terça-feira, 20 de novembro de 2012

CONTEXTUALIZAÇÃO: UMA VIA DE MÃO DUPLA




Contextualizar é a palavra de ordem. O pós-modernismo é um desafio para a igreja? A Geração Y precisa de maior interatividade nos cultos? O Ocidente vive profunda transformações e hoje a sociedade se caracteriza como pós-cristã? Ora, a solução para todas as mazelas do evangelismo cabe em uma palavra: contextualização.
A contextualização seria tudo isso ou estamos atribuindo poderes mágicos a ela? É fato que ninguém ouve a mensagem do evangelho se não lhe for relevante? A relevância, segundo nos explicam, implica em traduzir o evangelho em termos significativos para determinado cultura. A transmissão do evangelho não ocorre no vácuo, porque seus ouvintes possuem culturas peculiares.
Por isso, é esperado que o missionário, esteja ele nas Ilhas do Pacífico ou em no contexto das grandes metrópoles ocidentais, compreenda a cultura das pessoas as quais pretende evangelizar, o que exige versatilidade, desprendimento e tolerância extremos. Ele precisa, antes de ser um bom pregador, aprender a agir como ouvinte. 
Falando especificamente do contexto atual, o mundo ocidental não é mais o quintal da paródia – está mais para o mar que cerca a ilha chamada igreja. Abordar as pessoas como se fazia a algumas décadas é frustrante. Não porque elas estejam menos interessadas em Deus, mas porque perdemos a capacidade de nos comunicar em termos que sejam compreensíveis. Assim, a contextualização seria crucial para que o evangelho alcançasse as pessoas.
A eloquência dos promotores da contextualização é inegável e é forçoso admitir que muito do que dizem seja coerente. Todavia, é óbvio que a mensagem do evangelho impõe limites a estratégias de aproximação com pessoas de outras culturas (ou mesmo os secularizados em nossa cultura); afinal, determinados costumes, embora aceitáveis em uma cultura, estariam contradizendo princípios bíblicos. Todo missionário, embora necessite se adaptar à cultura, não busca adotá-la em todos os seus aspectos. Nem poderia. Um pastor missionário na Albânia relatou que é costume naquele país as famílias distribuírem charutos caseiros aos visitantes. Nesse caso, oferecer fumo passa a mensagem de acolhimento e hospitalidade na cultura albanesa. Entretanto, fere o princípio de que o corpo é templo do Espírito Santo (1Co 10:25). Por constrangedor que fosse, o missionário cristão deveria gentilmente se recusar a aceitar a oferenda.
A apresentação do evangelho a qualquer cultura deve ser completa, a fim de que os indivíduos inseridos nela encontrem como expressar e viver as verdades aprendidas no ambiente de sua própria cultura. Desde Atos 15, a igreja cristã entendeu que não se faz necessário que o indivíduo migre de sua cultura para outra, com o objetivo de ser cristão. Aliás, tanto os judeus quanto os gentios passavam – e ainda passam –, a partir de sua conversão, a viver com uma cultura matriz (aquela de origem) e uma nova cultura, por assim dizer, que é a cristã.
O cristianismo está além da cultura judia, ou mesmo de qualquer outra. Em muitos lugares, ser cristão é ser ocidental. Até hoje paira sobre os missionários do passado a acusação de transmitir sua própria cultura enquanto pregavam o evangelho às pessoas. Desconfio que não seja exatamente o cristianismo que seja identificado como algo ocidental, mas as incoerências dos cristãos.
Pelo menos, assim reagem os muçulmanos diante da imoralidade, vida desregrada e consumo de bebidas alcoólicas por parte dos cristãos ocidentais. Em contrapartida, amigos que trabalham como missionários em países muçulmanos destacam que eles acabam se mostrando perplexos quando descobrem que eles, sendo adventistas e seguidores de Jesus, não fumam, bebem, comem carne de porco e se mantém virgens até o casamento.
O evangelho transformador apela a todas as culturas, não porque facilmente se adapte a elas, ao contrário: porque ela soa diferente de tudo o que se conhece. Ele desafia todas as culturas, mostrando vidas diferentes como resultado. Isso não significa que, quando aceitamos o evangelho, nossa cultura matriz é descartada de todo. Porém, o cristão agora vive de forma agradável a Deus, sublimando aspectos culturais contrários ao evangelho. Sua cultura matriz é transformada. Ele deixa de orientar pela cultura para se seguir exclusivamente aquilo que a Palavra Revelada lhe orienta a fazer, pensar, comer, sentir, expressar, cantar, viver. E é impossível isso não ser diferente para alguém que viva em Xangai, Buenos Aires, Paris, São Paulo ou qualquer parte do mundo!
Aqui está toda a questão crucial: entender o tipo bíblico de contextualização. Pouco proveito há em conceber a contextualização como mera adequação da igreja à cultura vigente ou mesmo à qualquer subcultura que se pretenda evangelizar; quando isso ocorre, não se pode falar em contextualização, mas em aculturamento. Ironicamente, denominações e movimentos que se aculturaram, pretendendo alcançar a relevância, se tornaram irrelevantes, sem poder para influenciar a cultura, posto que se tornaram parte dela.
Por outro lado, a contextualização genuína não altera a essência do cristianismo, apenas sua abordagem; ela atua evangelisticamente como um sentimento de levar o evangelho às pessoas onde se encontram, sabendo que isso será significativo porque o evangelho é uma necessidade profundamente arraigada no homem – embora não essa necessidade universal não seja universalmente reconhecida. Daí a necessidade do testemunho, que desperta no pecador (mendigo ou empresário, xintoísta ou ateu) o reconhecimento da necessidade do Salvador.
A contextualização se torna, desse modo, um processo de mão dupla: a igreja se adapta às pessoas, que se adaptam às ordenanças de Cristo. Como a igreja se adapta? Indo buscar essas pessoas dentro de suas realidades, tentando entender suas necessidades e oferecendo-lhes suporte e amizade desinteresseira. Esse tipo de contextualização exige, mais do que treinamento, coração; mais do que estratégia, consagração; mais do que leitura do ambiente, compaixão. Contextualização com discernimento: uma necessidade de todos os cristãos, em todas as épocas, para levar o evangelho a todos aqueles que precisam, em todas as épocas.
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