atualmente, o movimento morreu, mas algumas das congregações, bem como seus pastores, continuam operando na mesma tendência, com a diferença de que não são mais adventistas. Aqueles que não aprendem com a História são fatalmente castigados com a sua repetição diante de seus olhos.

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quinta-feira, 9 de junho de 2016

O USO APOCALÍPTICO DA EXPRESSÃO “NOVO CANTO” E SEU SIGNIFICADO PARA A ADORAÇÃO


Douglas Reis


Os hinos que aparecem no Apocalipse (4:8-11; 5:9-14; 7:10-12; 11:15-18; 12:10-12; 15:3-4 e 19:1-8) se originam em um contexto de “concílio divino”. Tal expressão descreve imagens utilizadas pelos profetas que situam Yahweh entre seres celestiais.[1] A maioria dos hinos possui caráter antifonal (i.e. partes cantadas por um grupo e repetida por outro).[2]  Justamente na cena introdutória do sete selos (Ap 4-5),[3] no que seria o segundo canto a constar no livro, encontramos a primeira ocorrência da expressão “novo canto” (Ap 5:9). Ela é novamente utilizada por João na descrição dos 144 mil (Ap 14:3). O propósito desse artigo é discutir o significado do “novo canto” em seu contexto apocalíptico. Ao fim, sugere-se quais seriam as implicações da expressão para a adoração.
Entre os modelos de interpretação do Apocalipse, os mais conhecidos seriam: historicismo, preterismo, futurismo e idealismo. Tradicionalmente, a Igreja Adventista emprega o modelo historicismo, método já utilizado desde a Reforma Protestante e também seguido pelos mileritas.[4]
Devido à delimitação de espaço, aqui não se tratará exaustivamente de estrutura do Apocalipse. Entre os intérpretes adventistas, há décadas[5] se defende a estrutura quiástica do livro, às vezes de modo tão intrincado que soa pouco plausível;[6] apesar da existência de quiasmos no Novo Testamento, o intérprete pode selecionar temas de sua escolha, o que favorece a criação de quiasmos como parte da estrutura de um livro inteiro.[7] Por isso, esse trabalho assumirá somente as cenas do Apocalipse propostas por Stefanovic[8] e a divisão entre parte histórica (Ap 1:10-12:17) e escatológica (Ap 15:1-22:9),[9] ou “a presença sustentadora de Cristo e Seu glorioso advento”.[10]

“Novo canto” em Apocalipse 5:9
Em Apocalipse 4-5 o acúmulo de diversos elementos relacionados ao santuário sugere um processo no qual todo o santuário esteja envolvido; no Antigo Testamento, em apenas duas ocasiões isso ocorria: no dia da expiação (Lv 16) ou na inauguração do santuário (Ex 40; 1 Rs 6-8).[11] As duas possibilidades suscitaram acalorado debate entre intérpretes adventistas.[12]
Entretanto, parece que o peso da evidência favorece a ideia da inauguração: (1) a conexão da cruz com a entronização (Ap 3:21), conceito também presente no livro de Hebreus (8:1-10:22); (2) a presença do cordeiro, o sacrifício usual da inauguração (Ex 40:29; Lv 1:10); (3) a ausência de termos ligados a julgamento e o fato do sacrifício resultar em intercessão (5:8); (4) a ligação do dia da expiação com a seção final do livro;[13] (5) O paralelo entre Apocalipse 4-5 e 19:1-10,[14] de onde se nota que o início do ministério celestial de Jesus precede os selos históricos (Ap 6:16-17; 8:1), enquanto os “selos escatológicos” (Ap 19:11-21:1-8) são precedidos pela última cena do santuário celestial no Apocalipse (19:1-10), com hinos que celebram o julgamento da meretriz/Babilônia (Ap 17-18);[15] (6) a linguagem usada por João deliberada e intencionalmente remetendo ao tipo de entronização do rei messiânico predito no Antigo Testamento (cf.: 2 Rs 11:12-19; 2 Cr 23:11-20; 1 Rs 1:32-40); (7) o cumprimento da promessa da perpetuidade do reinado messiânico (Jr 23:5; 33:14-22; Ez 37:24:28; Am 9:11-12; cf.: Dn 7:13-14)  como fator central para a igreja primitiva, que viu seu cumprimento em Cristo (Fl 2:6-11);[16] (8) O contraste entre Daniel 7:9-14, claramente uma cena de juízo, com Apocalipse 4-5.[17] Por essas razões, o presente artigo assume que o contexto de Apocalipse 4-5 reporta à entronização de Jesus e à inauguração do serviço do santuário celestial.
