quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A IMAGEM NA MÍDIA ADVENTISTA


A mídia é construída e sustentada pelo poder da imagem. O que celebridades midiáticas vestem ou costumam dizer se torna icônico. O icônico é o novo clássico: digno de ser imitado, mimetizado. O termo clássico significava, originalmente, aquilo que é digno de ser estudado em classe. Tem de ser reproduzido, porque está baseado em convenções (especialmente literárias e relacionadas às artes plásticas). As convenções estabelecem o lugar-comum, ou seja, o modelo para cada nova produção artística. A boa arte se faz dentro dessas convenções. A qualidade não tem que ver com absoluta originalidade, mas em respeitar com louvor o lugar-comum e fazê-lo com elegância.
No século XX, a arte moderna se ergueu contra as convenções, recuperando o ímpeto romântico (libertário em sua essência) e extravasando-o: havia, então, um anarquismo quase infantil, mas politizado e autoconsciente. Ironicamente, a mídia popular de massa (surgida ainda no período moderno) impõe o novo clássico: o icônico, a convenção da imagem. Você sabe que um herói entra em cena no filme pelos cortes, ângulos, fumaça, trilha sonora, postura corporal e tipo de roupa. Há uma maneira de filmar e apresentar a imagem do herói (tão estabelecida que já virou alvo de pastiche). Quando se quer que uma banda faça sucesso, o produtor se preocupa não apenas com a qualidade do material sonoro, mas com a capa do CD, o site oficial do grupo, as roupas que usarão e os programas de televisão nos quais estarão.
A imagem impõe uma nova racionalidade. O conteúdo está vinculado à aparência, responsável por fomentar o interesse sobre o produto. Ninguém é bem-sucedido se não usar certa marca de roupa. Ninguém é legal se não ouvir determinada música. Ninguém faz sucesso se não possui milhões de seguidores. Não à toa, as redes sociais que mais crescem (Instagram e Snapchat) não se baseiam em texto ou informação, mas no poder da imagem, do registro, explorado ad nauseaum. O sucesso inconteste dos youtubers não me deixa mentir.
Nesse contexto, a mídia adventista se forma. Primeiro, em uma tentativa embrionária, com a Chapel Records, dos anos de 1950 a 1970. Basicamente, a empreitada nasceu para ser uma gravadora que reunia os grandes músicos adventistas (King’s Heralds, Faith for Today Quartet, Del Delker, Ray Turner, King’s men, Brad Bradley e, posteriormente, Heritage Singers). Outras inciativas ganharam formas nas décadas seguintes, em diversos países do mundo, especialmente os programas radiofônicos e televisivos (precedidos pelo Voice of Prophecy e Faith for Today nos EUA). Isso até a consolidação do Hope Channel e seus similares (Novo Tiempo e Novo Tempo, para citar os exemplos presentes em nossa geografia) e da rede particular 3ABN.
Os adventistas jamais sonharam em gerenciar um império das telecomunicações. Suas iniciativas no campo da mídia em massa são para serem encaradas da mesma forma que seus investimentos em editoras, agências sociais, redes de educação e hospitalar e indústria alimentícia: são suportes missionários. Devem existir como parte de um projeto de influência, em prol da mensagem de advertência que deve ser dada (Ap 14:6-12). O perigo surge apenas quando uma instituição perde seu foco e se torna um fim em si mesma.
Há o risco da mídia adventista se tornar um gueto autorreferente. Usar linguagem que apenas os entendidos assimilem. Seria tremendo desperdício e despropósito. O outro extremo seria desenvolver uma mídia com mensagens genéricas, mal disfarçando o tom ecumênico e com exacerbada ênfase na imagem, copiando os modelos seculares, uma mídia icônica (no sentido negativo). Os efeitos de ambos os extremos seriam danosos, algo como irrelevância ou entretenimento, o discurso religioso sectário ou o tom de religiosidade secularizada e carismática (no sentido religioso, pentecostalizada). O risco permanece e não podemos dizer que se tenha chegado a um ou outro polo. Porém, todo cuidado é pouco. Resta nos lembrar que, no mundo da imagem, nossa salvaguarda é a Palavra (Mt 4:4)!

Leia também

  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A MISÉRIA DESTE MUNDO


Nosso mundo é um vasto hospital [em inglês, lazar house, ou seja, um leprosário], ou seja, um cenário de miséria em que não ousamos permitir mesmo que os nossos pensamentos se demorem. Compreendêssemos nós o que ele é na realidade, e o peso que sobre nós sentiríamos seria terribilíssimo. No entanto, Deus o sente todo. A fim de destruir o pecado e seus resultados, Ele deu Seu mui dileto Filho, e pôs ao nosso alcance, mediante a cooperação com Ele, levar esta cena de miséria a termo. “Este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim.” Mateus 24:14. 

Ellen G. White, Educação, 263.

Leia também

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TODOS TEMOS UM PAI


Todos temos um pai – um modelo gerador de perspectivas. Se nosso pai, nosso referencial, aquilo que origina nosso filtro para interpretar a realidade, não for Deus, certamente teremos alguém ocupando a lacuna. Mais do que uma denúncia da hipocrisia dos judeus, João 8:38 ensina que há a presença do conflito cósmico por trás daquilo que usamos para determinar o que é a verdade. Nossos pressupostos não se limitam a tentativas humanas, mas possuem a influência do mundo espiritual. Isso implica que o resultado final, aquilo que escolhemos ser e a forma como atuamos no mundo, nos identifica com Deus ou com o diabo (Jo 8:41-42).

De forma similar, o apóstolo Paulo afirma que o “deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2 Co 4:4). Segundo o texto, descrer é o resultado da cegueira provocada pelo diabo. A declaração é complementada com a ideia de que Deus “mesmo brilhou em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (v.6). Assim, da mesma forma como no texto de João, crer ou descrer não depende simplesmente de argumentação lógica ou exposição da verdade de modo proposicional (ainda que Paulo aluda à “clara exposição do evangelho”, v. 2); para além dos elementos cognitivos e racionais há o poder de pressuposições, influenciadas pela atuação de poderes espirituais. Cremos mediante nossa escolha espiritual em nos “filiar” a um lado do embate cósmico. Depois disso, criamos uma rede de ideias pré-concebidas contra ou a favor da verdade. Por essa razão, Jesus sabia da inutilidade em realizar sinais diante de uma geração incrédula (Mt 12:29; 16:4). E novamente Paulo postula que as coisas espirituais se entendem de modo espiritual, ou seja, por pessoas relacionadas com elementos espirituais (1 Co 2:13-14), sem excluir a atuação do Espírito do processo de decodificar a mensagem divina aos homens (a Verdade, na linguagem joanina).

Leia também: