sexta-feira, 10 de março de 2017

DECIDA POR MANTER A BASE


Foi curioso quando o repórter indagou o músico cristão o porquê de suas letras se tornarem menos explícitas em sua religiosidade; a resposta, entre outros elementos, destacou a necessidade de conversar com um público mais amplo, incluindo pessoas não religiosas. Afinal, nossas experiências humanas são as mesmas, quer para cristãos ou descrentes. Depreende-se daí um certo viés existencialista, que procura no universalismo a expressão de sua fé. Nada mais pós-moderno.
Reduzir a crença a um estar-no-mundo que, em essência, não difere muito de outras posturas existenciais é algo perceptível para além das ondas sonoras do gospel. As mensagens do púlpito focam problemas humanos, alguns de amplitude universal (solidão, medo, tristeza, etc) ou de caráter contemporâneo (divórcio, desemprego, crise familiar, etc). Não há dúvida de que Deus Se interessa pelo cotidiano de Seus filhos. Ele Se comunica conosco em nossas necessidades. Todavia, a ênfase dada é muito mais antropocêntrica, retratando Deus como um solucionador universal, uma espécie de consolo, minimizando o aspecto instrutivo e cognitivo da mensagem bíblica (aspectos que não deixam de ter implicações práticas também).
Um cristianismo que lê a Bíblia apenas preocupado no tipo de respostas divinas para os dilemas contemporâneos começa sua busca pelo lugar errado. A leitura (ou seja, a interpretação que fazemos) deve contemplar o que Deus disse, procurando entender (1) o momento em que Ele disse (contexto histórico), (2) dentro de qual livro Ele disse (contexto literário), (3) a relação do que Ele disse com outras coisas que também foram ditas (analogia das Escrituras), para compreender corretamente o que foi dito. Depois desse processo, que depende da nossa relação com o Espírito Santo (1 Co 2:13-14) e com o as próprias Escrituras (Is 8:19-20), se pode pensar em uma aplicação das Escrituras (para minha vida) e na proclamação (no púlpito, em um estudo bíblico, pequeno grupo, contato pessoal, etc).
Quando se lê a Bíblia apenas para justificar uma posição (seja doutrinária, pessoal ou apologética), etapas são queimadas. Fica mais fácil cometer erros na leitura (interpretação), deixando que opiniões, experiências ou a influência da tradição (antiga ou contemporânea) norteiem o entendimento. Temo que, pelo fato de não refletirmos sobre os passos adequados para o estudo das Escrituras, estejamos criando uma cultura de leitores deficientes, que, na melhor das hipóteses, conseguem mencionar textos bíblicos e se justificar por meio deles, mas que são incapazes de compreender a mensagem bíblica em todo o seu potencial. Não se habilitaram a fazer as correlações entre textos e perceber como a própria Escritura, tal um todo orgânico (cânon), fornece as ferramentas para sua correta leitura (interpretação). O máximo que conseguem é ler a Bíblia segundo o modelo da escola de Alexandria – como se a Bíblia fosse compostas de alegorias, que permitissem praticamente a livre interpretação. Por isso, tanta barbaridade é proferida dos púlpitos: falta de seriedade no estudo da Palavra.
A base da fé precisa ser a compreensão de mundo extraída das Escrituras (a visão canônica). Na Bíblia como uma todo (cânon), nós nos deparamos com nossos erros conceituais e idiossincrasias, além de termos a possibilidade de substituí-los pelos conceitos e instruções dados por Deus e aplicáveis à nossa vida.
A falta de explicitude nas músicas, as mensagens genéricas no púlpito, as opiniões obtusas na internet de cristãos que “usam” a Bíblia são fatores sintomáticos. Não passam de versões brandas e atuais do existencialismo contemporâneo. Nem bem se trata de um existencialismo à la Kierkegaard (lamentavelmente citado por outro músico cristão na recente edição de um programa televisivo): temos aqui sua versão mais rasa e superficial. Uma fé que se preocupa tanto com os problemas do mundo que não tem tempo para ocupar seu papel no mundo. Uma fé sem consciência de suas raízes bíblicas, sem embasamento sólido. Uma fé tão universal e similar à experiência do homem contemporâneo que seria de se admirar que ele possa se interessar por ela: afinal, o que ela oferece diferente do que ele já possui? E, mesmo que ele se interesse pelas questões que ela desperta, será difícil que ela o ajude a chegar aonde precisa, tão desvinculada se acha das Escrituras…


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