Alguns sugerem que todos representados ao redor do trono – inclusive João – se encontram ali como seres espirituais, ou seja, suas almas estão ali, não seus corpos.[18] Entretanto, essa conclusão parte de pressuposições especialmente vinculadas ao conceito da atemporalidade do ser divino.[19] A cena possui diversos personagens reais: “Aquele que está assentado no trono” (Ap 4:3, 9; 5:7,13), adorado pelos demais personagens, é identificado como o Deus criador (Ap 4:10-11). Os “vinte e quatro anciãos” (Ap 4:4, 10; 5:6,8,14), que aparecem em outras partes do livro (7:11, 13; 11:16; 14:3; 19:4), são provavelmente santos glorificados, em possível alusão aqueles que ressuscitaram por ocasião da morte de Jesus (Mt 27:51-53).[20] O Espírito Santo é representado pela expressão “os sete espíritos de Deus” (Ap 4:5; 5:6). Os “quatro seres viventes” (Ap 4:6-8; 5:6,8,14) são anjos, talvez serafins (Is 6:2-3);[21] pode-se ver no livro de Ezequiel (1 e 10) a interação constante entre Deus, Seu trono e os quatro seres.[22] O Cordeiro/Leão (Ap 5:5-6,8, 12-13) é uma representação do Senhor Jesus, o rei messiânico da linhagem de Davi e o Servo Sofredor que Se entregou pela humanidade (cf.: Is 53). Por fim, se menciona a presença de “muitos anjos, milhares de milhares e milhões de milhões” (Ap 5:11).
O capítulo 5 se inicia com a questão do livro contendo sete selos (Ap 5:1), ou seja, um livro perfeitamente selado, sendo que a construção verbal indica um “passivo divino”, revelando a intenção divina de selar o livro.[23] Enquanto Apocalipse 4 dá destaque a Deus, o Pai, vemos no capítulo seguinte a atenção ser voltada para Jesus, estando ambos intricadamente conectados.[24] A dignidade do Cordeiro, predicado que lhe permite abrir o livro, está associada com três elementos: (1) a morte violenta: ao dizer que o Cordeiro foi morto (gr.: sphazō), João fala de um violento assassinato, aludindo à morte do cordeiro pascal; (2) a compra dos homens: comprar (gr.: agorazō) implica em transação comercial, como no caso da compra de escravos; (3) o estabelecimento do reino.[25]  Ademais, Apocalipse 5 trata da transferência do julgamento divino para Cristo, que assume a responsabilidade como Senhor da História humana.[26]
Assim como no final do capítulo 4 (v.11) existe um hino ao Criador, no capitulo 5 o foco da adoração é o Cordeiro (v.9-10, 12-13). Ambos os hinos permitem aos adoradores participarem tanto do passado (criação), quanto do futuro (vitória gloriosa do Deus redentor).[27] O hino entoado no capítulo 5 é denominado um “novo canto” (gr.: ödën kainën). A expressão nos remete especialmente ao livro de Salmos (33:3, 40:3, 98:1; 144:9, 149:1), mas também a Isaías (42:10). No texto hebraico, a expressão (shiyr chädäsh) é a mesma em todas as passagens. Todavia, na Septuaginta, ödën kainën aparece somente em Salmo 144:9, sendo usados termos equivalentes nos demais textos. E geral o “novo canto” se relaciona à (1) exaltação da providência de Deus, desdobrada em Seu poder criador e na proteção ao povo da aliança (Sl 33); (2) libertação em momentos de crise (Sl 40; 144); (3) a vitória e juízo divinos (Sl 98, 149; Is 42). Esses três aspectos estão presentes no canto dos anciãos (Ap 5:9-11).

“Novo canto” em Apocalipse 14:3
Os eventos iniciados em Apocalipse 12 e desdobrados no capítulo seguinte são interrompidos por uma nova sequência de eventos iniciados no capítulo 14.[28] O povo selado de Deus aparece no monte Sião, como cumprimento de Joel (2:32), o que implica na vitória final de Deus libertando Seu povo no tempo do fim.[29]
Há paralelos entre Apocalipse 14:1-5 e 7:1-8: (1) a menção aos 144 mil; (2) a marca da besta e o selo divino (que em 14:1 é explicitamente relacionado com o nome do Cordeiro e de Seu Pai).[30] Outro interessante paralelo entre Êxodo 19 e Apocalipse 14:1-5 é mostrado por Shea: (1) localização: monte Sinai (Êx 19:23) / monte Sião (Ap 14:1); (2) localização: ao pé do monte (Êx 19:23) / no monte (Ap 14:1); (3) pessoas presentes: 12 tribos de Israel (Êx 19:1, 3, 6) / 144 mil, vindos das 12 tribos de Israel; (4) uma voz do céu: trovões e instrumentos musicais – de trombeta (Êx 19:16) / trovões e instrumentos musicais – harpas (Ap 14:2); (5) origem do povo: remidos do Egito (Êx 19;4) / remidos da Terra (Ap 14:3); (6) pureza do povo: “não se acheguem a mulher” (Êx 19:15) / “não se contaminaram com mulheres” (Ap 14:4); (7) pureza do povo: Moisés consagrou o povo “e eles lavaram as suas vestes” (Êx 19:14) / são “imaculados” (Ap 14:5); (8) palavras do povo: “Faremos tudo o que o Senhor ordenou” (Êx 19:8) / “Mentira nenhuma foi encontrada em sua boca.” (Ap 14:5).[31]
A expressão “novo canto” aparece de novo nesse capítulo (14:3), seguida pela observação peculiar: “Ninguém podia aprender o cântico, a não ser os cento e quarenta e quatro mil que haviam sido comprados [gr.: agorazō] da terra.” Digno de nota é o uso do verbo comprar (agorazō) e sua reiteração (Ap 14:4), aparecendo como traço identificador dos 144 mil. O termo ocorre outras duas vezes no Apocalipse, com referência às atividades da besta (Ap 13:17; 18:11); porém, tanto no capítulo 5 quanto no 14, a ação redentora do Cordeiro é o tema do novo canto, o que acaba potencializado pelo fato de uma multidão de salvos cantar dessa experiência diante da coorte celestial. Sem dúvida, um canto que “é a expressão da experiência vitoriosa vivida com Cristo, em meio às tribulações que lhes causou a guerra do dragão.”[32]

Considerações finais
Ao considerar as duas ocorrências da expressão “novo canto” em Apocalipse (5:9; 14:3), fica claro que ela se aplica a seres redimidos, que experimentaram a transformação integral (1 Co 15:54-55), na condição daqueles que ressuscitaram por ocasião da morte de Jesus ou como parte da multidão de remidos reunida durante o retorno de Jesus (1 Jo 3:1-2). O que podemos aprender ao receber informação inspirada sobre a adoração perfeita daqueles que foram resgatados da servidão do pecado? Sugiro quatro importantes preceitos:
1. A adoração é centrada em uma experiência espiritual a partir de algo que Deus realiza na vida do adorador: ninguém pode participar da adoração a não ser que compreenda e reconheça as ações divinas em seu favor. Adorar é resposta do homem, não sua iniciativa. Qualquer estímulo para a adoração que não esteja focado na ação redentora de Deus será insuficiente, gerando uma atmosfera de formalismo ou de entretenimento religioso alheio à teologia bíblica;
2. A adoração é manifesta em uma experiência comunitária a partir do que Deus realiza por Seu povo: embora possua aspectos pessoais, a adoração apresenta viés coletivo. O culto não é mero ambiente para a socialização, mas uma reunião daqueles que experimentam coletivamente as misericórdias de Deus. A ideia de que se pode adorar a Deus à parte da comunidade da fé não é bíblica e tampouco contribui para um desenvolvimento espiritual do adorador;
3. A adoração é traduzida na experiência de exaltar a Jesus acima de qualquer outro componente humano: para além de reconhecer os atos de Deus, é necessário enaltecer Sua pessoa. Em ambos os textos, Pai e Filho são adorados por méritos (Suas ações) e atributos (quem são). Quando Jesus é exaltado, é impossível deixar de cultivar a submissão, a entrega, a obediência e o serviço a Ele. Não há espaço para ruídos na adoração, porque as atenções se voltam para Aquele que as merece acima de qualquer outro ser no universo. Evidentemente, para que isso ocorra, a adoração não pode ser antropocêntrica, preocupada em produzir satisfação ou êxtase emocional, procurando elementos da cultura secular que atraiam o adorador. A adoração necessita ser compatível com a santidade, dignidade e pureza dAquele que é o Cordeiro de Deus;
4. A adoração é declarada na experiência de testemunhar para todo o universo a singularidade da redenção: os atos de Deus no conflito cósmico revelam Seu caráter e, ao reconhecer Sua bondade em nos redimir, testemunhamos para o Universo Seu amor incomparável. Ainda que os seres não caídos entendam apenas conceitualmente aquilo que experimentamos, poderão comprovar a retidão dos juízos de Deus em nossa vida.
Certamente, mesmo na realidade da vida cristã em santificação, já nos inserimos no contexto de adorar a Deus com um “novo canto”. À medida que avançamos em relacionamento com Deus mediante Jesus, o Espírito Santo nos preparará para a adoração na eternidade. Portanto, se faz preciso renovar diariamente nossa experiência como verdadeiros adoradores, fortalecendo-nos para a batalha final em torno de quem merece ser adorado.




[1] Steven Charles Grabiner, “Revelation’s Hymns: Commentary on the Cosmic Conflict” (tese doutoral, University of South Africa, 2013), 318–319, 65.
[2] Brian K. Blount, Revelation (Louisville, Ky: Westminster John Knox, 2009), 95.
[3] Ranko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ: Commentary on the Book of Revelation, 2a ed. (Berrien Springs, Mich: Andrews University Press, 2009), 30.
[4] Zoltán Szarlos-Farkas, The Rise and Development of Seventh Day Adventist Spirituality: The Impact of the Charismatic Guidance of Ellen G. White (Cernica, Romania: Institutului Teologic Adventist, 2005), 97–98; Douglas Morgan, Adventism and the American Republic: The Public Involvement of a Major Apocalyptic Movement (Knoxville: University of Tennessee Press, 2001), 6. “Durante a última geração tem havido vários desafios à compreensão adventista de Daniel e Apocalipse. Alguns que desejam ampliar nossa compreensão ou focalizar de modo especial essas profecias, ofereciam aplicações especulativas da profecia na história.” Jon Paulien, “A Hermenêutica Da Apocalíptica Bíblica,” in Compreender as Escrituras: Uma Abordagem Adventista, ed. George Reid (Engenheiro Coelho, São Paulo: Unaspress, 2007), 245.
[5] “Durante este terceiro e último período [a partir de 1970], muitos eruditos bíblicos adventistas começaram a apreciar a arte interna do Apocalipse de João e focar seu estudo na composição literária do livro e sua unidade estrutural”. Glúder Quispe, The Apocalypse in Seventh-day adventist interpretation (Lima, Peru: Universidad Adventista Unión, 2013), 199. Strand foi pioneiro nessa nova tendência. Ver Kenneth A. Strand, Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines, with Brief Introduction to Literary Analysis, 2da ed. (Naples, FL: Ann Arbor Publishers, 1979).
[6] Shea compara os quiasmos de Apocalipse às rodas da visão de Ezequiel, defendendo estruturas quiásticas dentro de outros quiasmos, relacionandos à macro-estrutura de um livro. William H. Shea, “The Controversy over the Commandments in the Central Chiasm of Revelation,” Journal of Adventist Theological Society (Berrien Springs, MI, 2000), vol 11, no 1-2, 216.
[7] David A. deSilva, “X Marks the Spot? A Critique of Use of Chiasmus in Macro-Structural Analyses of Revelation,” Journal for the Study of the New Testament (London, UK, 2008), vol. 30, no 3, 368–369.
[8] Stefanovic, Revelation of Jesus Christ, 30.
[9] C. Mervin Maxwell, Uma Nova Era Segundo as Profecias Do Apocalipse, 3a ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), 62–63. Naden sugere que a parte histórica se estenda de Apocalipse 1-12:12 e a parte escatológica cubra 12:11-22. Roy C. Naden, The Lamb among the the Beasts: A Christological Commentary on the Revelation of John Unlocks the Meaning of Its Many Numbers (Hagerstown, MD: Review & Herald Publishing, 1996), 20.
[10] Hans LaRondelle, How to understand the end-time prophecies of the Bible (Sarasota, FL: First Impressions, 1997), 99.
[11] Jon Paulien, “The Role of the Hebrew Cultus, Sanctuary, and Temple in the Plot and Structure of the Book of Revelation,” Andrews University Seminary Studies (Berrien Springs, MI, 1995), vol. 33, no. 2, 251.
[12] Sumários das duas posições se encontram em: Norman R Gulley, “Revelation 4 and 5: Judgment or Inauguration?,” Journal of Adventist Theological Society (Berrien Springs, MI, 1997), vol. 8, no 1-2; Milton L. Torres, “Apocalipse 4 e 5 na teologia Adventista,” Revista Teológica Do Salt-Iaene (Cachoeira, Bahia, 1997), vol 1, no2.
[13] Paulien, “The Role of the Hebrew Cultus,” 251–252.
[14] LaRondelle sugere que o terceiro paralelismo do livro seria as seções de 4-6 e 19-2. LaRondelle, How to Understand the End-Time Prophecies of the Bible, 101.
[15] Maria Emilia Schaller de Ponce, “Reciprocidad Teológica de Apocalipsis 4-5 Y 19:1-10 Y Su Beneficio En La Interpretación de Apocalipsis 4-5” (Tese de graduação, Universidad Adventista del Plata, 2004), 161, 118.
[16] Ranko Stefanovic, “The Background and Meaning of the Sealed Book of Revelation 5” (tese doutoral, Andrews University, 1995), 208–218.
[17] Maxwell, Uma Nova Era Segundo as Profecias Do Apocalipse, 172–173.
[18] Charles Thompson, Revelation Explained (Wesley Chapel, Florida: Tisip Company, 2011), 48.
[19] Para uma discussão sobre os efeitos danosas de pressuposições gregas para o entendimento sobre Deus e o impacto disso na teologia, ver Raúl Kerbs, El problema de la identidad bíblica del cristianismo: las presuposiciones filosóficas de la teología cristiana: desde los presocráticos al protestantismo (Libertador San Martín: Editoral Adventista del Plata; Adventus, 2014), 69-80.
[20] Stefanovic, Revelation of Jesus Christ, 185–186.
[21] Maxwell, Uma Nova Era Segundo as Profecias Do Apocalipse, 154.
[22] Silvia Scholtus, “Los Seres Viventes de Apocalipsis: Posibles Relaciones de Tiempo Entre Las Escenas Segundo Y Cuarta,” DavarLogos (Entre Ríos, Argentina, 2013), vol. XII, no 1-2, 163.
[23] Stefanovic, “The Background and Meaning,” 143.
[24] Grabiner, “Revelation’s Hymns,” 109.
[25] Robert W. Wall, Revelation (Grand Rapids: Baker Books, 1991), 103–104.
[26] LaRondelle, How to Understand the End-Time Prophecies of the Bible, 123.
[27] M. Eugene Boring, Revelation: Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching (Louisville: Westminster John Knox Press, 2011), 112.
[28] John N. Andrews, Three Messages of Revelation 14 (Nashiville, TN: Southern Publishing Association, 1970; fac-símile da edição original, Battle Creek, MI, 1892), 10–11.
[29] Stefanovic, Revelation of Jesus Christ, 448.
[30] David E. Aune, Revelation 6-16 (Thomas Nelson, 1998), 796.
[31] William H. Shea, “Literary and Theological Parallels between Revelation 14-15 and Exodus 19-24,” Journal of Adventist Theological Society (Berrien Springs, MI, 2001), vol. 12, no 2, 166.
[32] Mario Veloso, Apocalipsis Y El Fin Del Mundo: Fe Para Enfrentar La Crisis Final (Buenos Aires, Argentina: Asociación Casa Editora Sudamericana, 1999), 172.